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Usada pela ultradireita e odiada pelo povo, Boluarte vê minguar apoio da mídia e do capital

País está tomado por uma sísmica comoção social, um repúdio popular que leva o regime subsistente a uma aprovação de 11%
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul Global
Lima

Tradução:

Não. Não há ponto de comparação nem semelhança alguma com aquela mulher que dirigiu a política britânica durante uma década, no século passado; e que passou à história como “A Dama de Ferro”. A nossa – a versão peruana – vai de queda em queda, de erro em erro. Por isso pode ser chamada com toda propriedade “A Dama de Ferro”.

Essa tendência é clássica nos aventureiros que de repente caem no barril da política sem perceberem o que lhes ocorre. No afã de buscar notoriedade – em alguns casos – ou simplesmente para sobreviver, em outros, vão ao que os franceses chamam “D’erreur en erreur”, e que os ingleses maliciosamente definem como “from mistake to mistake”; e que nós, crioulamente, admitimos simplesmente como “de erro em erro”.

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Equivocou-se quando subestimou a importância do 19 de julho, assegurando que “não aconteceria nada”. Não aconteceu, de fato, nada com ela; mas sim com o país, que se viu remexido por uma sísmica comoção social que confirmou o repúdio popular ao regime subsistente.

Equivocou-se também quando pensou que com um discurso de 97 minutos faria dormir tranquilamente o populorum em 28 de julho; e choveram rejeições por todo lado. Quando pensou receber “um banho de multidões” na Av. Brasil – no dia 29 – e só recebeu insultos e imprecações; quando foi ao hipódromo de Monterrico pensando que ali a burguesia a receberia com palmas, e só encontrou pífias palmas e vaias. E já se havia equivocado quando foi à Catedral de Lima em busca de uma homilia conciliadora e encontrou denúncias e imprecações.

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Nada pôde apagar nenhum destes desacertos. Nem sequer os venezuelanos contratados para desfilar como Ashaninkas na Parada Militar das Festas Pátrias. Tudo deu errado para a Senhora de Ferro.

As outras coisas foram resultado do mesmo signo. O Congresso não fez um acordo, e sim um compromisso. E armou uma mesa diretora que hoje cai sozinha por seus delirantes erros e denunciados delitos. Mas os congressistas tiveram tempo para aprovar uma lei contrária à Constituição e que permitiu a viagem ao Brasil da suposta mandatária e de seu “Governo à distância”. Hoje debatem outra, que propõe a vacância presidencial, com a continuidade do Legislativo.

País está tomado por uma sísmica comoção social, um repúdio popular que leva o regime subsistente a uma aprovação de 11%

Foto: Reprodução/Twitter
Embaixada dos USA olha tudo com desconfiança e temor; que a situação não lhe escape das mãos, como pareceu acontecer antes

Em Belém do Pará, as coisas correram ainda pior para ela. Quando chegou ao aeroporto da cidade, não foi recebida como mandatária. Foi esperada apenas pelo Coronel a cargo da administração do edifício, que a conduziu a uma sala em que a esperava o embaixador peruano e a chanceler Her Nazi. Depois viria um encontro protocolar com o Presidente Lula que, por cortesia, lhe estendeu a mão. Foi a única mão estendida que encontrou no encontro amazônico. Nenhuma foto pôde registrar o mais leve encontro com mandatário algum presente ao evento. E na vista final, teve que aplaudir os presidentes legítimos que saudavam com o punho erguido. 

Depois, já de volta, encontrou a mesma coisa. Em Camaná, teve que fugir, protegida por efetivos policiais, da ira da população. Não se atreveu, por isso, a visitar Arequipa, Huánuco ou Piura em 15 de agosto. Como tem muito dinheiro, agora oferece tudo aos governos regionais. Pensa comprar adesões.

As pesquisas registraram os fatos. Caiu de 19% de aceitação cidadã para 17% e depois 15%. Depois para 12%; hoje está em 11%. Mas sonha que é popular e querida, porque é mulher e provinciana.

A ultradireita a usou em determinado momento. Serviu-lhe para disfarçar o Golpe de Estado que derrubou em 7 de dezembro o Presidente Castillo. Valeu-se dela, com efeito, para carimbar a tese da “Sucessão Constitucional”. Mas este mito já era. Agora, esta direita se encontra diante de um governo débil, errático, improvisado, inconsistente e inepto. E está consciente que paga por suas debilidades e erros. Não lhe interessa mantê-lo. Usou-o como se usa o papel higiênico, e logo prescindirá dele, assim que puder.

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É claro que não lhe importa muito a subsistência da precária inquilina do Palácio. Por isso, nas páginas de “Expreso” e “La Razón”, e também de “Perú 21”, já iniciaram uma campanha de demolição contra ela. Buscará tirá-la do governo porque, finalmente, a despreza.

Por ora, a Dama de Ferro conta com o apoio da cúpula militar, do empresariado e da embaixada dos USA. A primeira se desqualifica porque, acuada pela realidade, teve que admitir o uso de armas letais e a aplicação de diretrizes de guerra para enfrentar a população em meses passados. E calou ante evidências, como a morte de Manuel Quilla Ticona, o homem de 36 anos, vítima de torturas e assassinado selvagemente. Nem o vergonhoso silêncio da procuradoria poderá salvá-la quando chegar a hora de prestar contas.

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Quanto ao empresariado, as coisas andam de mal a pior, porque a economia cai em recessão, a crise se agrava, “a recuperação” não ocorre e os desastres naturais afligem o país. Já há empresários que finalmente entendem que pelo caminho desta Dama só se vai ao inferno.

Enquanto isso, a embaixada dos USA olha tudo com desconfiança e temor. Que a situação não lhe escape das mãos, como pareceu acontecer antes.

A coisa se torna, então, particularmente desfavorável para a cúpula governante personificada em presidentes ou ministros; mas também para os que detêm postos “legislativos”. Uns e outros haverão de pagar, como finalmente começaram a pagar os autores da matança de Cayara, em maio de 87. Só que, neste caso, não será preciso esperar tanto. (FIM)

Gustavo Espinoza M. | Colunista na Diálogos do Sul direto de Lima, Peru.
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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