Pesquisar
Pesquisar

“Vacina inoculadora de comunismo”: Mídia ataca parceria da Argentina com a Rússia

A oposição apoiada nos grandes meios de comunicação (Clarin e La Nación) e nas redes sociais, exacerbam a luta de classes

Helena Iono
Diálogos do Sul Global
Buenos Aires

Tradução:

Como previsto, o anúncio de que até fins de dezembro a primeira vacina anti-Covid-19 a chegar na Argentina será a russa, Sputnik-V, gera uma histérica ideologização dos grandes meios de comunicação contra a “vacina inoculadora de comunismo”. A total falta de objetividade científica é normal no ambiente opositor, afins aos grandes grupos empresariais e financeiros, que se apoiam na pandemia para demolir toda iniciativa econômica ou sanitária bem sucedida do governo para salvar vidas; sobretudo quando se trata dos mais despossuídos e vulneráveis. A oposição apoiada nos grandes meios de comunicação (Clarin e La Nación) e nas redes sociais, exacerbam a luta de classes, a chamada “grieta” (brecha), defendendo a “sagrada propriedade privada” frente a toda medida progressista do governo da Frente de Todos, através de bandeiraços minúsculos, mas violentos, instigados pela extrema direita: a ex-ministra da Segurança, Patrícia Bullrich, e o ex-presidente, Macri. Em Bariloche, manifestantes anti-vacina russa, desfilaram vestidos de Ku Klux Kan. Na capital de Córdoba, bonecos enforcados de Cristina Kirchner e Alberto Fernández foram expostos na presença de Patrícia Bullrich.

Nenhum escândalo ocorreu quando a Argentina decidiu meses atrás produzir com o México a vacina inglesa da Astrazeneca e Oxford. Aliás esta está ainda em fase de ensaio da fase II/III no Reino Unido, Estados Unidos e Brasil; e nas fases I/II na África do Sul, Japão, Quênia e Rússia. Mesmo assim, a Argentina antecipou a compra de 22 milhões de doses dessa vacina que deverá estar disponível no primeiro semestre de 2021. Ao passo que a vacina russa, Sputnik-V, já em fase III e em fabricação e distribuição na Rússia, chegará em 10 milhões (com doses duplas) na Argentina em dezembro. Além disso, estão se realizando provas com a vacina norte-americana Pfyzer, a Johnson & Johnson e uma das vacinas chinesas (Sinopharm). Leia

Em colóquio por vídeo conferência de 45 minutos, o presidente russo, Vladmir Putin, e Alberto Fernández concordaram com a possibilidade da Argentina seguir os estudos da fase III da Sputnik-V, via online, através da ANMAT (Agência Reguladora Argentina (ANMAT), acelerando a sua aprovação, entrada e distribuição no país, já em dezembro de 2020. O acordo implica em poder contar com o fundo soberano da Rússia, numa relação direta de Estado a Estado para a aquisição das vacinas. A Sputnik-V é realizada por um dos mais completos centros de epidemiologia e microbiologia do mundo, o Nikolai Gamaleya, num país com inquestionável capacidade científica, promotora de 5 viagens espaciais, incluindo o pouso na Lua e em Vênus. 

A oposição apoiada nos grandes meios de comunicação (Clarin e La Nación) e nas redes sociais, exacerbam a luta de classes

PxHere
A total falta de objetividade científica é normal no ambiente opositor.

O fato é que o diálogo entre Alberto e Putin transcendeu a negociação da vacina anti-Covid-19. Além dos projetos pós-pandemia, falou-se em reativar um memorável acordo de Associação Estratégica Integral assinado pela ex-presidenta Cristina Kirchner em abril de 2015 com Putin. Isso consistia em acordos de alta tecnologia nuclear, espacial e militar; produção de energia atômica para fins pacíficos e de lítio;  investimentos financeiros e comerciais, sem contar a cooperação na área da cultura, educação, turismo e esportes. O acordo de então, referia-se à reestruturação das dívidas soberanas e ao fortalecimento da CELAC. Conversou-se também sobre a possibilidade da Rússia participar na formação de uma empresa agroexportadora na Argentina. Pelo que tudo indica, a Rússia, uma das maiores potências econômica e militares, contrapostas ao poderio norte-americano, poderá passar a ser, com o governo de Alberto/Cristina, um ponto importante de influência na região latino-americana, como já é na Venezuela. Em julho de 2014, a ex-presidenta Cristina Kirchner foi convidada por Putin a participar da reunião do BRICS no Ceará, e da primeira cúpula conjunta do BRICS-UNASUL, durante o governo de Dilma Rousseff. Este processo de integração foi interrompido pelo advento do governo neoliberal de Macri em 2016. A campanha midiática contra a vacina-russa é expressão do pânico dos grupos hegemônicos de poder (Clarin e La Nación), sustentados nos EUA e no lawfare, ameaçados pela contraofensiva da retomada da chamada “década ganhada” do período kirchnerista. 

As Forças Armadas mobilizadas para a distribuição da vacina

Uma medida importante anunciada pelo presidente Alberto Fernandez, via cadeia nacional, é que o processo de transporte e distribuição das vacinas, além de estar sob seu comando direto, estará a cargo das Forças Armadas. Agustín Rossi, atual ministro da Defesa, anunciou que as Forças Armadas estarão envolvidas com equipamentos e cerca de 80 mil agentes em todo o território nacional para viabilizar a vacinação em trabalho conjunto com os ministérios da Saúde, Defesa, Segurança e Interior, alcançando todas as 23 províncias (estados) argentinas e a capital federal. 

Tal política de envolver as Forças Armadas em tarefas sociais, indica um empenho em gerar consciência de novas gerações de militares, para reconstruir e revisar o papel nefasto que cumpriu a cúpula militar e o seu envolvimento direto no genocídio da ditadura.  Até hoje, o estigma que cai sobre todo militar argentino é que é um “gorila”. Nestor Kirchner, iniciou um trabalho no sentido de um outro exército, comprometido com os direitos humanos e as obrigações patrióticas e sociais, e Cristina Kirchner mobilizou militares na atenção aos inundados de La Plata, nos moldes da histórica Operação Dorrego em 1973. Na nova gestão de governo nota-se um empenho dos militares na implantação de módulos hospitalares de atenção aos pacientes de Covid-19 em todo o país. E há movimentos importantes na área da Defesa e da Justiça, que estão colocando no banco dos réus a Macri, o ex-ministro da Defesa, Oscar Aguad, e ex-chefes da Marinha, por ocultamento de informações e responsabilidade na morte de 44 marinheiros no afundamento do submarino Aras San Juan em novembro de 2017.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Veja também

   

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:

 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Helena Iono Jornalista e produtora de TV, correspondente em Buenos Aires

LEIA tAMBÉM

Protestos no Paraguai: bloqueios indígenas e marchas da Geração Z revelam crise histórica de direitos
Protestos no Paraguai: bloqueios indígenas e marchas da Geração Z revelam crise histórica de direitos
“Não somos terroristas”: repressão e morte impulsionam os protestos indígenas do Equador
“Não somos terroristas”: repressão e morte impulsionam os protestos indígenas do Equador
Após NBC noticiar que EUA planejam atacar Venezuela com drones, Maduro decreta estado de exceção
Após NBC noticiar que EUA planejam atacar Venezuela com drones, Maduro decreta estado de exceção
Estamos vivendo o fim do capitalismo global? Ramonet avalia lições de Venezuela e Palestina
Estamos vivendo o fim do capitalismo global? Ramonet avalia lições de Venezuela e Palestina