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Vítima da Covid-19, Ygona fez de sua vida nas redes uma novela com fim de tragédia grega

Mesmo com tantas coisas ruins que acontecia com ela, a influencer digital ainda assim preservava uma candura em sua vida
Rúbia Maria
São Paulo (SP)

Tradução:

O meme é uma das mais brilhantes formas de se furar o sistema do entretenimento

Ygona, vim escrever esse texto no Dia da Visibilidade Trans – 29 de janeiro, afinal não poderia ser diferente: tudo que é ligado a você é autentico e ocupa espaço pois você era dona de um talento orgânico para atrair holofotes, coisa de gente famosa.

Tudo isso começa junto com o funk na minha vida. Há mais o menos quatro anos, realizamos um programa de entretenimento para jovens o Alê do Rolê, basicamente gravando os bailes, uma espécie de Amaury Jr da quebrada. E eis que a Ygona chama atenção do diretor do programa, o Carlos Ronchi, já apontando que precisava conhece-la.

De cara já fiquei intrigada, como poderia ter esses dois públicos tão fortemente, a molecadas meia da canela e ao mesmo tempo LGBTQ+, só nesse mundo do funk poderia surgir o que mais para frente se tornaria a Rainha dos Meme. Simplesmente fez uma limonada com pouquíssimos limões e ficou extremamente bom, o famoso talento nato. Queria muito assessora-la logo de cara, mas no processo percebemos que precisaríamos nos conhecer, nos envolver melhor.

Mesmo com tantas coisas ruins que acontecia com ela, a influencer digital ainda assim preservava uma candura em sua vida

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O meme é uma das mais brilhantes formas de se furar o sistema do entretenimento

Com isso me abrir ao complexo universo dela: favelada, preta, periférica, gorda e trans, tudo em uma única pessoa, quem acompanhou a novela da vida dela nos story sabe o que estou dizendo. Uma noite, do nada, me liga pedindo ajuda, sem deixar aqui grandes detalhes fizemos contato com a Casa1, dali por diante saiu do mundo de quebrada (mais a quebrada nunca saiu dela) e foi para o centro de São Paulo, viu diversas pessoas e além de se identificar posso dizer que se encontrou! Como um foguete só subiu, hora contando sua vida, outras surtando nas redes sociais. Como era divertido, né?

Aí errou a mão, chegamos na pandemia, fez de tudo para chamar atenção, na cabeça dela não se tinha nada a perde, mau sabia que seria a vida, não levou isso a sério pois vira e mexe era posta a prova sua vida, ela era alvo dessa sociedade e foi alvo do Covid-19.

Mesmo com tantas coisas ruins que acontecia com ela ainda assim preservava uma candura em sua vida. Confiava em pouquíssimas pessoas chegando ao ponto de apropriar, as vezes brigava com elas também, basta ver alguns amigos dela que são influenciadores. Melhor ainda: se você nunca brigou com a Ygona não foi amigo dela de verdade.

A raiva e o deboche que despejava nas redes sociais era também um pedido de socorro e tudo isso ela transformou em um meme que solta riso de canto de boca até uma gargalhada. Não guardava rancor, alias seu rancor acabava junto com aquele story do Instagram de 24 horas.

Voltou a falar com a sua mãe, que ficou indo todos os dias para o hospital, alguns dias anteriores ela tinha ajudado na mudança da Ygona de volta para Cidade Tiradentes, começando na prática um ciclo de tolerância, respeito e muito preocupação, contraditória porém a vida prega essas peças, meus sentimentos a vocês.

Chegou o ano de 2021 vamos trabalhar juntas, ai ela me liga novamente ‘Rúbia preciso ir ao médico’ quando cheguei estava mau, mas não saiu descabelada, se arrumou colocou o vestido florido e fomos. Ficamos o dia todo entre posto de saúde e o hospital, demos risadas. Descobrir os Hater que a seguia, personificação da inveja nas redes sociais (povo sem talento), mas levou o nome dela para o primeiro lugar no Twitter. Como gostaria que ela tivesse visto o tamanho que se tornou, uma representação que atingiu o mundo.

Ainda não sei o que ela representou, fez da sua vida uma novela no qual o personagem principal acabou como as tragédias grega, na quebrada sempre nasce esse talentos que, assim como Vincent van Gogh, é reconhecido quando morre.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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