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Vitória da diplomacia de AMLO: EUA liberam general mexicano acusado de narcotráfico

Os dois governos chegaram a um acordo de que Estados Unidos buscaria desconsiderar as acusações para que o México procedesse com a investigação
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos decidiu retirar as acusações contra o general Salvador Cienfuegos Zepeda, ex-secretário de Defesa Nacional, por “considerações de política exterior” estadunidense e para permitir que seja investigado pelas autoridades no México.

Os promotores estadunidenses registraram na segunda-feira ante o tribunal federal em Nova York encarregado do caso, a solicitação formal para que essa corte desconsidere a acusação formal já que “Estados Unidos determinou que considerações delicadas e importantes de política exterior superam o interesse do governo em proceder com a acusação, sob a totalidade das circunstâncias e portanto, requerem desestimar o caso”. 

Em um comunicado conjunto emitido na tarde de terça-feira, o procurador geral William Barr e sua contraparte mexicana, o promotor geral Alejandro Gertz Manero, informaram que “em reconhecimento da forte cooperação na aplicação da lei entre o México e os Estados Unidos, e na interesse de demonstrar nossa frente unida contra toda forma de delinquência, o Departamento de Justiça tomou a decisão de buscar deixar de lada as acusações estadunidenses contra o ex-secretário Cienfuegos para que possa ser investigado,  e se for apropriado, acusado sob a lei mexicana”. 

Agregam que “por solicitação da promotoria Geral da República [do México], o Departamento de Justiça, sob o Tratado que governa o intercâmbio de evidência, entregou ao México as evidências desse caso e se compromete à cooperação contínua, sob esse marco, para apoiar a investigação das autoridades mexicanas”. 

Concluem que esta decisão expressa que “somos fortes quando trabalhamos juntos e respeitamos a soberania de nossas nações e suas instituições. Esta cooperação próxima incrementa a segurança dos cidadãos de nossos países”. 

O comunicado indica que ao ficar sabendo da prisão de Cienfuegos, a Promotoria Geral do México abriu sua própria investigação e que agora os estadunidenses cooperarão com o interrogatório mexicano. 

Os promotores estadunidenses já haviam tomada a decisão de abandonar o caso desde a segunda-feira, 16 de novembro, já que registraram documentos ante o tribunal federal daqui com a solicitação de desconsiderar as acusações. 

Os dois governos chegaram a um acordo de que Estados Unidos buscaria desconsiderar as acusações para que o México procedesse com a investigação

La Jornada
Comunicado indica que ao ficar sabendo da prisão de Cienfuegos, a Promotoria Geral do México abriu sua própria investigação.

Nessa solicitação formal, a juíza encarregada do caso, Carol Amon, além de assinalar as “considerações” de política exterior que os levaram a essa decisão, os promotores federais informam que depois da prisão de Cienfuegos, houve discussões com o governo do México que havia aberto sua própria investigação. Os dois governos chegaram a um acordo de que Estados Unidos buscaria desconsiderar as acusações para que o México procedesse com a investigação e “potencialmente” formulasse acusações contra Cienfuegos sob a lei mexicana.

Depois das discussões bilaterais, segundo a solicitação formal, o Departamento de Justiça determinou que esta desconsideração de acusações “está no interesse público dos Estados Unidos em reconhecimento da cooperação entre os Estados Unidos e o México sobre o cumprimento de lei bilateral …” 

No documento oficial dos promotores à juíza Amon, lhe informam que chegaram a um acordo com o acusado pelo qual, se o tribunal aceitasse a solicitação e ordenasse retirar as acusações, Cienfuegos “voluntariamente sairá dos Estados Unidos e será transportado de maneira expedita ao México sob a custódia do Serviço de Delegados dos Estados Unidos”. 

Cienfuegos estava citado a uma audiência preliminar de seu julgamento nesta quarta-feira. Segundo porta-vozes da promotoria, essa audiência acontecerá, mas agora se espera que os promotores apresentem à juíza Amon sua solicitação para a retirada das acusações. 

O general Cienfuegos foi preso em Los Angeles pelas autoridades federais dos Estados Unidos em 15 de outubro de 2020, acusado de narcotráfico e lavagem de dinheiro pelo que enfrentava uma condenação máxima de prisão perpétua. 

Os promotores encarregados do caso acusavam o General Cienfuegos Zepeda de abuso de seu posto para ajudar o cartel H-2 a traficar milhares de quilos de diferentes narcóticos aos Estados Unidos e em troca de subornos permitiu que esse cartel atuasse com impunidade no México. Detalharam também que entre dezembro de 2015 e fevereiro de 2017 o general Cienfuegos, segundo eles também conhecido como El Padrino, conspirou junto a outros para manufaturar e distribuir drogas ilícitas incluindo heroína, cocaína, metanfetaminas e maconha com o conhecimento de que seriam exportadas para os Estados Unidos.

Nos documentos apresentados em preparação para seu julgamento, os promotores afirmaram contar com evidências incluindo milhares de comunicações por BlackBerry Messenger interceptadas pelas autoridades, de que enquanto era secretário de Defesa Nacional, Cienfuegos ajudou o cartel H-2 de múltiplas maneiras, incluindo assegurar que não fossem realizadas operações militares contra esse cartel, lançando operações contra os rivais do H-2, facilitando transporte marítimo, ampliando o território controlado por esse cartel a Mazatlán e ao resto de Sinalou e apresentando líderes do cartel a outros funcionários mexicanos dispostos a colaborar. 

Supõe-se, com base na solicitação dos promotores e o anúncio do Departamento de Justiça, que tudo ou muito desse material será “compartilhado” com as autoridades mexicanas.  

O general foi transferido de Los Angeles a Nova York onde está – ou estava – encarcerado enquanto se iniciava seu processo de julgamento no Tribunal Federal dos Distrito Leste, onde se originaram as acusações em agosto de 2019. No passado 5 de novembro apresentou-se em sua primeira audiência onde se declarou “inocente” de todas as quatro acusações contra ele.

Cienfuegos já tinha um encontro marcado para a segunda audiência preliminar de julgamento nesta quarta-feira. Agora que a audiência vai prosseguir e os promotores devem apresentar seu pedido para retirar as acusações perante o juiz Amon.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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