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Vitória perigosa da direita no Peru

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

No Peru ocorreu o que já se previa. A direita pôde cantar vitória depois das eleições peruanas de 10 de abril.

Gustavo Espinoza M.*

candidatos-peru_HQN9fBH (1)Mesmo tendo havido irregularidades notáveis na votação e se note indícios de fraude, o processo eleitoral em marcha concluiu com a vitória de Keiko Fujimori, com 39,1% no primeiro turno, tendo em segundo lugar o neoliberal Pedro Pablo Kuczynski. A candidata da esquerdista Frente Ampla, Verónika Mendoza, chegou em terceiro lugar.

Sobre a conquista de primeiro lugar e a ida de Keiko para o segundo turno ninguém tinha dúvida. Era uma possibilidade e uma ameaça concreta a ser enfrentada a partir de uma dura luta ideológica e política e através de uma clara pedagogia de massas. O fato do percentual ter sido maior que o previsto –devia ficar em torno de 34%-, esses cinco pontos de diferença talvez se deva a fraude, cédulas marcadas com voto nela introduzidas ilegalmente nas urnas antes do pleito de domingo (10/04). Isso foi denunciado em alguns postos de votação em Chiclayo e Lima e, inclusive, no consulado do Peru em Roma
O segundo lugar também era previsível. Alcançada por Pedro Pablo Kucinscki, o PPK, uma versão peruana de Sánchez de Lozada, o pitoresco ex-presidente boliviano radicado nos Estados Unidos depois de ter sido deposto. O percentual obtido também foi maior do que originalmente previsto, porque se nutriu da migração de eleitores que não aceitam a Keiko, e tampouco se animaram a “votar pela esquerda”.
Verónika Mendoza, a mais qualificada representantes da esquerda, teve menos do que o previsto nas prévias e ficou em torno dos 18%. Não obstante, conseguiu uma significativa presença em sete regiões do sul andino e uma votação relativamente alta em Arequipa e no oriente peruano. Em Cajamarca, Gregório Santos se impôs sozinho, apesar de ter feito uma campanha de dentro da prisão, com absoluta falta de liberdade e de recursos. Sua vitória local e os quase quatro pontos percentuais na eleição presidencial refletem um nível de aceitação que não se deve subestimar.
Como explicar o que ocorreu? Em primeiro lugar o fato de que durante cinco anos, com ingentes recursos econômicos, Keiko Fujimori percorreu o país construindo sua imagem, erguendo sua estrutura partidária e recrutando adeptos em um e outro rincão sem ninguém que lhe contestasse. Um setor da esquerda, durante todos esses anos, baixou a guarda diante do avanço dela e não a combateu, não denunciou que ela era a própria máfia mais corrupta e assassina que aviltou a vida nacional. Concentrou suas baterias no presidente Ollanta Humala, atribuindo a ele todos os males.
Nenhuma revelação política nem ideológica foi feita em Lima, nem no norte, nem no centro do país. Ao contrário, deixaram-na correr só, solta no prado e com suas bolsas cheias. Está aí o resultado.
Abandonado o campo da discussão politica, a luta ficou à disposição das massas isoladas e sem recursos, que tiveram que enfrentar os desafios do momento nas mais precárias condições. Porém o fizeram com honra. Assim, entenderam as denúncias sobre a máfia e resultou numa forte votação por Verónika e Santos. Onde houve lutas – em Tintaya, Tia María ou Conga- as massas souberam identificar e derrotar a campanha de Keiko.
Só na reta final o país pareceu tomar consciência do perigo que o ameaçava. E isso explica a imensa mobilização humana do dia 5 de abril, e que ela tenha se reproduzido em quase todas as capitais e interior do país. Não obstante, esses fatos foram episódicos e insuficientes. Não devia ter sido motivo para um dia de entusiasmo, mas uma campanha intensa, cotidiana, de anos de luta em todos os terrenos. Tinha que ter passado do adjetivo à analise de conteúdo. Essa foi a tarefa que não foi executada.
A falta de unidade dos setores democráticos foi o segundo grande fator. Não se tratava só de forjar a “unidade das esquerdas” – que era importante – mas sim construir a mais ampla unidade do povo para enfrentar a máfia e derrotá-la. Isso passava por ganhar a todos os que pudessem somar-se a nossas filas e neutralizar as “forças intermediárias para que não jogassem com suas próprias cartas. E isso não foi feito. Não se conseguiu unir a todos nem foi possível neutralizar quem quer que fosse.
Não obstante, há que resgatar que a campanha de Verónika Mendoza surgiu do nada e cresceu apesar de ínfimos recursos. Ganhou vontades e chegou a muitos. Teve um discurso democrático, certamente progressista. E se projeta, a partir dessa experiência, como uma força significativa e em ascensão. E terá uma representação parlamentar que, ainda que pequena, aparece como coesa e combativa. E pode ser a base para uma recuperação futura, desde que supere  as armadilhas, o sectarismo e os preconceitos que a frearam.
Um fato lamentável na campanha foi que boa parte das forças que a compunham estavam convencidas de que Fujimori ganharia no primeiro turno e se empenharam não em derrotá-la, mas em ocupar o segundo lugar para enfrentá-la no segundo turno em junho. Assim, no lugar de fazer causa comum na luta contra a máfia, se digladiaram  entre eles e se desqualificaram mutuamente. O troco? Todos perderam potencial eleitoral e o fujimorismo alcançou a maioria de 65 dos 130 congressistas na Câmara Única.
Com essa proporção –independentemente inclusive do segundo turno em junho- a máfia fujimorista ressurge e recupera quase todo seu poder. E constitui a maior ameaça e mais perigosa que pesa sobre o país.
E aqui há um terceiro fato. Como se explica que uma força que no âmbito parlamentar alcançou só um terço dos votos, tenha a metade mais um dos congressistas? Pelos mecanismos fraudulentos que regularam o processo eleitoral.
Uma prova?
Em Cajamarca, o Partido de Santos obteve 40% dos votos no  âmbito parlamentar. Ganhou de todos. Teria direito de 4 a 5 parlamentares da região. Contudo, como esse partido no âmbito nacional não passou da raia – ou seja, teve menos que 5% dos votos – não terá nenhum congressista e os 4 serão atribuídos a Keiko. Ela também se beneficiou com os votos “nulos e brancos” ao serem considerados “validamente emitidos”. Então foram repartidos proporcionalmente entre todos. Os com maior votação receberam mais. Keiko em primeiro.
Esse tema do “mínimo legal” de 5% foi usado também como uma armadilha. Originalmente se situava em 7% dos votos. E se manteve como exigência até que focou claro que o ex-presidente Alan García não alcançaria esse nível. Então se baixou para 5. García chegou a 5.6% e fez seis parlamentares. A máfia em ação.
Quais serão as consequências do que ocorreu? Está claro que esta eleição não é só uma perda para o Peru. É também uma derrota para o processo emancipador latino-americano. Inclusive para a política exterior peruana que terá um rumo anti bolivariano e servirá para enfrentar o movimento antimperialista em nosso continente. Isso constituirá, objetivamente, um retrocesso ao alcançado pelo Peru no cenário internacional no último qüinqüênio.
O segundo turno, em 5 de junho, definirá entre duas opções péssimas. Uma, a de PPK, objetivamente pró-ianque em todos seus aspectos. E a outra, uma máfia que tornaria o país ingovernável. A tarefa imediata é recompor forças e unir o que for possível para barrar a marcha de Fujimori para que não monopolize o poder nem tenha o controle sobre ele. Seria ante sala de uma sinistra ditadura.
Por que votar em junho? Até que se poderia dizer que não há alternativa. Por isso, não é necessário que se diga, ou se ordene. Cada cidadão dará seu voto em seu momento de acordo com sua consciência, sabendo qual é o pior inimigo a ser derrotado.
*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru
 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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