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Vivemos tempos de mudança, não de conciliação: Stédile critica ‘nova esquerda’

“Precisamos de um longo período de luta de classes que vá além do período de um governo. Às vezes, as massas demoram a entender o que está acontecendo”, disse em entrevista exclusiva
Mariano Vázquez
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Atualizada às 21h53 para correção de informação

Tradução: Diálogos do Sul

João Pedro Stédile, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil (MST), concedeu uma extensa entrevista colaborativa nesta quarta-feira (7) ao Fórum de Comunicação para a Integração da Nossa América (FCINA), na qual discutiu a situação dos movimentos populares no Brasil; o terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva; o avanço da extrema-direita no continente e no mundo; as iniciativas de integração; a aliança da classe trabalhadora no campo e na cidade; a crise do capitalismo e o papel dos Estados Unidos na região no marco dos 200 anos da quando a Doutrina Monroe, que definiu a América Latina como quinta de exploração dos Estados Unidos. Stédile é o líder do maior movimento de trabalhadores camponeses do mundo. O MST, cujos embriões remontam à luta pela terra na década de 1970, foi fundado em 1984, durante o 1º Encontro Nacional em Cascavel, no estado do Paraná, com o objetivo de lutar pela terra, pela reforma agrária e por mudanças sociais no Brasil. “Queremos ser produtores de alimentos, cultura e conhecimento. Queremos ser construtores de um país socialmente justo, democrático, com igualdade e em harmonia com a natureza”, proclamaram à época. Hoje, o movimento está organizado em 24 estados das cinco regiões do país. Mais de meio milhão de pessoas já conquistaram seu território por meio da organização. 

A seguir, os principais trechos da conversa:

“Precisamos de um longo período de luta de classes que vá além do período de um governo. Às vezes, as massas demoram a entender o que está acontecendo”, disse em entrevista exclusiva

Reprodução Youtube Diálogos do Sul
Entrevista exibida na Tv Diálogos do Sul

Crise do capitalismo e da democracia

Estamos em um quadrante da história de uma crise estrutural do modo de produção capitalista que afeta todo o Ocidente. O capitalismo está em uma grave crise econômica porque não consegue mais produzir os bens necessários para a população, embora os capitalistas estejam ficando bilionários. 

Há uma crise política porque o Estado burguês não está interessado na democracia, o capital financeiro transnacionalizado não está interessado na democracia, por isso financiou golpes de Estado, promoveu grupos fascistas, financiou a extrema-direita. 

Há também uma crise ambiental muito grave em todos os países e o capital tem operado como uma ofensiva sobre os bens da natureza que deveriam pertencer a todos, mas eles tentam se apropriar da natureza de forma privada. No Brasil, tivemos quatro golpes antidemocráticos nos últimos seis anos. Nesse período, chegamos a 70 milhões de trabalhadores fora da estrutura produtiva.

O governo Lula e a extrema-direita

Sabemos que este é um governo de coalizão, uma frente ampla, mas ainda estamos tentando pressioná-lo para que cumpra o programa mínimo, o plano emergencial com o qual se comprometeu na campanha: combater a fome distribuindo alimentos; construir as moradias necessárias e adotar um plano econômico que nos leve à reindustrialização e à produção de alimentos com base na agricultura familiar camponesa. 

Mas a direita fascista, que perdeu as eleições, se instalou no Parlamento, que é uma trincheira da direita. A esquerda tem apenas 130 deputados garantidos em um total de 513. Por isso, dessa tribuna, a direita impôs uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para acusar o MST de crimes pela ocupação de terras, mas a ocupação de terras não é um crime, é um direito do povo. É por isso que Lula terá dificuldades em levar adiante suas políticas e será muito difícil promover mudanças estruturais sem o apoio das massas.

200 anos da Doutrina Monroe e o papel dos EUA

Há 200 anos eles [Estados Unidos] nos tratam como colônia, só querem matérias-primas, commodities, nossos mercados e nos explorar com o dólar. 

Com esses papéis verdes, compram governos, fábricas. Eles compram tudo na nossa América Latina, saqueando nossas riquezas e nosso trabalho. 

Lula está conscientemente fazendo relações bilaterais, levantando sua voz contra o dólar, que é o centro de exploração de nossos povos, para começar a usar nossas moedas. 

Lula pede para construir a paz, mas os Estados Unidos querem guerras para vender sua principal mercadoria, que é a indústria bélica. 

Os problemas de nossos países latino-americanos não podem ser resolvidos isoladamente, mas recuperando os pensamentos dos clássicos, como José Martí, Hugo Chávez, Fidel Castro, que enfrentaram a teoria de Monroe. Lula enfatiza que os problemas da América Latina só serão resolvidos se construirmos a integração regional.

Situação dos movimentos sociais

O internacionalismo é nosso princípio, é uma necessidade. Ou nos unimos como classe trabalhadora ou não venceremos. 

O MST é herdeiro daquela vontade política que aprendemos com a Revolução Cubana, aprendemos que a solidariedade é um princípio, não é caridade, é uma forma política fundamental de agir. Não há como construir uma civilização humana mais desenvolvida, não conseguiremos a mudança sem derrotar o capitalismo financeiro, sem derrotar o império. 

Para isso, precisamos de um longo período de luta de classes que vá além do período de um governo. A maioria das forças de esquerda que chegaram aos governos não entende os tempos em que vivemos. São tempos de mudança, não são tempos de conciliação e, às vezes, as massas demoram a perceber o que está acontecendo.     

Iniciativa de Pepe Mujica

Na área de integração popular, que envolve os Movimentos da ALBA, CLOC-Via Campesina, coletivos de esquerda, Movimiento de Participación Popular (MPP) e a CSA (Confederação Sindical das Américas), planejamos com Pepe Mujica uma espécie de aula magna 'Pensando o futuro', aproveitando seu pensamento e suas ideias.

Estamos convocando vocês para participarem, no dia 23 de junho, na forma de uma rede continental para que o velho Mujica possa nos dizer quais são os dilemas da humanidade nesse quadrante que é a luta da classe trabalhadora.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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