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Voo da Ryanair: Lukashenko diz que há “uma operação de guerra híbrida coordenada de antemão” contra a Bielorrúsia

Mandatário destacou que serviço secreto não agiu na controversa aterrisagem forçada e criticou países que condenara a detenção de Roman Protasevich, considerado um terrorista para o governo bielorrusso
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Diante de um auditório de legisladores e funcionários públicos que concordam com tudo o que diz, o presidente da Bielorrússia, Aleksandr Lukashenko, ofereceu nesta quarta-feira (26) sua peculiar versão da aterrissagem forçada de um avião europeu em Minsk e, após repetir que os serviços secretos bielorrussos nada tiveram que ver com isso, arremeteu contra os países que condenaram a detenção de Roman Protasevich e de sua noiva russa, Sofia Sapega, porque — segundo ele — são criminosos que merecem um severo castigo. 

Lukashenko assegurou que ninguém obrigou o piloto do voo da Ryanair a aterrissar em Minsk e que a ameaça foi recebida em um correio eletrônico que partiu de um computador na Suíça (também sublinhou a frequência com que recebe ameaças da Polônia e da Lituânia), e assevera que o e-mail foi enviado também a Atenas, na Grécia, e Vilnius, na Lituânia…

A mensagem, sublinhou, era inequívoca: havia uma bomba preparada para explodir se não se cumprissem as condições do grupo armado Hamas e, por isso, decidiu-se enviar um Mig-29 para sugerir uma rota que evitou o perigo de que o avião caísse sobre uma central nuclear em território bielorrusso e facilitou o caminho para Minsk, embora faltassem apenas 70 quilômetros para chegar a Vilnius. 

“Imaginam o que aconteceria se a bomba explodisse em cima da nossa central nuclear?, perguntou-se Lukashenko e ele mesmo respondeu: “Não podíamos permitir isso”. E se alguém ainda tivesse dúvidas, agregou: “Além disso, a bordo ia um terrorista que queria cometer um massacre e no Ocidente sabiam disso”. 

Se supõe que para Lukashenko “terrorista” era Protasevich, que ademais tinha “um cúmplice”, seguramente sua noiva. Em troca, lhe pareceu normal que três passageiros tenham ficado em Minsk, sem seguir no voo para seu destino, Vilnius, para “não ter que regressar da Lituânia”, esclareceu. Muito menos desmentiu que esses três indivíduos, segundo se comenta, fossem supostos agentes do serviço secreto bielorrusso. 

Para fechar este relato, cheio de contradições e carente de lógica, Lukashenko não podia eludir o desmentido categórico do Hamas de que é falsa a suposta ameaça que lhe é atribuída. Por isso, aportou esta frase excelsa: “Hamas ou não Hamas, que importância tem isso hoje em dia”. 

Porque, explicou, “o piloto teve tempo suficiente para tomar uma decisão, enquanto estava em perigo a vida de 123 passageiros de distintos países e seis membros da tripulação”. 

Mandatário destacou que serviço secreto não agiu na controversa aterrisagem forçada e criticou países que condenara a detenção de Roman Protasevich, considerado um terrorista para o governo bielorrusso

Wikicommons
Desvio da rota do voo gerou indignação na Europa, que fechou o espaço aéreo para aviões da Bielorrússia

Para Lukashenko, o verdadeiramente relevante é que o Ocidente, de imediato, apenas aterrissou o avião, lançou contra a Bielorrússia “uma operação de guerra híbrida muito bem coordenada de antemão” e, em lugar de acusá-la, deveriam nos dizer para qual serviço de espionagem trabalhavam os criminosos que pudemos deter”. 

Ele sustenta que os inimigos de dentro e de fora do país estão modificando seus métodos de ataque contra o Estado (bielorrusso) e após organizar revoltas passaram a etapa de “estrangular” a Bielorrússia. “Ultrapassaram as fronteiras do senso comum e da moral”, enfatizou. 

E Lukashenko encerrou com outra frase de antologia: “Não gostam de voar através da Bielorrússia segura, voem por onde aniquilaram 300 pessoas”, em alusão ao Boing-777 da Malaysian Airlines derrubado em 2014 por um míssil na zona de conflito na Ucrânia. 

Hamas

A organização armada palestina Hamas desmentiu qualquer vínculo com uma suposta ameaça de bomba

Apesar disso, autoridades bielorrussas difundiram como “prova conclusiva” fragmentos da conversação em inglês do piloto do avião da Ryanair com os controladores aéreos em Minsk. 

Segundo essa gravação incompleta, os controladores informaram ao piloto, já no espaço aéreo bielorrusso, que acabavam de receber um correio eletrônico de “soldados do Hamas” que ameaçavam “explodir o avião da Ryanair sobre a capital lituana, Vilnius, caso a União Europeia seguisse apoiando Israel (o atônito piloto deu crédito à informação, apesar de já ter sido alcançado um cessar-fogo)”. 

Ao aparecer nesse contexto um caça bombardeiro Mig-29, o voo da companhia irlandesa não teve alternativa, como medida de precaução, que seguir a rota traçada até o aeroporto de Minsk.

Incoerências

Tampouco são muito convincentes os fragmentos do interrogatório de Protasevich, filtrados na Internet através de canais afins ao governo bielorrusso, no qual o detido — com visíveis marcas no rosto do trato pouco amistoso recebido —, declara que não tem problemas de saúde, desmentindo o rumor de que havia sido hospitalizado por um problema cardíaco e “presta depoimento” (de seus delitos)”. 

De igual maneira, o governo de Lukashenko decidiu tirar dele a pressão das autoridades da Rússia, que se viram obrigada a reconhecer que careciam de informação sobre a detenção da noiva de Protasevich, e o fez publicando fragmentos de seu interrogatório.

Neles, a cidadã russa Sofia Sapega, jovem estudante na Universidade de Vilnius, afirma que trabalhava como editora do canal de notícias de seu noivo, motivo pela qual um juiz determinou dois meses de prisão provisória para ela como cúmplice. Tudo esclarecido e a chancelaria russa diz agora que lhe será prestada a devida assistência consular. 

Não seria a primeira vez que o regime de Lukashenko utiliza como reféns os seres queridos para pôr na boca de seus detidos as declarações ou confissões que quiser. 

É o método que empregou inclusive com Svetlana Tijanovskaya, a candidata opositora que ganhou as últimas eleições presidenciais, a qual — sequestrada pelo serviço secreto de Lukashenko — apareceu em um vídeo dizendo que governar era uma tarefa que a superava e preferia ir para o exílio. Era a única possibilidade de recuperar seus filhos pequenos. 

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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