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Voto no primeiro turno não foi “Nordeste vs. o resto do Brasil”

O mais importante entretanto é desmontar a versão de “todos contra o Nordeste”, que não corresponde à realidade

Raquel Rolnik e Aluizio Marino
LabCidade

Tradução:

Ao contrário do que vem sendo propagado em muitas análises e circulado pelas redes de Whatsapp, o voto do primeiro turno para a eleição presidencial não se expressou como uma divisão simplificada entre a região Nordeste e o resto do Brasil.

O mais importante entretanto é desmontar a versão de “todos contra o Nordeste”, que não corresponde à realidade

Geledés / Foto Francisco Proner Ramos
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos braços de uma multidão

A visualização dos votos por Estados (Mapa 1), imagem a partir da qual esta interpretação foi construída, simplifica a divisão territorial dos votos no país. Nela, uma mancha vermelha concentrada no Nordeste – à exceção do Ceará – mostra um reduto que resiste a um mar de verdes, que se espalham pelo restante do país. Mas não foi exatamente esta a realidade das urnas . Em uma eleição onde uma leitura simplificada e reducionista acerca da complexidade da crise que o país atravessa tem dado o tom e é fortemente mobilizada para transformar a insatisfação reinante em antipetismo, é importante ler as nuances e complexidades, inclusive do mapa eleitoral.

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A divisão dos votos por município ajuda a compreender tal complexidade. Bolsonaro venceu em 2.848 cidades, Haddad venceu em 2.614 municípios, e Ciro foi vitorioso em 103. Dois mapas territorializaram estes votos logo após o primeiro turno: o Mapa 2, elaborado pelo G1 e o Mapa 3, elaborado pelo portal Nexo. A diferença entre os dois está na forma de representação: no Mapa 2 todo o território dos municípios está pintado pela cor que predominou nos votos daquela localidade; no Mapa 3 cada cidade é um ponto, cuja dimensão é proporcional ao número de votantes. Entretanto, ambos evidenciam uma geografia mais complexa. Ao contrário do binarismo de uma leitura que opõe sudeste Centro Oeste Norte e Sul vs. nordeste, o que vemos são Estados com regiões bem distintas.

No Amazonas, onde a diferença entre os dois primeiros colocados foi de apenas 58.904 votos, Haddad saiu vitorioso em 60 das 62 cidades (96,7%). Assim como no estado de Tocantins, onde o petista ganhou em 107 das 139 cidades; porém Bolsonaro obteve a maior quantidade de votos válidos por ter sido vitorioso na capital e cidades com maior número de eleitores. O mesmo ocorreu no Amapá, onde Haddad, embora tenha menor quantidade de votos válidos, leva a melhor em 13 dos 16 municípios (81,2%).

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A leitura da votação por município em Minas Gerais e no Paraná mostra uma clara regionalização. No Paraná, Haddad levou vantagem principalmente nos municípios do sudoeste do estado, e em Minas Gerais no Norte, zona da Mata e ponta do triângulo mineiro.

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Uma leitura mais acurada das dinâmicas regionais é necessária para nos ajudar a ler estes mapas. Provavelmente , sobretudo lendo o Mapa 3, é possível levantar a hipótese de que o candidato do PSL foi claramente vitorioso nas regiões dominadas pelo agronegócio e perdeu nos espaços onde predomina uma agricultura familiar e outras formas de produção. No Mapa 3, a mancha lilás que se expande na direção centro oeste norte corresponde aos vetores de expansão do agronegócio, sem dúvida aderentes às pautas de relaxamento dos controles ambientais defendidos pelo candidato. Mas isto é apenas uma leitura de uma parte da votação. Nas grandes cidades, inclusive algumas capitais do Nordeste, como Recife, a vitória de Bolsonaro certamente tem outras explicações, que nesta rápida leitura não temos ainda condições de fazer.

O mais importante entretanto é desmontar a versão de “todos contra o Nordeste”, que não corresponde à realidade, e assim como em outras frentes e fronts simplificadores, e portanto mentirosos, desta campanha (“tementes a Deus vs. ateus”; “comunistas vs. defensores do mercado”) procurar avançar em uma leitura menos simplificadora e portanto um voto mais consciente.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Raquel Rolnik e Aluizio Marino

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