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Yasser Arafat: O líder da resistência Palestina em entrevista exclusiva à Cadernos do Terceiro Mundo

“A questão não está nas armas. Mas na determinação de vencer. E isso nós temos. Mais cedo ou mais tarde, haveremos de alcançar nossa vitória"
Gabriel Rodrigues Farias
Diálogos do Sul
Rio de Janeiro (RJ)

Tradução:

Na semana passada, mais precisamente no dia 11 de novembro, completaram-se 17 anos do falecimento de Yasser Arafat. Líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Arafat foi, durante décadas, a liderança máxima da resistência palestina globalmente. 

Por conta disso, decidimos resgatar o Obituário de Arafat que a Revista Cadernos do Terceiro Mundo publicou no ano de 2005. Nessa mesma reportagem também foi resgatada uma entrevista que Arafat concedeu para a Cadernos em março de 1980. Nesse sentido, colocaremos, logo abaixo, tanto a nota sobre o seu falecimento quanto um trecho dessa entrevista datada de 1980. 

No final da postagem, disponibilizaremos um link para a reportagem completa. Segue abaixo o texto: 

“Ele ousou sonhar com o Estado Palestino quando essa parecia uma quimera. Mohammed Abdel-Raouf Arafat Qudwa al-Hussaeini fundou em 1958 junto com alguns amigos e colegas da faculdade de Engenharia da Universidade do Cairo, onde estudava, a organização Al-Fatah, que no ano seguinte lançou uma revista, convocando os palestinos a lutarem pelos seus direitos. Já formado, em 1964, Arafat se instala na Jordânia, para dedicar-se de cheio, à luta pelo direito a uma pátria independente.

Coincidentemente, também em 1964 a Organização para a Libertação da Palestina, OLP, era criada sob o patrocínio da Liga de Estados Árabes, e por inspiração, fundamentalmente, do presidente Gamai Abdel Nasser, do Egito. Depois da derrota dos árabes em 1967, na chamada Guerra dos Seis Dias, contra Israel, a Al Fatah – antes considerada muito radical – foi admitida na OLP. Arafat foi proclamado presidente do Comité Executivo da organização, que passava a ter uma vida independente da até então forte influência dos Estados árabes. 

“A questão não está nas armas. Mas na determinação de vencer. E isso nós temos. Mais cedo ou mais tarde, haveremos de alcançar nossa vitória"

Flickr
Shimon Peres, Yasser Arafat na Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial Davos (2001)

Na Jordânia, no Líbano, na Tunísia e, finalmente, nos territórios ocupados, Arafat chefiou desde então a organização que reúne todas as forças palestinas até a sua morte, em 11 de novembro de 2004. 

Incansável, negociador duro quando necessário, porém flexível e até moderado se enxergasse uma possibilidade de diálogo, passou a ser o símbolo da resistência palestina. 

Yasser Arafat, também conhecido por seu nome de guerra Abu Amar, concedeu várias entrevistas exclusivas a cadernos do terceiro mundo. A primeira delas em Beirute, em março de 1980, quando recebeu os enviados especiais da revista, Neiva Moreira e Beatriz Bissio. 

Nessa altura, a Organização para a Libertação da Palestina tinha sede na capital libanesa, de onde foi expulsa em 1982, no marco da invasão israelense ao Líbano, que tão elevado custo em vidas e em destruição teve para libaneses e palestinos.

Nos anos seguintes, Arafat seria ainda entrevistado mais duas vezes por esses jornalistas, uma segunda vez já na Tunísia, onde a OLP se instalou após a saída de Beirute, e uma terceira em Argel, durante um Congresso palestino.

Talibã foi patrocinado pela CIA na Guerra Fria e hoje tomou poder no Afeganistão

Arafat concederia ainda uma quarta entrevista ao jornalista Moacir Werneck de Castro, também enviado especial de cadernos. Nesta edição, a primeira após a morte do líder palestino, em homenagem a sua luta, reproduzimos um resumo da entrevista de 1980, originariamente publicada no Nº 24, de junho daquele ano, a primeira edição de cadernos a circular no Brasil. 

Beirute 03/1980

Entrevistador: Você acredita que o Estado Palestino é viável?

Yasser Arafat:  Eu sou o Presidente da OLP e fui eleito de acordo com um certo programa .. Um dos pontos importantes do nosso programa aprovado nas últimas sessões do Congresso Nacional da OLP, define que os palestinos têm o direito de estabelecer um Estado independente em qualquer lugar da Palestina abandonado pelos israelenses ou que tenha sido libertado. De acordo com essa resolução, estamos lutando para torná-la viável. 

Como você vê a correlação de forças entre os israelenses e a resistência palestina? 

É óbvio que, em todas as lutas que tivemos com os israelenses, havia uma terrível disparidade de forças. Não se pode comparar. Recordo-me que, no ano passado, Ezer Weizmann, numa intervenção no Parlamento israelense, disse:

“Estes palestinos têm que entender que nós temos mais artilharia do que eles”. E verdade. Mas nós temos determinação. Um líder norte-americano no Vietnã pediu, uma vez, à administração em Washington que lhe fornecesse 3.000 aviões de vários tipos. Afirmou que, logo que recebesse essa quantidade de aviões, estaria em condições de vencer os vietnamitas. Quais foram os resultados? O embaixador norte-americano em Saigon se viu obrigado a fugir num desses aviões  

Perguntamos isso, porque notamos em você cansaço, mas nenhuma preocupação.

Podem estar tranqüilos. Nós sabemos que o balanço de forças pende para o lado deles. Porque nós não estamos enfrentando Israel, estamos enfrentando os Estados Unidos. Estamos enfrentando os países de Ocidente que apoiam e armam Israel. Mas como já mencionei, a questão não está nas armas. Mas, sim, na determinação de vencer. E isso nós temos. Mais cedo ou mais tarde, haveremos de alcançar nossa vitória.’’

Memória

A Diálogos do Sul é a continuidade digital da revista fundada em setembro de 1974 por Beatriz Bissio, Neiva Moreira e Pablo Piacentini em Buenos Aires:

A recuperação e tratamento do acervo da Cadernos do Terceiro Mundo foi realizada pelo Centro de Documentação e Imagem do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ, fruto de uma parceria entre o LPPE-IFCH/UERJ (Laboratório de Pesquisa de Práticas de Ensino em História do IFCH), o NIEAAS/UFRJ (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e as Relações Sul-Sul) e o NEHPAL/UFRRJ (Núcleo de Estudos da História Política da América Latina), com financiamento do Governo do Estado do Maranhão.

Textos publicados originalmente na página Revista Cadernos do Terceiro Mundo – Acervo Digitalizado.

Leia a intrevista completa: ‘’Arafat: o sangue vence o aço’’ por Beatriz Bissio e Neiva Moreira

CADERNOS DO TERCEIRO MUNDO. Rio de Janeiro: Terceiro Mundo, ano  XXX – Nº 249, p. 30-33


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gabriel Rodrigues Farias

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