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Montagem: George Ricardo Guariento

1964: como quadrinhos educam sobre história, heróis e algozes da ditadura militar

Em entrevista, artistas brasileiros falam sobre processos criativos e reforçam papel das HQs na conscientização dos mais jovens
George Ricardo Guariento
Diálogos do Sul Global
Taboão da Serra

Tradução:

A Ditadura Militar no Brasil, instaurada em 1 de abril de 1964, foi um período sombrio e marcante na história do país. Caracterizado por repressão, censura e violações aos direitos humanos, o regime autoritário deixou um legado que ecoa até os dias atuais. 

Dentre as diversas formas de expressão cultural que abordam esse período, os quadrinhos emergiram como uma poderosa ferramenta para contar essa história aos jovens e às novas gerações.

Por que quadrinhos?

Os quadrinhos têm um apelo único para o público jovem. Combinando arte visual e narrativa textual, conseguem cativar e informar de forma acessível e envolvente. Diante da lacuna deixada pelos livros didáticos sobre o período da ditadura militar no Brasil, muitos artistas optaram por usar os quadrinhos como meio de ensinar sobre esse período sombrio da história brasileira.

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Ao transformar eventos complexos em histórias visualmente atrativas e emocionantes, os quadrinhos conseguem despertar o interesse e a empatia dos leitores, facilitando a compreensão dos acontecimentos e suas consequências.

Conversamos com autores de algumas destas obras para entender um pouco dos conceitos e motivações por trás de cada uma.

O Golpe de 64

Imagem presente em “O Golpe de 64” (Reprodução: Universo HQ)

Golpe de 64 é uma obra que mergulha nos eventos que culminaram no golpe militar de 1964 no Brasil. Escrito por Oscar Pilagallo e ilustrado por Rafael Campos Rocha, a HQ oferece uma visão detalhada e emocionante dos tumultuados anos que precederam a instauração da ditadura.

A história acompanha o acirrado confronto entre diferentes ideologias políticas, revelando as tensões sociais e as reivindicações populares silenciadas pela repressão do regime militar. Com clareza e emoção, os autores destacam os dramas individuais dos personagens, proporcionando aos leitores uma compreensão aprofundada dos eventos que moldaram o Brasil contemporâneo.

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Em conversa com o Ilustrador Rafael Campos, ele revelou que o trabalho foi um desafio técnico para ele, e que embora não se considere um desenhista acadêmico, retratar personagens com semelhança a indivíduos reais foi especialmente difícil.

Rafael Campos Rocha (Foto: Acervo pessoal)

Ele também ressalta o lado positivo da experiência, que veio de um convite do autor Oscar Pilagallo: “não costumo desenhar textos dos outros e não me interesso por quadrinhos históricos, mas o processo de estudar sobre o golpe e a conjuntura histórica foi gratificante”, conta.

Rafael lembra que a primeira edição do quadrinho publicada pela Folha esgotou rapidamente: “teve uma repercussão positiva para as novas gerações”. Apesar do sucesso, após o golpe de 2016 o jornal optou por não publicar uma nova tiragem, aponta o artista.

Sobre os 60 anos do golpe de 64, Rafael entende que os saudosistas da ditadura existem porque não punimos os militares da época: “acho que enquanto não enjaularmos os generais golpistas e criminalizarmos o elogio da ditadura, como criminalizamos o nazismo e o racismo, vamos manter essa turba de imbecis”.

Marighella #Livre

Marighella #Livre é uma obra que destila coragem e resistência desde o seu título. Carlos Marighella, figura icônica da resistência contra a ditadura militar, é apresentado como uma ideia, uma voz de insubordinação que continua a ecoar mesmo após sua morte. 

A HQ narra a vida do revolucionário em três momentos cruciais: sua prisão e tortura em 1936, sua detenção durante o golpe militar de 1964 e sua covarde execução em 1969.

Com roteiros de Rogério Faria e desenhos de Ricardo Sousa e Jefferson Costa, Marighella #Livre oferece uma perspectiva original e profundamente humana sobre o homem por trás da lenda. 

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Rogério Faria, roteirista da obra, explica o motivo de ter transformado a figura de Marighella, quase sempre retratado como um terrorista ou guerrilheiro fora da lei, em um personagem de quadrinhos:

Imagem presente em “Marighella #Livre”.

“A partir de junho de 2013, comecei a ficar muito apreensivo com os rumos que o país estava tomando. Com isso, comecei a ler sobre ditadura, acabei passando por Marx, especialmente ‘O 18 de Brumário de Luís Bonaparte’, e me deparei com Marighella, como homem de ação e intelectual. Já tinha uma ideia de quem era, mas não o conhecia de verdade”. 

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Após isso, ele conta que começou a ler suas biografias, reportagens, documentários e escritos: “ele me chamou a atenção por ser uma espécie de super-homem, para o qual os ideias de igualdade e justiça estavam acima de sua própria vida”.

Imagem presente em “Marighella #Livre”.

“Um quadrinho sobre ele, mídia para a qual resolvi me dedicar, funcionou para mim como uma espécie de ‘trabalho de conclusão’ dos estudos, sintetizando a vida dele, mas a partir da minha perspectiva”, completa. 

Perguntado sobre a falta de ensino sobre o tema nas escolas, Rogério reforça o papel educativo e facilitador de acesso oferecido pelas HQs: “os quadrinhos são uma ferramenta muito importante para uso em sala de aula. Eles podem facilitar o acesso a determinados temas, principalmente através de uma leitura, de texto e imagem, que seja mais atraente, inclusive para um público não acostumado com livros, com a literatura”. 

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Rogério Faria (Foto: Reprodução)

Ele complementa dizendo que a preocupação vai além de entreter, é também educar: “queremos não só apresentar o personagem, sua vida e suas ideias, mas também que o leitor se divirta, se emocione, se incomode, e assim sinta-se convidado à reflexão dentro de um processo natural”.

Por fim, questionamos: como, em sua opinião, esse Marighella dos quadrinhos agiria no Brasil de hoje? Rogério responde:

“Acredito que não é preciso imaginar muito. Existem muitos Marighellas lutando as diversas lutas que o compromisso social exige para construir um Brasil mais igualitário e justo para todos. Temos Marighellas na política, como Dilmas e Marielles; nas artes, como Manos Browns; nas ações sociais, como Júlios Lancellottis; e essa lista seria infinita…

O que não falta são brasileiros de coragem lutando com a sua vida pelos mesmos ideais que Margihellas lutaram por toda nossa história”, finaliza.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

George Ricardo Guariento Graduado em jornalismo com especialização em locução radiofônica e experiência na gestão de redes sociais para a revista Diálogos do Sul. Apresentador do Podcast Conexão Geek, apaixonado por contar histórias e conectar com o público através do mundo da cultura pop e tecnologia.

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