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A democracia grega e o poder da coragem cívica no combate ao fascismo no Brasil

Sem desfraldar a bandeira da virtude política, caminharemos irresistivelmente para a Apoteose da Boçalidade, da Violência e do Ridículo
Carlos Russo Jr
Diário Contexto
Florianópolis (SC)

Tradução:

Se após da tentativa terrorista de golpe de Estado de 8/01 não praticarmos a coragem cívica, desfraldando a bandeira da virtude política, caminharemos irresistivelmente para a Apoteose da Boçalidade, da Violência e do Ridículo! E estas têm um nome: Fascismo!

Apreendamos um pouco com os “inventores da democracia.”

Os povos da antiga Grécia viram este revolucionário sistema de governo popular, surgido em 508 a.C., ser destruído menos de cem anos após, e as assembleias populares serem substituídas pelo retorno da aristocracia aos governos das cidades-estado.

Frei Betto | Não podemos baixar a guarda, nossa democracia segue em risco

A democracia grega decompôs-se por preferir o prazer à excelência, a covardia à coragem, a decadência à construção de um homem novo! Abandonou em sua decadência aquele conjunto de valores ao qual se dá o nome de virtude cidadã!

Nos seus estertores, em 399 a.C., soergueu-se Sócrates ao submeter-se à sentença de morte pela cicuta, que lhe fora imposta pela cidade. Assim o fazendo, criou os alicerces de uma futura renovação espiritual que ocorreria séculos após!


A democracia grega

No tempo em que a Grécia era regida pela aristocracia feudal, não havia ainda distinção entre virtude política e individual. A “aretê”, a virtude, era transmitida de geração em geração pelo ambiente em que vivia o “aristocrata” de então. Sua transmissão geracional se realizava por meio de exemplos pessoais e através dos poemas de “porta vozes” das musas, os poetas como Homero e Píndaro.

Quando se estabeleceu a tirania, excluindo a aristocracia do poder e, posteriormente a democracia, essa forma de transmissão de virtudes desapareceu, surgindo, então, a necessidade de se criar uma nova forma que a substituísse, não mais para uma elite, mas para todos os homens livres da “pólis”.

Sem desfraldar a bandeira da virtude política, caminharemos irresistivelmente para a Apoteose da Boçalidade, da Violência e do Ridículo

Agência Brasil
Artistas, intelectuais, e lideranças políticas se reúnem para defender a democracia e o processo eleitoral




Os Sofistas e o prazer como virtude

Surgiram primeiramente os Sofistas com a proposta de que a virtude poderia ser ensinada. Mas qual virtude? Com a entrada em cena do cidadão, a antiga virtude já havia se fragmentado, tanto na formatação política, quanto na individual.

Os Sofistas pensavam a educação não como um esforço a realizar-se para a sociedade como um todo, mas como uma ação a exercer-se unicamente sobre seus líderes, encarando-os não como cidadãos comuns, mas como sujeitos que desejavam os meios mais eficazes para chegarem ao poder.

A educação para eles não visava desenvolver virtudes individuais, mas aquelas capazes de dotar um homem de poder sobre as massas.

Por este caminho, ao contrário do passado, quando a “arete” fora símbolo de excelência, agora nos tempos dos sofistas, na democracia em decadência, o princípio que regulava a virtude deixara de lado a excelência e transformara-se em símbolo de prazer.

Logo, o líder a ser formado pela nova educação devia aprender, sobretudo, os métodos de proporcionar prazer às massas. A sua sabedoria e a eloquência deveriam lisonjeá-las, acenando para aquilo que mais as agradasse. A virtude individual, tanto quanto a política, igualmente seriam regidas, então, pelo princípio do prazer.


Sócrates e a recuperação cidadã da virtude

Em contraponto aos Sofistas, Sócrates pensava que, somente após o ensino da virtude ao nível individual, se poderia pensar no ensino da mesma ao nível político.

Na base do confronto que trava com o sofista mais importante, Protágoras, encontramos as duas concepções diferentes de virtudes na democracia.

Sócrates aceita o fato de que tanto as virtudes individuais quanto as políticas podem ser ensinadas, desde que se abandone o princípio do prazer, recuperando-se a antiga “arete”, ou seja, a excelência como norma reguladora da educação, tendo por objeto o ensino da virtude integral.

Coragem e verdade, coragem e sabedoria, virtude e sabedoria, são equações que justificam a concepção socrática de que a virtude pode ser ensinada. Ela tornaria os homens melhores, melhores não no sentido de serem mais capazes ou mais bondosos, mas no sentido de serem maiores, dotados de estruturas interiores sólidas.

Diferentemente do passado feudal e aristocrático, o ponto de partida para se atingir a excelência estava ao nível do indivíduo, e necessariamente passava pela coragem. E foi a partir da coragem, como fator regulador das relações humanas, que Sócrates refutou a perspectiva do prazer.

Mas uma coragem que não se encerra apenas na mera qualidade física ou disposição moral para enfrentar os perigos que decorrem da fidelidade a princípios. Uma coragem também como qualidade espiritual que contribui para estabelecer a “arete” como fonte dos impulsos que desaguam na formação da personalidade ética dos cidadãos numa democracia.

Pois sem a “arete”, qualquer processo educacional torna-se vago, vazio.


Spinoza e a transformação do vulgo pelo ensino

Spinoza, o autor da “Ética”, após 13 séculos, pauta o caminho a ser percorrido pelo “vulgo” para torna-se cidadão: o ensino. Ele afirmava que indivíduos amedrontados podem ser transformados em cidadãos livres exclusivamente através do processo educativo e participativo.

“Uma cidade onde a paz é o efeito da inércia dos sujeitos conduzidos como rebanho, e, formados apenas para a servidão, merece o nome de isolamento, nunca o de Cidade”.

“O ideal democrático deve sempre estar unido ao ideal educacional”.

O problema da coragem cívica coloca-nos diante de uma opção fundamental: não se trata de escolher entre um prazer maior ou um menor, mas enfrentar um perigo que o homem comum teme. Trata-se, na realidade de enfrentar esse mal, pois o homem corajoso deseja voluntariamente confrontá-lo.

Chegando-se a esse ponto, assistimos ao colapso do prazer e a diferença entre o “vulgo” e o cidadão livre é que, enquanto aquele é covarde e regulado pelo princípio do prazer, este, o corajoso, é regido pela “arete”, o princípio da excelência.

E o homem regido pela “arete” teme antes de tudo a desonra, o aviltamento, a perda da excelência, enquanto o “vulgo” teme a morte, pois lhe limita o princípio do prazer.


O medo vencendo a coragem: a lógica da decadência de uma sociedade

Hoje, num mundo que vive paralisado pelo medo, parece uma ironia cruel falar numa filosofia da coragem; num mundo apavorado pelos fantasmas e monstros que ele mesmo cria, que armazena um poder de destruição indescritível na História da humanidade, onde populações imensas são condenadas à morte por fome, num mundo em que o terrorismo, doença das sociedades falidas, alastra-se assustadoramente, onde a violência se institucionaliza, perguntamo-nos: que sentido possui uma virtude como a coragem? Não seria muito mais pragmático pregar, aconselhar, ensinar o oposto, o cultivo do medo? Cultuar o medo porque ele pode significar a prudência sem a qual não se consegue caminhar muito longe?

Por exemplo, tendo algum poder político, realizarmos todas as concessões possíveis já que não possuímos meios de impor nossa vontade cívica?

Permitirmos que criminosos, corruptos e corruptores permaneçam em liberdade mesmo sabendo que com isso estaremos objetivamente incentivando o crime?

Se formos simples cidadãos buscaremos sobreviver com cuidados extremos; até mesmo evitaremos atritos com vizinhos?

Não sairemos de casa sem precauções, carros blindados (para os que podem), vidros fechados; trancas, alarmes, cães ferozes, e por que não uma arma automática?

Pois estas, resumidamente, são lógicas da decadência de uma sociedade.

A outra lógica, aquela que a tudo isto diz NÃO, é a lógica que conduz a uma filosofia da coragem. Pois sem a virtude da coragem, a inteligência não é mais que um equívoco, a lucidez nada mais que ilusão, o realismo apenas um mal-entendido.

Tentativas de mostrar que com a dita prudência, codinome de nossa covardia, conseguiríamos obter talvez resultados concretos a longo prazo, resultados como a paz social, a integração e educação numa edificação social futura é, sem dúvida, a melhor maneira de demonstrar como essa prudência é leviana, como a covardia é um sentimento desprezível.

Se após a tentativa terrorista de golpe de Estado de 8/01 não praticarmos a coragem cívica, desfraldando a bandeira da virtude política, caminharemos irresistivelmente para a Apoteose da Boçalidade, da Violência e do Ridículo! E estas têm um nome: Fascismo!

Carlos Russo Jr | Colaborador da Diálogos do Sul


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carlos Russo Jr Carlos Russo Jr., coordenador e editor do Espaço Literário Marcel Proust, é ensaísta e escritor. Pertence à geração de 1968, quando cursou pela primeira vez a Universidade de São Paulo. Mestre em Humanidades, com Monografia sobre “Helenismo e Religiosidade Grega”, foi discípulo de Jean-Pierre Vernant.

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