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Foto: Matt Johnson / Flickr

À frente em 5 estados-chave, Trump tira de Biden eleitores historicamente democratas

Estrategistas do atual presidente optam por arriscar que negros, jovens e imigrantes não vão escolher Trump quando chegar a hora de votar
David Brooks, Jim Cason
La Jornada
Washington, DC

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Um consigliere de Donald Trump testemunhou contra ele no julgamento criminal – o primeiro na história contra um ex-presidente – ao oferecer detalhes sobre como ele lidou com o encobrimento de pagamentos a uma estrela da pornografia para evitar danos à primeira campanha eleitoral do acusado, cerca de 48 horas depois de o candidato republicano declarar diante de milhares de pessoas que ele é o único que pode salvar o país da “esquerda radical” e dos imigrantes.

O ex-advogado pessoal e operador de Trump, Michael Cohen, é a testemunha principal – junto com a atriz de filmes adultos Stormy Daniels, que testemunhou na semana passada – no julgamento criminal contra Trump, que continuou esta semana em um tribunal em Manhattan. Cohen declarou em seu depoimento a uma procuradora que entre os serviços que prestava a Trump quando era seu leal operador estavam “burlar” e “mentir”, e que seu chefe estava ciente de todas as operações para pagar 130 mil dólares a Daniels e outros 150 mil a uma modelo da Playboy para comprar seu silêncio. Ele lembrou que Trump estava preocupado com o impacto eleitoral das alegações de Daniels de que tiveram relações sexuais em uma noite em 2006, e que ele teve um relacionamento de nove meses com a modelo, tudo isso enquanto era casado. As “mulheres me odiarão” e seria “desastroso”, afirmava Trump, que ordenou a Cohen: “resolva isso”.

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Os promotores acusam que quando Trump reembolsou o dinheiro que Cohen pagou a Daniels, em 2017, esses fundos foram classificados como “gastos legais”, o que viola a lei eleitoral porque na realidade eram despesas com fins políticos para ocultar informações do eleitorado. O caso e as 34 acusações criminais contra o ex-presidente giram em torno disso. Cohen continuará testemunhando nesta terça-feira.

Campanha no Tribunal

Enquanto isso, Trump está fazendo sua campanha eleitoral dentro de um tribunal que se reúne quatro dias por semana, usando esse palco diariamente para denunciar ser vítima de um processo legal politicamente motivado para desviar sua candidatura. A partir daí e de seus comícios nos fins de semana, ele continua repetindo sua mensagem de um país capturado pela “esquerda radical” e ameaçado por imigrantes que estão “invadindo” o país e “envenenando o sangue” dos Estados Unidos.

E por ora, apesar dos processos judiciais e outros processos contra ele, ele não está perdendo. Na verdade, as pesquisas nacionais mostram um empate entre Trump e o presidente Joe Biden. Além disso, neste fim de semana teve mais boas notícias: o magnata está à frente em cinco dos seis estados-chave – os que determinarão o resultado final – e tem uma vantagem de pelo menos sete pontos em quatro deles, segundo uma pesquisa do New York Times/Siena College.

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Para nutrir a preocupação entre os apoiadores de Biden, essa enquete registrou que ele está perdendo cada vez mais apoio entre setores que tradicionalmente votam nos democratas. Ele está mais ou menos empatado com os eleitores com menos de 30 anos, um grupo que os democratas sempre ganharam por mais de 18 pontos em eleições recentes. Ele também está mais ou menos empatado entre os latinos, outro grupo que os democratas ganharam com uma margem de pelo menos 23 pontos desde 2004. E ele tem o apoio de 63% dos afro-americanos, um setor que historicamente apoiou os democratas com pelo menos 80% de seus votos.

Descontentamento generalizado

Além disso, a sondagem constatou que o descontentamento com a economia, sua gestão da questão migratória e da guerra em Gaza entre os eleitores jovens, latinos e afro-americanos “ameaçam desfazer a coalizão democrata do presidente”, que requer esse eleitorado para ganhar a reeleição.

Porém, aparentemente, os estrategistas de Biden estão apostando que vários desses grupos de eleitores, quando chegar a hora de votar, não votarão em Trump (que é racista, anti-imigração, antiaborto e muito mais sionista do que o presidente).

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Outros, como Mark Penn, o veterano pesquisador democrata e presidente da Pesquisa Harris, acreditam que Biden precisa se inclinar mais para a direita para conquistar o voto centrista, que oscila de eleição para eleição em suas preferências. Para conseguir isso, ele argumenta em um artigo no New York Times, o atual mandatário deve enfatizar que não aumentará os impostos, não imporá regulamentações ambientais rigorosas aos carros e promoverá medidas de imigração que mostrem compaixão para com aqueles que já estão aqui, mas que fecharão a fronteira para os outros, e uma postura ainda mais leal a Israel.

Maioria do eleitorado é “Nem-Nem”

O mais relevante neste momento eleitoral, a cerca de seis meses das eleições, é que as pesquisas continuam mostrando que a preferência da maioria do eleitorado é por nenhum destes dois. A maior queixa é que ambos estão demasiado velhos. Ademais, há uma saturação não só com os candidatos, mas com todas as principais instituições políticas do país. Na pesquisa do Times/Siena, quase 70% dos eleitores acham que o sistema político e econômico precisa de uma mudança maior.

Enquanto isso, as campanhas estão se intensificando com mais ataques pessoais. “Está claro que quando perdeu em 2020, algo se quebrou em sua cabeça, está claramente perturbado… Basta ouvir o que ele diz às pessoas”, comentou Biden em um evento de campanha para arrecadar fundos.

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Trump pareceu corroborar o que Biden disse neste fim de semana em um grande comício de campanha em Nova Jersey, onde do nada declarou, textualmente: Mas Hannibal Lecter. “Parabéns ao grande falecido Hannibal Lecter. Temos pessoas sendo libertadas dentro de nosso país que não queremos em nosso país, e estão entrando sem verificação, totalmente sem serem vetadas”. Novamente prometeu para seu primeiro dia: “selarei a fronteira, frearei a invasão”.

Tampouco ficou claro se Trump sabe que Lecter é um personagem fictício, o assassino em série e canibal, do filme O Silêncio dos Inocentes. E o filme não aborda a questão da imigração, mas é um thriller muito americano com um roteiro superior – ganhou um Oscar – ao desta contenda eleitoral.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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