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Alto escalão do Kremlin pede resposta enérgica a atentado com drones em Moscou

“A parte russa se reserva ao direito de tomar medidas de resposta quando e onde considere necessário”, comunicou o Governo Putin
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

O serviço de imprensa do chefe do Executivo russo, Vladimir Putin, qualificou de “atentado contra a vida do presidente da Rússia por parte do regime de Kiev” a derrubada de dois drones com explosivos que tentaram impactar na madrugada desta quarta-feira (3) o Grande Palácio do Kremlin, no pleno centro da capital russa. 

Aproximadamente ao meio-dia, o escritório da presidência russa difundiu um comunicado que, textualmente, diz:

“Nesta madrugada o regime de Kiev tentou atacar com dois drones a residência do Presidente da Rússia no Kremlin. Ambos os drones tinham como objetivo o Kremlin, mas graças à reação oportuna dos serviços de segurança e dos militares, os sistemas de radares e de defesa antiaérea neutralizaram os aparatos e seus fragmentos que, ao cair, não causaram vítimas nem danos materiais”. 

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“Consideramos que se tratou de um ato terrorista e de um atentado contra a vida do presidente da Rússia, às vésperas do Dia da Vitória, do desfile (militar) de 9 de maio, no qual se espera também a presença de convidados estrangeiros. Como consequência deste ato terrorista, a agenda de trabalho do presidente da Rússia não se viu afetada e continua em regime normal”. 

“A parte russa se reserva ao direito de tomar medidas de resposta quando e onde considere necessário”. 

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Em uma primeira reação de Kiev, o assessor do escritório da presidência ucraniana, Mikhaylo Podolyak, rechaçou as acusações: “Nosso presidente, Volodymyr Zelensky, tem dito em reiteradas ocasiões que todos as forças e meios à nossa disposição são usadas para libertar nosso território, não para atacar os de outros”. E perguntou: “Para que fazê-lo? Isso não resolve problemas militares e só dá motivos à Rússia para tomar represálias”. 

O presidente Putin, de acordo com seu porta-voz Dmitri Peskov, não se encontrava no Kremlin durante o ataque. Há anos, quando está na capital russa, salvo quando tem que assistir a atos protocolares, prefere trabalhar e morar em sua residência oficial de Novo Ogaryovo, na periferia de Moscou.

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As imagens do ataque – gravada em vídeo a partir de dois ângulos por aficionados – apareceram durante a madrugada nas redes sociais na conta de “Habitantes de Yakimanka” (zona próxima ao Kremlin), e depois no canal de televisão Zvezda, do Ministério da Defesa, e pouco mais tarde nos demais canais da TV pública. 

O comunicado que atribui o “atentado” ao “regime de Kiev” não é preciso sobre de que maneira os drones cruzaram a fronteira da Rússia até chegar ao Kremlin, nem quem os lançou e desde onde, mas pode ter, na opinião de analistas, duas explicações.

“A parte russa se reserva ao direito de tomar medidas de resposta quando e onde considere necessário”, comunicou o Governo Putin

Kremlin
Medvedev: "Já não o necessitamos [Zelensky] nem sequer para firmar o ato da capitulação incondicional da Ucrânia”




Justificativa para uma contra ofensiva russa

A primeira poderia ser a justificativa que a Rússia precisa para dar um golpe demolidor diante da contra ofensiva ucraniana, e por exemplo, – de acordo com a lógica do Kremlin – ninguém poderia acusá-lo de tentar assassinar Zelensky, dado que este havia ultrapassado um limite ao ordenar atentar contra Putin e seria uma simples resposta. 

Pelo menos neste sentido se pronunciou Dmitri Medvedev, secretário adjunto do Conselho de Segurança da Rússia, ao afirmar em seu canal de Telegram: “Depois deste ato terrorista já não resta outra opção que eliminar fisicamente Zelensky e seu bando. Já não o necessitamos nem sequer para firmar o ato da capitulação incondicional da Ucrânia”.

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O presidente da Duma ou Câmara Baixa do Parlamento russo, Viacheslav Volodin, pediu de imediato “deter e destruir” o “regime terrorista de Kiev” ao escrever em sua conta em Telegram: “Exigimos que se usem armas capazes de deter e destruir o regime terrorista de Kiev”. 

Para Volodin, Zelensky “está à par de outros terroristas internacionais” ao ordenar presumidamente atacar uma das residências de Putin no coração da Rússia: todo um “casus bellis” para “uma guerra de verdade e eliminar a elite terrorista” de Ucrânia”, segundo outro membro da plana maior da Duma, Serguei Mironov, líder do partido Rússia Justa.

A doutrina nuclear deste país, cabe recordar, não autoriza o uso de armas nucleares, nem estratégicas nem táticas, se a Rússia não receber uma agressão com esse tipo de armamento ou um ataque com armas convencionais que ponha em risco a própria existência do Estado. 

A segunda explicação do suposto atentado, opinam outros observadores, poderia guardar relação com os esforços do Kremlin para desacreditar o governo da Ucrânia como centro “terrorista”, no contexto dos atos de sabotagem que, desde o começo de maio, estão acontecendo no território da Rússia um dia sim e outro também. 

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Até agora, não se pode saber se são parte dos preparativos da muito anunciada contraofensiva da Ucrânia ou resultado de ações de “guerrilheiros” ucranianos residentes na Rússia que agem por sua conta e risco. 

Quando ainda se estava comentando o descarrilamento na terça-feira (2) do segundo trem de carga em Briansk, com imagens em redes sociais da locomotiva e 20 vagões virados fora da via, em Krasnodar, região russa também fronteiriça com a ucrânia, produziu-se nesta quarta-feira um incêndio em um depósito de combustível no povoado de Volna, cerca do porto de Tamán, na costa do mar Negro.

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Segundo a agência noticiosa TASS, o impacto de um drone carregado de explosivos ocasionou as chamas. O governador da região, Veniamin Kondratiev, se limitou a comentar que a situação “está sob controle” e que os bombeiros faziam seu trabalho. 

Fiodor Babenkov, o chefe administrativo do distrito, especificou que o incêndio se estendeu a 1.200 m², mais ou menos a metade do ocorrido, dias antes, em Sebastopol, Criméia, onde as chamas afetaram 2 mil m² e dez depósitos com 40 mil toneladas de combustível, necessário para a logística das tropas em Kherson e Zaporíjia.

Na região de Briansk, limítrofe com a Criméia, um aeródromo militar sofreu também nesta quarta-feira um ataque com cinco drones, de acordo com os reportes de vários canais de notícias nas redes sociais russas. Dois aparatos não tripulados foram derrubados, um se perdeu e os dois restantes caíram no aeródromo. Até o momento, se conhecem danos só em um avião de transporte An-124, conforme os reportes de Baza, Readovka e Astra.


Bombardeiros contra instalações da indústria militar ucraniana

Segundo um reporte do Ministério da Defesa russo, bombardeiros estratégicos russos lançaram na madrugada desta segunda-feira (1), 18 mísseis contra instalações da indústria militar ucraniana, na cidade de Pavlograd, região de Dnipropetrovsk, mais ou menos a 100 quilômetros da linha de frente, dos quais a defesa antiaérea ucraniana – assegura o governo ucraniano – derrubou 15. 

No entanto, os militares russos declararam: “Missão cumprida: todos os objetivos alcançados e dificuldades para a indústria que fabrica armas e munições”. Já o lado ucraniano, noticiou: 34 civis feridos, entre eles três crianças, 19 edifícios multifamiliares com danos, 25 casas particulares destruídas, da mesma forma que 6 escolas e creches e 5 comércios, segundo o governador da região (controlada pela Ucrânia), Serhiy Lysak.

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Horas mais tarde, quando ainda se seguia avaliando em Moscou o dano causado pela explosão no sábado anterior do maior depósito de petróleo perto de Sebastopol, Criméia, que abastece as tropas russas em Kherson e Zaporíjia, um ato de sabotagem não reivindicado na região russa de Briansk, adjacente à Ucrânia, descarrilou um trem de carga. 

Entre os 60 vagões que levava, muitos eram cisternas de combustível e o resto com madeira, informou – com foto do lugar dos fatos – nas redes sociais o canal de notícias Baza. “A locomotiva e os primeiros oito vagões neste momento estão tombados e em chamas”, noticiou.

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“No quilômetro 136 do trecho da estrada de ferro entre Briansk e Unecha, explodiu uma bomba que fez descarrilar a locomotiva de um trem de carga. Não há feridos. Os serviços técnicos estão trabalhando neste momento para restabelecer o funcionamento da via férrea”, deu sua versão o governador de Briansk, Aleksandr Bogomazov.

E também no distrito de Gatchino, região de Leningrado, não longe de São Petersburgo, uma torre de alta tensão caiu nesta segunda-feira pela explosão de um artefato de fabricação caseira. Os esquadrões antibombas do FSB (Serviço Federal de Segurança, sigla em russo) desativaram outra bomba colocada junto a outra torre, segundo o governador dessa região, Aleksandr Drozdenko. O FSB abriu uma investigação sobre este “ato de terrorismo”, agregou o funcionário.


Conclave em Berlim

Um setor da oposição ao Kremlin no exílio – fragmentada pelas ambições de liderança de suas principais figuras e incapaz de articular um programa unificado de ação – reuniu-se no último fim de semana em Berlim e adotou uma declaração que inclui o compromisso de não se insultar enquanto durar a guerra. 

As semanas recentes estiveram marcadas por acusações e desmentidos entre aqueles que compartilham seu rechaço à política do presidente Vladimir Putin.

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Assim, por exemplo, o Fundo de Luta contra a Corrupção (FBK, na sigla em russo) de Aleksei Navalny, encarcerado em um centro de reclusão com uma condenação de nove anos e em espera do começo do enésimo julgamento contra ele, acusou o jornalista Aleksei Venediktov, ex-diretor da proscrita emissora Ejo Moskvy, de receber dinheiro do prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, por “legitimar o fraude da votação por internet”, soma que o aludido teria aceitado como presidente da comissão de observadores das eleições municipais na capital russa. 

Venediktov, que lecionava história em uma escola secundária antes de dedicar-se ao jornalismo, não só rechaçou a grave acusação dizendo que era legítimo cobrar pela edição de revistas sobre a história de cada um dos distritos da capital que a prefeitura distribuía de forma gratuita, mas também arremeteu contra um dos colaboradores mais próximos de Navalny, Leonid Volkov, no exilio, asseverando – com a fotocópia do documento – que este firmou uma carta à cúpula da União Europeia pedindo que se levantassem as sanções contra os magnatas do grupo Alfa Bank, cujas contas estão congeladas na Grã Bretanha.

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Outro personagem da oposição ao Kremlin, o ex-campeão mundial de xadrez, Gary Kasparov, em uma recente entrevista ao popular blogueiro Yuri Dud, fez um fraco favor a seus já ex-companheiros de luta ao dizer que ele, por seus contatos com a elite governante nos Estados Unidos, deveria estar à frente da Rússia “quando Putin cair” e, depois de meter ordem no país, ofereceu se retirar. Raro é o opositor que não tenha rompido com Kasparov, tirando-lhe todos seus trapos sujos. 

Nesse contexto, o ex-magnata Mikhail Jodorkovsky, que como presidente da desaparecida petroleira Yukos chegou a ser o homem mais acaudalado da Rússia e passou anos na prisão por enfrentar Putin, convocou outros exilados a se reunirem em Berlim. 

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Acordaram “abster-se de participar em conflitos públicos ao interior dos movimentos democráticos e contra a guerra” e uma declaração de cinco pontos que, resumida, proclama: 

“A guerra contra a Ucrânia é criminosa e as tropas têm que sair dos territórios ocupados; o regime de Putin carece de legitimidade e deve terminar para que a Rússia volte a ser um país onde se garantam os direitos e liberdades do indivíduo; é inadmissível praticar uma política imperial tanto dentro como fora do país; devem ser libertados os prisioneiros políticos e os da guerra, os deslocados devem poder regressar a seus lugares de origem e as crianças devolvidas aos seu pais; nossa solidariedade com aqueles que, apesar da repressão, assumem com valentia posições contra Putin e a guerra, e com os dezenas de milhões que se negam a ser cúmplices dos crimes do regime”. 

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A declaração leva as firmas de Mijail Jodorkovsky, Yevgueni Chichvarkin, Boris Zimin, Serguei Aleksachenko, Yulia Latynina, Alfred Koch, Mark Fein, Serguei Guriyev, Dimitri Gudkov, Kiril Rogov, Yelena Lukianova, Andrei Ilarionov e Leonid Gozman, entre outros reconhecidos adversários da política do Kremlin. 

O documento não é um programa de ação e, até agora, não figuram as firmas de apoio de Aleksei Navalny nem de nenhum de seus colaboradores do FBK, de Gary Kasparov, de Maksim Katz, de Aleksei Venediktov e de outros conotados opositores. 

Juan Pablo Duch | La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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