Amanda Cotrim

Multidão de argentinos ocupa as ruas em defesa da memória, da verdade e da justiça

O ato denunciou o “negacionismo” do atual governo e a conduta de funcionários que agridem e tentam desacreditar os militantes pelos direitos humanos

Uma multitudinária manifestação lotou a Plaza de Mayo e ruas adjacentes, no domingo 24 de março, para rememorar a data que em 1976 inaugurou a mais cruenta das ditaduras na história do país e do continente. Uma ditadura que deixou um saldo de 30 mil desaparecidos, milhares de assassinados e exilados.

A manifestação uniu organismos de direitos humanos, a Confederação Geral do Trabalho, Central de Trabalhadores Argentinos sindicatos e centrais independentes, em torno da palavra de ordem Memória, Verdade e Justiça, e protestando contra o governo de Maurício Macri pelo retrocesso em matéria econômica e por violações aos direitos dos povos.



Vieram de todas as partes, e em todos os estados, em grupos de milhares, apelando por unidade do povo, e a memória para honrar as vítimas e os desaparecidos e a continuar a luta, que nunca foi abandonada pelos familiares das vítimas e pelos movimentos sociais. As primeiras a chegar foram as Madres e Abuelas de la Plaza de Mayo, com uma bandeira de 600 metros com as fotografias dos desaparecidos.

Durante o ato se denunciou o “negacionismo” do atual governo, pela conduta de funcionários que agridem e tratam de desacreditar os militantes pelos direitos humanos. Direitos que o atual presidente qualificou como “um curro”, palavra que sugere que se utiliza para ganhar dinheiro ou favorecer-se.

Denunciaram a intenção do governo de reinstalar a chamada “teoria dos demônios”, negando os números de desaparecidos e até mesmo em alguns momentos reproduzindo o discurso dos ditadores quando burlavam das mães e avós que que buscavam por seus filhos.

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A manifestação uniu organismos de direitos humanos em torno da palavra de ordem Memória, Verdade e Justiça

Nair Amuedo, das Madres de Plaza de Mayo-Línea Fundadora iniciou seu discurso com um potente: “São 30 mil!”, o que provocou uma longa ovação. Também defendeu os direitos das lésbicas, travestis e trans, destacando tudo o que já se conquistou em décadas de democracia foi pela força das lutas populares. Esse é o caminho, com memória e unidade.

O documento lido durante o ato, resultado de consenso entre as entidades organizadoras, foi duro e preciso sobre os temas do passado e presente e advertiram ao governo que, evidentemente deixou de se preocupar, minimizando e desacreditando o tema de direitos humanos e pondo travas à roda da justiça.

Para Estela de Carlotto, presidenta das Avós de Plaza de Mayo, os discursos que impulsionam o esquecimento e justificam os delitos de lesa humanidade não geram um clima propício para os que ainda não conseguiram conquistar sua identidade roubada. As avós não vão desistir sem que tenham encontrado a seu neto ou neta mas não queremos deixar isso para as próximas gerações.

Denunciou que ainda faltam em torno de 300 homens e mulheres, entre os quase 500 bebês retirados de seus pais ao nascer e entregues a famílias de militares ou amigos deles. Embora tenham recuperado nestes anos a mais de 100 filhos de desaparecidos, Carlotto lembrou com pesar que em 2018 somente um foi encontrado, o que revela o descaso do atual governo.

Recordou que em 24 de março de 2004, o então presidente Néstor Kirchner pediu perdão em nome do Estado argentino e entregou aos organismos de direitos humanos o edifício da Escola de Mecânica da Marinha, um dos maiores centro clandestinos de detenção onde desapareceram milhares de vítimas. Essa política comprometida com os direitos humanos foi continuada pela presidenta Cristina Fernández de Kirchner, porém, “a impunidade retornou e não a vamos aceitar!!.. clamaram os manifestantes.


*Colaborador de Diálogos do Sul, de Buenos Aires, direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava

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