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Comparado a Bolsonaro, eleição de conservador na Guatemala aprofunda crise

A vitória de Alejandro Giamattei sobre Sandra Torres nem de perto significa trégua aos impasses do país centro-americano

A ebulição social experimentada pela Guatemala diante da intensa agenda de mobilizações registradas nos últimos meses contrastou com a baixa participação dos eleitores no segundo turno das eleições presidenciais que confirmou a vitória do conservador Alejandro Giammattei, do partido Vamos. Com isso, acabou, mais uma vez, as chances de Sandra Torres tornar-se a primeira mulher a ocupar a presidência do país. O impasse em temas como migração, a pressão crescente de coletivos campesinos e indígenas por participação social e a instabilidade representada pelo aparato estatal, mergulhado em escândalos de corrupção do Judiciário ao Executivo, certamente continuarão mesmo após o processo eleitoral. Giammattei obteve cerca de dois milhões dos sufrágios ante mais de oito milhões de eleitores. Vale destacar que 40% da população não foi votar.

“Muitas das tensões não foram canalizadas nas urnas e a democracia não será suficiente para acabar com a insatisfação acumulada. Ambos os candidatos foram questionados pois durante toda a campanha foi minguando a legitimidade da eleição com a proibição de candidaturas sem sustento legal como no caso de Thelma Aldana, o que nos fez recordar muito do caso de Lula no Brasil”, disse o deputado Samuel Pérez, eleito pelo partido Semilla. Aldana, ex-fiscal geral do país, liderou pesquisas antes de ser impedida de concorrer por questões burocráticas.

As semelhanças com o Brasil se reproduzem também na comparação com algumas situações do segundo turno na Guatemala. Giammattei, que está à frente do Vamos, apresentava-se como renovação mesmo tendo feito parte de administrações anteriores. Ele apostou no discurso moral, além de ser próximo ao círculo militar. Vencedora no primeiro turno ao obter 22% das preferências, Sandra  Torres se valeu da máquina partidária da Unidade Nacional pela Esperança (UNE) – que elegeu 54 entre 160 deputados-, e da Ajuda Solidária, programa de transferência de renda que implementou à época em que foi primeira-dama do ex-presidente Álvaro Colom. Sandra é acusada de ser mais uma da classe política tradicional envolvida em denúncias de desvios em financiamentos eleitorais. 

“A UNE diz ser social democrata, mas está cheia de corrupção. Giammattei é de direita, mas não está claro o que representa. É impossível ter garantias”, comentou o deputado  Enrique Alvarez, do Convergência, oriundo da luta armada. Se durante a campanha o presidente eleito aproveitava-se da rejeição contra Sandra, agora terá que negociar com a UNE diante da maioria parlamentar da legenda, superando assim a forte rivalidade que marcou o segundo turno, em contrapartida à falta de debates sobre a redução da pobreza na nação, dentre as mais desiguais da América Latina.

O reflexo dos ataques surtiram efeito ao criar o termo “sandrofobia” inventado por alguns meios de comunicação em referência ao anti voto da candidata, especialmente na cidade da Guatemala e em áreas urbanas, sem contar as associações com a Venezuela e a Nicarágua, explorando a manipulação informativa que existe contra esses países. “Não viemos da velha política, somos um partido novo. A ajuda solidária empobrece mais um país, as pessoas têm que ser produtivas. Não podemos diminuir os programas sociais, mas devemos retirar esse caráter clientelista. Eles não podem perdurar por toda a vida”, opinou Guillermo Castillo vice de Giammattei. Estima-se que mais da metade da população esteja na faixa de pobreza e que 50% das crianças sofram de desnutrição, segundo dados da ONU.

Na outra ponta, partidários da candidata levantavam dúvidas sobre a orientação sexual de Giammattei e lembraram da detenção do candidato em 2010 devido à acusações de violação de direitos humanos, por conta da morte de réus quando era diretor do sistema penitenciário, entre os anos de 2005 e 2007. Giammattei foi absolvido desse processo. “Tenho palavra de mulher. Se eu já fiz tanto como primeira dama , imaginem o que eu vou fazer na presidência. Eu sou a mais preparada”, garantiu Sandra em seus discursos, que mesmo prometendo de pronto baixar as tarifas da cesta básica e da energia viu-se derrotada por Giammattei cuja votação no primeiro turno havia sido de apenas 14% do eleitorado.

Nomada.Gt
O conservador Alejandro Giammattei, do partido Vamos é acusado de inúmeros crimes

O declínio de Morales e a ascensão de Cabrera

Em decorrência dos desdobramentos da corrida eleitoral, a movimentação política produziu situações inesperadas. A esquerda representada pela líder indígena Thelma Cabrera, do Movimento pela Libertação dos Povos (MLP), e membros do campo da extrema direita do presidente Morales convergiram na alegação de fraude na contagem dos votos. Cabrera, vencedora nas províncias Sololá, Totonicapán e Chimaltenango e quarta colocada no quadro nacional com a histórica marca de 450 mil votos, liderou junto ao Comitê de Desenvolvimento Campesino (Codeca) o bloqueio de 22 vias do país na última semana em protesto contra as irregularidades denunciadas. “O movimento campesino não espera grandes coisas com qualquer um que ganhasse estas eleições. O que já estamos percebendo é que na próxima gestão aumentará a repressão e perseguição contra as organizações de agricultores e indígenas”, alertou Marcelo Sabuc, coordenador do Comitê Campesino do Altiplano. 

A desconfiança dos movimentos sociais é compartilhada pelo conjunto da sociedade e incide também sobre a rechaçada gestão de Jimmy Morales. Prestes a se despedir do poder, o presidente aderiu ao acordo de terceiro país seguro, aumentando a revolta com a herança que deixará num dos pontos mais sensíveis para os cidadãos: a migração. Pressionada pelos Estados Unidos, a Guatemala se tornaria um centro migratório de toda a região aderindo à medida proposta pelo governo de Donald Trump. Na avaliação de setores progressistas, a medida atenta contra os direitos humanos, tendo ainda por consequência a cessão de soberania ao EUA, uma vez que a potência do norte poderia enviar à Guatemala migrantes considerados indesejados na fronteira. “O plano é muito ambíguo e pouco detalhado. O governo diz que vai aceitar somente maiores de idade de Honduras e El Salvador, mas não se sabe como essas pessoas serão recebidas, onde irão dormir, quem lhes dará comida, tudo é incerto. Enquanto isso a Corte de Constitucionalidade  – máxima autoridade legal do país – ainda não definiu se o acordo é válido ou não”, informou o jornalista Javier Estrada Tobar, do site Nómada.

Dos corredores migratórios às disputas internas, o fechamento da universidade de San Carlos por coletivos estudantis, que tentam impedir a privatização de setores da academia, acompanhados pelo sindicato dos trabalhadores e dos professores, deve ser mais um dos problemas a ser enfrentado pela gestão que assume pelos próximos quatro anos. “Há muitas semelhanças por aqui com o que acontece no Brasil. As forças e poderes históricos, o poder econômico manipulado, presente em distintos partidos, consegue manter sua hegemonia inalterada e define a tendência. O discurso de ódio à diversidade, os paramilitares, o respaldo da igreja protestante compõem essa imagem”, comparou o deputado Amílcar Pop do partido indigenista Winaq.

Em meio a tantas crises, os cidadãos saem das urnas sem ilusões sobre o futuro. De acordo com o sentimento expressado pela maioria critica, o país escolheu seu veneno ao escolher o novo presidente, que mais do que uma eleição, precisa correr para conquistar a confiança dos guatemaltecos ao longo dos próximos quatro anos. 

 

*Murilo Matias é jornalista

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