Ilustração: tt Catalão

De Fernando Collor a Dilma Roussef: a origem da crise das décadas perdidas no Brasil

Executivos foram transformados em delatores para se safar das acusações de estarem praticando o capitalismo

Paulo Cannabrava Filho

Diálogos do Sul Diálogos do Sul

São Paulo (SP) (Brasil)

José Serra, senador da República, em artigo publicado pelo Estadão, diz que é frustrante este ano completar mais uma década perdida. A expressão foi cunhada na década de 1980, e remete à paralisação das economias latino-americanas após a crise financeira que em alguns países se arrastou pelas décadas seguintes. 

No Brasil, a realidade é que de a partir de 1980 todas as décadas foram perdidas e isso por conta do projeto iniciado pelo PSDB no governo de Fernando Henrique Cardoso, tendo José Serra a seu lado como dirigente do partido, assessor especial e ministro de Estado.

Serra, quando na década de 1960 foi eleito presidente da UNE, foi por um acordo do Grupão, uma frente que unia militantes do Partidão e da AP, Ação Popular oriunda da Juventude Católica organizada pela Igreja de Roma. Como militante do movimento estudantil, tomou parte na campanha Petróleo é Nosso e por uma Petrobras estatal, também apoiava as Reformas de Base propostas pelo governo de João Goulart.



Perpetrado o golpe de 1º de Abril de 1964, o prédio da Une na Praia do Flamengo foi depredado e incendiado por turba lacerdista. Serra fugiu para Bolívia, depois para o Chile e, enfim, para os Estados Unidos. Voltou após a anistia de 1979 e se uniu ao governo de Franco Montoro, em São Paulo, ajudou a fundar o PSDB e participou do governo entreguista de FHC. Como senador, fez o projeto que entrega o petróleo do pré-sal.

Ilustração: tt Catalão
Por não terem capturado integralmente o poder, deram lugar à conspiração e ao fortalecimento da hegemonia do capital financeiro

Os anos 1990 se iniciaram com eleição e a posse de Fernando Collor de Mello à Presidência da República, através de uma farsa eleitoral montada pelo rede Globo de jornais, rádios e televisões e dinheiro sabe-se lá de onde. 

PC Farias, que levou Collor à presidência, era ligado ao narcotráfico e gastou dinheiro a fundo perdido para ganhar a eleição. Foi assassinado, melhor dizendo, silenciado — o que é popularmente conhecido como queima de arquivo.

Logo os que levaram Collor ao poder já não o suportavam mais. As divergências entre Executivo e Legislativo tornou o país ingovernável e, nesse clima, armaram o golpe jurídico-parlamentar que o depôs do governo. Algo igualzinho se repetiria em 2016 contra Dilma Rousseff.

Collor tentou superar a crise deixada pelo desastroso governo de José Sarney, com inflação passando dos 80%, confusão cambial e a ideia de que tudo se resume à questão fiscal e monetária. Uma MP de 13 de março de 1990 congelou por 18 meses todos os ativos financeiros, inclusive depósitos à vista e cadernetas de poupança. Saques só dentro de certo limite. Mudou também a moeda, que voltou a ser Cruzeiro.

Para quem não estava entendendo nada, a ideia era que se era para combater a inflação, que devorava o curto salário que nunca chegava ao fim do mês, era bom. Na época, 87% apoiaram o plano. Quem sabia de economia ficou apavorado. A desordem foi tamanha que em 31 de janeiro de 1991 tentaram consertar emitindo outra MP com o Plano Collor II. Foi uma trégua, diminuiu o ritmo de desconcerto, mas…o governo não durou para ver se daria certo. Derrubaram-no.

Itamar Franco, vice-presidente, assumiu. O governo ia mal, mas a indústria ia bem, com 8% de crescimento, mantendo um PIB em torno de 5%. Mas a desordem cambial e monetária, com uma economia indexada — preços, salários, saldos bancários, tudo — era uma ameaça. O presidente Itamar com sua equipe bolou estender uma ponte entre essa economia indexada e uma nova moeda, estável, paritária ao dólar. A ponte, estendida em 1º de julho de 1994: a URV (moeda "virtual" do Plano Real) mascarava a desordem dos preços indexados à inflação.

A ideia era atrelar a moeda a um câmbio fixo e assim combater a cultura dos preços indexados. Isso em véspera de fim de mandato, para deixar ao novo governo um espaço para planejar uma reforma mais profunda, principalmente na área fiscal e de Previdência. Se tratava também de criar uma barreira ao efeito tequila, ou seja, evitar contaminação da crise que levou à quebra da economia do México. Era óbvio que o país requeria uma urgente reforma fiscal.

De maneira oportunista, deselegante e com cheiro de traição, Fernando Henrique puxou o tapete e ficou com as glórias do feito de Itamar, que foi o Plano Real, e utilizou-o para se eleger. Elegeu-se. Interessante que ninguém o acusou de abuso de poder econômico. Corria dinheiro a fundo perdido na campanha coordenada pelo Sérgio Mota. 

Os Estados Unidos ajudaram FHC a manter o real supervalorizado ao mesmo tempo em que se aproveitaram para incursionar nas áreas mais estratégicas, como da comunicação, inteligência e compra dos ativos nacionais vendidos a preço de banana.

Foi uma bela manobra de inteligência e manipulação da mídia a eleição do tucano, que repetiu a fraude para aprovar no Congresso a emenda que permitiu sua reeleição. Compra descarada de votos. Todo mundo sabia, saiu nos jornais e não aconteceu nada. No segundo mandato, completou a obra de desestatização, desnacionalização e entregou a administração a seu sucessor praticamente falida.

Esse é o FHC que assistiu e ficou caladinho diante do golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, que pactuou com Michel Temer na desmontagem do Estado e dos ativos nacionais e com a fraude eleitoral de outubro de 2018.

Veja, bem, como ex-presidente da República ele tem muitos privilégios, como o de uma escolta militar, mordomo, automóvel com chofer e assessores, além de acesso privilegiado à informação classificada. Ele estava a par de tudo e ria às escâncaras, pois o objetivo era derrotar o PT, e isso estava acontecendo. Uma história de o Príncipe e o Plebeu.

O fato é que 1994 significou a total captura do Estado pelo capital financeiro. O guru daquele tempo, Armínio Fraga, principal executivo de George Soros veio pra ficar. Com ele, a consolidação da ditadura do capital financeiro e do pensamento único. 

Lula, no primeiro governo do PT, até que tentou criar um caminho paralelo, avançou ao colocar a Petrobras como carro chefe do desenvolvimento, apoiando a indústria nacional. 

Criou estaleiros; submarinos; programas de energia nuclear; sondas e plataformas; estradas; ferrovias; gasoduto; investiu na petroquímica, na agroindústria, que em desenvolvimento acelerado era capaz de ser fonte geradora de capital para investimento na retomada do desenvolvimento. 

De quem foi a ideia, de Lula? do PT? Não me parece. 

O que me parece, racionalmente, é que foi uma Estratégia e Inteligência de um comando das grandes empreiteiras e grandes corporações nacionais, como Odebrecht, OAS, Votorantim e outras, aliadas a um minúsculo setor das Forças Armadas. Sete empresas consorciadas burlando a lei de licitação, controlando Legislativo, Executivo e Judiciário com dinheiro e prebendas. Essa é a realidade. 

Um plano que poderia dar certo

Voltar ao desenvolvimento acelerado das décadas passadas, tendo como carro chefe o petróleo e a indústria de base, que por sua vez, demandaria e financiaria a indústria de transformação, emprego, consumo, num círculo virtuoso e sustentável de desenvolvimento.

A inspiração parece ser o New deal, de Roosevelt, que foi exatamente isso: o petróleo como carro chefe na geração de recursos e a indústria da construção demandando mão de obra, bens de produção e de consumo. O Estado não conseguindo financiar a máquina e, como consequência, a quebra. Foi John Rockefeller, investidor e empresário, quem pagou a dívida do Estado. Como resultado, por um século, quem mandou na política dos Estados Unidos foi o clã Rockefeller e seus aliados reunidos em vários conselhos, o principal deles o Council on Foreign Relations, ligados ao gabinete da Presidência dos EUA.

Veja que o que garantia e ainda garante a estabilidade do sistema, criado pela oligarquia estadunidense, era o envolvimento de todos os setores da economia nos conselhos que eles criavam e coordenavam hegemonicamente. O controle do poder não deixava nada de fora e quem se opunha sofria severos castigos, um exemplo de macarthismo.

Aqui, as velhas oligarquias, no passado, haviam organizado e conduzido hegemonicamente todos os centros de decisão do país. Mas faltou inteligência e consciência de que o país necessitava de um projeto nacional.

A nova oligarquia (Odebrecht) falhou ao ter capturado apenas marginalmente o poder. Marginalmente porque o centro de decisão econômica, capturado pelo capital financeiro nos anos 1980, continuou nas mesmas mãos. Mãos dos homens de George Soros, o maior especulador financeiro do mundo.

Eis aí o busílis da questão.

Por não terem capturado integralmente o poder, deram lugar à conspiração e ao fortalecimento da hegemonia do capital financeiro, aquilo que Diálogos do Sul chama ditadura do capital financeiro, responsável por impor o pensamento único. 

Faltou, à esquerda e à direita a identificação do inimigo principal. Dormiram no ponto.

Faltou um Brizola na atual conjuntura. Subestimaram o inimigo externo e seus aliados internos. Confundiram globalização com submissão aos interesses da potência hegemônica. Não identificaram nas perdas internacionais a maior causa do déficit público.

Falha de Inteligência 

Por ocasião do início da crise que levaria à derrubada do governo Dilma, denunciamos que ela tinha a própria Inteligência do Estado conspirando contra ela.

Foi o que se viu no mensalão e principalmente com a Lava Jato, ambas operações de Inteligência arquitetada e operacionalizada desde Washington.

Moro deveria estar no patíbulo por traição à Pátria, mas está no governo. Executivos transformados em delatores para se  safar das acusações de estarem praticando o capitalismo. Ora, por favor. A intermediação, desde que inventaram o capitalismo, é a maior fonte geradora de capital.

Abusaram? Sim, abusaram e, pior que isso, bobearam. Por isso caíram e temos isso que está aí: uma calamidade.

Deixar-se surpreender foi o pior erro que cometeram. 


*Paulo Cannabrava Filho é editor da Diálogos do Sul



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