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As mentiras na política do Golpe do Estado Novo às fake news contra Manuela e Boulos

A mentira é uma prática social que está inserida no ambiente político desde que se tem registros. Ela está onipresente na história
Eduardo Nunes
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS), ordenou a retirada de cerca de 91 links contendo notícias falsas sobre a candidata do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Manuela D’Ávila; estima-se que foram excluídos cerca de meio milhão de compartilhamentos. 

Da mesma maneira, Guilherme Boulos (PSOL) sofre há anos com esse tipo de ataque. No primeiro turno da disputa na capital de São Paulo, Celso Russomanno (PRB) se tornou alvo de um inquérito levado a cabo pela Policia Federal por ter afirmado que Boulos invadia imóveis e cobrava aluguel de pessoas do Movimento dos Trabalhadores sem Teto.  

A mentira é uma prática social que está inserida no ambiente político desde que se tem registros. Ela está onipresente na história (ao menos se adotarmos uma visão eurocêntrica e excludente, que considera a existência de uma “civilização ocidental”, com início marcado pelos povos gregos há quase três mil anos) como modo de fazer política daqueles que buscam por vantagens. 

Sócrates já argumentava contrariamente aos Sofistas, que eram palestrantes profissionais que advogavam em prol da causa que lhe trouxesse o maior lucro, defendendo uma análise mais minuciosa dos problemas, chegando na sua raiz (origem da palavra radical). Ou ao menos isso é o que é relatado nos escritos do seu mais popular aluno: Platão. 

O psicólogo Paul Ekmen (1934-), pesquisador das emoções humanas, aponta nove motivos para um indivíduo criar uma narrativa fantasiosa. São eles: mentira para evitar punições; ganhar benefícios; proteger-se; defender-se; ganhar admiração; escapar de uma situação de vergonha social; mostrar boas maneiras; manter a privacidade; e, por último, acumulo de poder. 

Se olharmos atentamente para cada uma destas categorias, podemos perceber que são características que dizem muito sobre as práticas de uma grande parcela dos candidatos que pleiteiam um cargo público. 

Hernán Cortés (1485-1547) foi dissimulado com os povos nativos; hoje ele é lembrado como uma peça-chave na destruição do Império Asteca. De modo semelhante aos espanhóis, os portugueses atracaram nas costas brasileiras e ofereceram a amizade aos povos originários, mas como bons loroteiros, agiram de maneira contrária. Hoje são abundantes os registros históricos e a continuação da escravidão, espoliação das riquezas, desrespeito.

As invenções de histórias sobre os comunistas parecem ter sido frequentes desde o século 19 e seguem atuantes até a presente data. Karl Marx, o teórico mais proeminente desta forma de pensamento, foi exilado diversas vezes e perseguido outras mais. O Reichstag, a sede do parlamento na Alemanha de Weimar, foi incendiada e a culpa foi atribuída aos comunistas. Essa foi a desculpa retórica para o golpe de estado nazista. Posteriormente, a verdade veio à tona: Hans-Martin Lennings, nazista da força paramilitar do partido, contou em depoimento e confirmou o envolvimento do grupo, Sturmabteilung (SA), no atentado.

No Brasil sobram exemplos. O golpe do Estado Novo, encabeçado por Getúlio Vargas, usou a repercussão da Intentona Comunista para justificar a sua tomada de poder. Da mesma forma, em 1964 os militares tomavam o poder para proteger a nação brasileira da ameaça comunista, o que era justificativa recorrente pelo globo, na Guerra Fria. Desde a redemocratização, os boatos sobre as práticas comunistas têm confirmado presença em todo ciclo eleitoral. Recentemente, foi criada uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) com a finalidade investigar a criação e difusão de notícias falsas no pleito que elegeu Jair Bolsonaro, em 2018.

Como vimos, os ataques caluniosos, como os sofridos por Guilherme Boulos (PSOL) e a Manuela D’Ávila (PCdoB), são um artificio político recorrente ao decorrer da História. As motivações dos detratores, apesar de tácitas, são evidentes: a mesquinha recompensa individual. 

* Eduardo Nunes é acadêmico de História, na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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