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Ataque de Kiev a barragem terá consequências ambientais graves e a longo prazo, diz Rússia

De acordo com o ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, Kiev tenta “prevenir as ações ofensivas do exército russo nesse setor da frente”
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Enquanto alguns meios de comunicação asseguram que já começou a ofensiva ucraniana, e Kiev nem confirma nem desmente, as autoridades de ambos os lados do rio Dniepre se dedicaram nesta quinta-feira (8) nos labores de resgate de milhares de afetados pela inundação na região de Kherson, ao romper-se há dois dias a represa da hidroelétrica de Kakhovka e desatar-se a fúria da água de seu embalse por causas ainda desconhecidas e que se atribuem por igual russos e ucranianos. 

O nível médio da água alcançou na manhã de quinta-feira 5 metros e 61 centímetros, de acordo com o chefe da administração regional nomeado por Kiev, Oleksandr Proskudin, o qual estimou que na região de Kherson 600 quilômetros quadrados se encontram inundados, 32% na margem direita do rio Dniepre e 68% na margem esquerda, mais baixa, ocupada pelas tropas russas.

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Além da catástrofe meio-ambiental e humanitária que golpeia por igual a ambos os lados do Dniepre, com milhares de pessoas que tiveram que abandonar suas casas ou que esperam ser resgatadas no tetos de suas moradias, com enormes extensões de terra de cultivo inundadas, com dezenas de localidades sem água potável nem luz, um novo perigo para as pessoas emergiu também na quinta-feira com as minas terrestres que semeou a Rússia para defender suas posições e que, com a torrente de água que removeu a terra, explodiram ou estão flutuando sem ordem nem sentido. 

Na quarta-feira, o chefe da administração russa na parte ocupada de Kherson, Vladimir Saldo, declarou que a voadura da represa (pelos ucranianos, segundo ele) beneficia o exército russo porque faz quase impossível o traslado de armamento pesado ao outro lado do Dniéper, mas nesta quinta-feira apareceram as primeiras imagens de satélite que parecem mostrar que nada resta na linha fortificada de defesa que o exército russo havia levantado na zona agora inundada.

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O comando militar ucraniano assegura que, após a voadura da represa, a Rússia afastou 15 quilômetros suas tropas e armamento na margem esquerda do rio. Circulam vídeos que mostram – nos minutos posteriores ao começo da inundação – grupos de soldados russos, com água quase chegando à cintura, abandonando suas posições conforme avançava para eles a torrente de água. 

A tudo isto, russos e ucranianos continuam inculpando-se não só de ter causado a destruição da represa. Na quinta-feira também cruzaram acusações de que suas tropas bombardearam a zona afetada pelas inundações em pleno trabalho de resgate

De acordo com o ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, Kiev tenta “prevenir as ações ofensivas do exército russo nesse setor da frente”

Reprodução/Twitter
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Visita surpresa

Os projéteis russos caíram na margem direita do Dniéper e causaram 9 feridos depois de serem difundidas imagens da visita surpresa do presidente Volodymir Zelensky à zona de Jersón para “animar os danificados e coordenar os trabalhos dos serviços de emergência”, informou seu escritório.

As bombas ucranianas golpearam a localidade de Goloya Pristan, sob controle russo, onde opera um centro de evacuação. Morreram duas pessoas e há feridos, reportou a administração russa de Jersón. 

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E o intercâmbio de reclamações teve um novo episódio na quinta-feira, agora em Haia, na Corte Internacional de Justiça, que tem competência em disputas entre Estados. Aí, o embaixador russo, Aleksandr Shulguin, teve que responder às acusações que lançou à Ucrânia no sentido de que “a Rússia é um Estados terrorista, um agressor”, um dia antes de voar a represa de Kajovka pelos ares.

Shulguin retrucou: “Isto é responsabilidade da Ucrânia. O regime de Kiev não só lançou massivos ataques de artilharia contra a represa na noite de 6 de junho, mas também forçou deliberadamente o nível de água do embalse de Kajovka a um nível crítico ao romper as eclusas da hidroelétrica”. 

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Nem o diplomata de Moscou nem o de Kiev apresentaram provas que justifiquem as denúncias que imputam ao seu inimigo.

O ministro de Defesa russo, Serguei Shoigu, substituiu seu porta-voz, Igor Konashenkov, ao sair nos noticiários da televisão pública desta quinta-feira para informar que seu exército frustrou a tentativa das tropas ucranianas de romper a defesa em quatro setores da frente de Zaporiyia.

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“Hoje (quinta-feira) aproximadamente às 01h30, hora de Moscou, o inimigo tentou romper nossa defesa com forças da 47º brigada motorizada, integrado por até 1.500 efetivos e 150 tanques e veículos blindados, em quatro setores da frente da Zaporiyia”, salientou Shoigu e celebrou que “o inimigo não pôde cumprir o objetivo do ataque, retirando-se com numerosas baixas”. 

A Ucrânia, igual à Rússia e qualquer outro país em guerra, só dá a conhecer seus êxitos nos campos de batalha, e nada comentou acerca da incursão noturna mencionada por Shoigu.


Ofensiva já começou?

Desde o domingo anterior, alguns meios de comunicação, citando fontes anônimas ou analistas de inteligência de países da aliança norte-atlântica, dão por certo que a ofensiva ucraniana já começou, mas outros observadores consideram que a ativação inegável dos combates se deve à estratégia do general Valeri Zalushny, comandante em chefe do exército ucraniano, o qual, de acordo com essa leitura, estaria ordenando ataques táticos em distintas zonas para medir a capacidade de defesa russa e, de passagem, confundir o Estado Maior do exército russo ao levantar dúvidas com relação aonde se propõe dar o golpe principal.

O governo ucraniano nem confirma nem desmente o começo da ofensiva. Como é compreensível, não fez do domínio público seus objetivos e prazos, além do óbvio que é recuperar quanto mais territórios possa. Perguntado pela imprensa sobre quando vai começar a ofensiva, o presidente Zelensky só disse: “Verão em breve”.

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Na frente de Zaporiyia – conforme o capitão Valery Shershen, em funções de porta-voz das forças ucranianas conjuntas de defesa da zona de Tavria – têm lugar “pequenas operações de ataque” para buscar “posições mais favoráveis”. 

Por sua parte, a vice-ministra ucraniana de Defesa, Hanna Maliar, afirmou que na periferia da cidade de Orejov, também em Zaporiyia, as tropas russas se encontram em “fase de defesa ativa” e assim mesmo há combates mais ao leste, perto de Bolshaya Novosiolka.


Troca de acusações

Como já resulta habitual nesta guerra das versões, Moscou e Kiev se acusaram de destruir na madrugada de terça-feira (6) – faltando 10 minutos para as 3h da manhã – uma parte da represa da hidroelétrica de Kajovka, em mãos da Rússia desde fevereiro de 2022 e localizada no rio Dniéper, erigido em barreira natural que separa as tropas de ambos na região de Jersón. 

A enorme ruptura na represa, causada por impacto de mísseis (sustentam os russos) ou por explosões com dinamite (replicam os ucranianos), está provocando que no embalse – construído nos anos 50 do século passado e que continha 18 milhões de metros cúbicos de água –, se desborde o nível do líquido acumulado corrente abaixo, ameaçando inundar até 80 localidades. 

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Desde que se conheceu a notícia, começaram a circular as explicações, como se fosse uma novela policial, de quem beneficia o crime cometido contra a quinta hidroelétrica da Ucrânia, como só assim se pode qualificar, à margem do que país o perpetrou. 

Visto desde Moscou, considerando que a zona mais afetada ao ficar debaixo d’água é a parte de Jersón que a Rússia anexou, ao rompimento da represa – mediante ataques sustentados com lançadores de mísseis múltiplos, assevera o ministério de Defesa russo – é obra do exército ucraniano. 

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Assim, busca expulsar a população que vive aí, evitar que cultivam as terras e responsabilizar o Kremlin de elevar, a preço de atacar as pessoas que considera como suas, o risco de causar uma eventual catástrofe na central atômica de Zaporiyia, com consequências equiparáveis ao desastre de Chernobyl, que utiliza a água do embalse de Kajovka para resfriar os reatores.

Desde Viena, o secretário geral do Organismo Internacional da Energia Atômica (OIEA), Rafael Grossi, afirmou que por ora não há um “risco imediato” para a segurança da central atômica de Zaporiyia que emprega a água do embalse afetado nesta terça-feira, para esfriar a planta nuclear e que está sofrendo um sério descenso do nível da água à razão de cinco centímetros por hora. 

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“A ausência de água de refrigeração nos sistema essenciais durante um período de tempo prolongado provocaria a fusão do combustível e a inoperatividade dos geradores diesel de emergência”, adverte a OIEA em um comunicado, mas tranquiliza ao reconhecer que “há várias fontes alternativas de água” 

As autoridades russas asseguram que, há vários dias, “11 das 28 válvulas da hidroelétrica de Kajovka sofreram danos pelos sistemáticos bombardeios ucranianos” e, por esse motivo, o Comitê de Instrução da Rússia abriu na terça-feira uma acusação penal por “atentado terrorista”.

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Pouco antes, o ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, expressou que “o regime de Kiev levou a cabo uma sabotagem, de fato, um ato terrorista, que provocou a inundação de grandes áreas e terá consequências ambientais graves e a longo prazo”. De acordo com Shoigu, dessa maneira a Ucrânia quer “prevenir as ações ofensivas do exército russo nesse setor da frente”.

Visto desde Kiev, o rompimento da represa e a subsequente inundação faz quase impossível que suas tropas cruzem o Dniéper para tentar recuperar território, pelo qual só a Rússia – com explosivos colocados dentro da sala de máquinas, sustentam – pode ter sido o causadora do desastre, já que, argumentam, esse tipo de construções, depois da Segunda Guerra Mundial, foram levantadas de tal grossura que poderiam resistir a um ataque nuclear.

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A Rússia negou de forma rotunda estar atrás da destruição da represa e insistiu em acusar a Ucrânia de ter cometido uma “sabotagem deliberada” que, segundo o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, “foi planejada e executada por ordem do regime de Kiev”. Já o governador russo de Jersón, Vladimir Saldo, prometeu que “nossos militares estão prontos para defender a margem esquerda do Dniéper”.

Na realidade, retrucaram desde Kiev: “querem criar obstáculos insuperáveis para o avanço terrestre do exército ucraniano e seu armamento pesado”, tuitou Mikhaylo Podolyak, assessor da presidência ucraniana, que agregou que a Rússia também pretende “semear medo” na comunidade internacional para que deixe de apoiar a Ucrânia. 

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Mas se a ofensiva ucraniana – e ninguém pode sabê-lo, salvo o comandante em chefe do exército, Valeri Zaluzhny, e uma quantas pessoas mais na sede do governo de Kiev – não contemplava agora cruzar o Dniéper nessa zona, saturada de minas e fortificações, a inundação de problema, se tornaria um benefício. 

O presidente Volodymir Zelensky, após convocar uma reunião do Conselho de Segurança Nacional e Defesa, deu instruções para evacuar os civis das zonas em perigo e proporcionar água potável às localidades que dependem do embalse de Kajovka.

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O serviço de emergências da Ucrânia, que instalou quatro centros de evacuação, informou que, perto das 15h00 desta terça-feira, havia podido transladar cerca de 1.300 habitantes dos 16 mil que estima se encontrarem na zona de alto perigo de inundação. 

Sem importar quem abriu a enorme brecha na hidroelétrica, uma decisão que carece de justificativa possível, a Ucrânia responsabiliza à Rússia de ecocídio ao denunciar que 150 toneladas de óleo de motor – das 450 toneladas que havia na sala de máquinas de hidroelétrica – já se derramaram no Dniéper, deu a conhecer o ministro ucraniano do Interior, Igor Klymenko.

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“Durante a destruição dos alicerces da represa, foi destruída também a sala de máquinas e se produziu um derramamento de óleo de motor que contaminou o rio. Nesses momentos, estamos tentando conter para que não cheguem as 300 toneladas que ainda há”, agregou o ministro. 

Enquanto isso, a Rússia pretende que o Conselho de Segurança das Nações Unidas condene “o terrorismo do regime de Kiev” e a Ucrânia considera que tem razões suficientes para levar o caso do que chama ecocídio russo ante a Corte Internacional de Justiça. Não há que excluir que a destruição parcial do embalse tenha ocorrido por si só depois de 13 meses de guerra em que a Rússia e a Ucrânia agulharam por igual, projetil atrás de projetil, a represa que veio abaixo e desatou a fúria da água. 

Juana Pablo Duch | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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