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Boluarte discursa por 3 horas, ataca Castillo, mas se cala sobre civis mortos por seu governo

Cordões policiais mantiveram a cidadania a um quilômetro e meio de distância da sede do Legislativo, para que “não importunassem a Cerimônia Cívica”
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

A “mensagem à Nação” apresentada em 28 de julho por Dina Boluarte ante o Congresso da República nos permite alguns comentários. Precisemos:

Dina insistiu muitíssimo em sua extensa perorata – “O Sermão das 3 horas”, lhe chamaram – em reivindicar ao governo como “seu” governo. Repetiu como uma litania uma mesma expressão: “meu governo”. 

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Ocorre que as pessoas se habituaram a considerar que este é o governo de Otárola, que quem governa é Otárola, e que Dina é algo assim como um manequim de palha ao que costumam acionar eventualmente. O entusiasmo durou exatamente 187 minutos. Parecia que Otarola lhe deu corda. E ela aproveitou a licença para falar, falar, falar…

Proclamou-se Presidenta Constitucional e fez valer seu cargo alegando sua condição de Vice-presidente do Presidente deposto. Mas só chegou a isso. Depois falou de Pedro Castillo, afirmando que esse governo foi “inepto”, “errático”, “incapaz” e “corrupto”. Assegurou que ele havia desconhecido a lei, desprotegido a propriedade, afugentado a inversão privada nacional e estrangeira, violentado direitos e defraudado ao país.

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Não disse – é claro – que ela havia sido a vice-presidenta desse governo. Ministra do mesmo em 14 dos 16 meses de gestão governativa. Partícipe de todos os Conselhos de Ministros e eventos descentralizados; que havia trabalhado juntamente com o Primeiro Ministro Aníbal Torres, e que havia jurado publicamente deixar o governo com Castillo se este fosse derrubado. 

Cordões policiais mantiveram a cidadania a um quilômetro e meio de distância da sede do Legislativo, para que “não importunassem a Cerimônia Cívica”

Blomberg
Não se pode ignorar que o discurso de Dina Boluarte foi calorosamente aplaudido… por seus ministros

“Perdão”

Na parte mais “emotiva” de sua dissertação, pediu “perdão” pelo ocorrido nos meses passados. Falou “dos falecidos” nessa circunstância. Mas ninguém lhe pediu que falasse dos falecidos, que seguramente foram muitos mais.

Uns faleceram de câncer ou outras doenças; outros, de acidentes de trânsito ou veiculares; também houve quem falecesse por mão alheia, como vítimas de delinquência. Mas ninguém lhe pediu que falasse deles. Devia falar dos assassinados nos dias da repressão policial e militar registrada entre dezembro e fevereiro, e ordenada por seu Despacho. Mas sobre isso, calou. Fez mutis no fórum.

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Fez, em lugar disso, “uma finta”: pediu perdão “em nome do Estado”. Devia fazê-lo em seu próprio nome e em nome de seu Governo, não do Estado. Pede-se perdão em nome do Estado quando se fala de crimes cometidos por governos do passado.

O governo argentino, por exemplo, pediu, em seu momento, perdão em nome do Estado pelas vítimas da repressão militar registrada neste país nos anos de Videla. Ou o governo do Chile que fez o mesmo pelos crimes de Pinochet. Mas um governo, por seus próprios crimes, deve pedir perdão em seu próprio nome.

Números

Adicionalmente, Dina registrou no número dos caídos o policial morto por outro policial por motivações de outro tipo; e os soldados que perderam a vida em Ilave, por negligência de seu próprio comando. Sobre isto, as autoridades civis e militares também se calaram. Ninguém disse se o tema foi investigado, nem se deslindariam as responsabilidades do caso. É claro, então, que os assassinados foram vítimas das ações policiais ou militares. Pode-se ignorar o fato? 

Dina também disse que os fatos serão investigados. Mas já passaram 8 meses e não se conhecem acusados. Em outros casos, a celeridade foi impressionante: ocorrido o fato, o acusado foi capturado e condenado à “Prisão Preliminar” e depois à “Prisão Preventiva”. E agora?

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Não se pode ignorar que o discurso de Dina Boluarte foi calorosamente aplaudido… por seus ministros. E também – como não – por alguns parlamentares que hoje se assumem parlamentares “oficialistas”. Mas foi firmemente rechaçado por milhares de pessoas que se mobilizaram corajosamente por todo o Centro Histórico de Lima.

Os férreos cordões policiais impediram que a cidadania se aproximasse à sede do Legislativo. Os mantiveram pelo menos a um quilômetro e meio de distância, para que “não importunassem a Cerimônia Cívica” que se desenvolvia no Congresso.

Praças vazias

A Praça de Armas e as ruas próximas estiveram absolutamente vazias. Não voava nem uma mosca. Os sabujos se puseram incluso entre a eventualidade de que algum inseto pudesse assomar por aí portando um cartaz irreverente: “Dina assassina”, por exemplo.

A Praça San Martin, a Avenida Nicolás de Piérola, o Parque Universitário e outras zonas da cidade foram cenário de constantes enfrentamentos entre os manifestantes e a polícia.

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Cabe perguntar o que haveria ocorrido se a polícia não tivesse bloqueado esses espaços. Sem dúvida se teria produzido uma imensa concentração cívica na Praça San Martin em repúdio ao regime. O que acontece é que agora essa praça, antes ágora de grandes expressões populares, só pode ser ocupada pela polícia e, eventualmente, por “manifestações” estimuladas por ela.

Gustavo Espinoza M. | Colaborador de Diálogos do Sul de Lima, Peru. 

Tradução Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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