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Cana de açúcar, alternativa viável para alimentação do gado

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Cana de açúcar como ótima forrageira
Cana de açúcar como ótima forrageira

Roberto Salomón*

Estudos realizados nas últimas décadas confirmam a existência de bases biológicas que permitem confiar hoje na cana de açúcar como substituto de cereais em sistemas intensivos de alimentação de animais.

Segundo especialistas, a utilização dessa gramínea em métodos de produção pecuária oferece uma alternativa viável a sua conversão em açúcar para consumo humano.

Se historicamente o cultivo foi utilizado no mundo basicamente para extração nos engenhos de seu conteúdo de sacarose, hoje a cana é parte de uma equação mais ampla, que inclui a energia e a alimentação animal.

De acordo com os resultados de uma pesquisa realizada pela brasileira Universidade de São Paulo (USP), publicados há apenas uma semana, a adição de cana de açúcar à dieta do gado bovino, quando escasseiam os pastos, beneficia a produção de carne.

O estudo demonstrou a viabilidade comercial do uso dessa planta como alimento alternativo para o gado em períodos de escassez de outros nutrientes.

Uma das conclusões a que chegaram os pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, é que o bom rendimento desta alimentação alternativa está condicionado ao uso de espécies de cana com fibras de fácil digestão.

Depois de uma experiência de 105 dias com animais de uma fazenda em Pirassununga, cidade no interior do Estado de São Paulo, os cientistas concluíram que o uso de cana de fácil digestão oferece vários benefícios, como maior ganho de peso total e diário dos animais.

O gado bovino precisa ganhar peso durante todo o ano mas, no inverno, há escassez de pastos, o que afeta o desempenho do produtor, explicou o veterinário Luis Felipe de Prada e Silva, pesquisador da USP e coordenador do estudo.

“Como a colheita da cana coincide com a temporada de frio no Brasil, este material é uma excelente opção para manter o desempenho do animal durante o período de escassez”, acrescentou.

Segundo Prada e Silva, a cana não era considerada até agora um alimento alternativo para o gado por tratar-se de um vegetal de fibras de difícil digestão.

A experiência foi realizada com 48 animais, utilizando-se as duas variedades de cana com fibras de mais fácil digestão, escolhidas entre nove diferentes.

Dizem os autores da experiência que o peso ganho diariamente por cada animal chegou a 1,7 quilos entre os alimentados com 20% de cana de fácil digestão, frente aos 1,4 quilos que ganham por dia os mantidos em confinamento em circunstâncias normais.

Também argumentam que a renda do produtor que utiliza 20% de cana de fácil digestão como agregado chega a 133 reais (cerca de 60 dólares) por animal, contra os 111 reais (cerca de 50 dólares) dos que usam a cana de difícil digestão.

A experiência cubana 

Em Cuba existe uma vasta experiência no uso da cana de açúcar para a alimentação animal, não apenas do gado bovino, como também de porcos e aves.

Basta dizer que, quando o país produzia 8 milhões de toneladas de açúcar em cada safra, particularmente na década de 1980, fornecia à agricultura, cada ano, cerca de 4 milhões de toneladas de alimento animal.

Este se baseava nas contribuições de levedura torula de cerca de 12 usinas existentes na época – agora operam quatro -, e de mel proteico, diversas modalidades de bagaço pré-digerido, e de palha, folha e outras matérias orgânicas da cana.

De cerca de 35 derivados comercializados no país naquele momento, pelo menos uns 8 eram diversos tipos de produtos destinados à alimentação animal.

No entanto, com a ocorrência das condições que deram lugar ao período especial (crise econômica posterior ao desaparecimento do campo socialista europeu e da URSS), houve uma significativa queda dessas produções, algumas das quais desapareceram e hoje se tenta resgatar.

Não por acaso uma das diretrizes da política econômica e social do Partido Comunista de Cuba, a 212, refere-se à necessidade de diversificar as produções açucareiras, tendo em conta as exigências do mercado internacional e interno.

Também refere-se à importância de avançar na criação e exploração adequada de fábricas de derivados e subprodutos, com prioridade para as destinadas a obter álcool, alimento animal, bioprodutos e outros.

De acordo com estudos realizados pelo Instituto Cubano de Pesquisas dos Derivados da Cana de Açúcar (ICIDCA), esta planta tem diversas propriedades que permitem que seja utilizada como alimento para essa massa.

Entre essas qualidades destacam seu elevado rendimento em biomassa e uma capacidade de conversão de energia 8 vezes superior à empregada em seu cultivo e colheita.

O ICIDCA realizou não poucas pesquisas destinadas à produção de alimento animal a partir dos resíduos de cana, cachaça, bagaço, sucos, mel e outros subprodutos do processo agroindustrial açucareiro.

Esse centro – pertencente ao Grupo Empresarial Azcuba- também contribui com tecnologias para a elaboração de produtos como o bagaço hidrolizado, mel- ureia- bagaço e outros nutrientes com esse destino.

O Ministério da Agricultura utiliza para seu gado vários desses produtos e recorre, além disso, ao cultivo em grande escala de cana de açúcar em suas áreas com vistas ao consumo direto dessa gramínea, pelo gado, fundamentalmente.

*Prensa Latina, de Havana para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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