Pesquisar
Pesquisar

Cannabrava | A nave Bolsonaro está afundando: está armada a maior crise militar da história

Dizem que a dança das cadeiras tem o único propósito de fortalecer a famiglia. Estamos atentos já que os militares de Bolsonaro não são nada confiáveis

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

A primeira imagem que me veio à cabeça quando da notícia da demissão do ministro da Defesa foi aquela dos ratos abandonando o navio prestes a naufragar. Longe de comparar os militares aos ratos, mas o fato ilustra. A nave está afundando, não querem naufragar juntos.

Eis alguns dos sintomas de que chegou a hora de dar um basta à barbárie:

  • Manifesto de 500 banqueiros e financistas, ou seja, dos donos do dinheiro, exigindo que o governo faça corretamente o que tem que ser feito;
  • Uma centena de empresários a pedir uma renda mínima para a economia não paralisar de vez;
  • Ajuda emergencial inferior e para menos gente agrava o drama social;
  • Cerco internacional se estreitando;
  • Cerca de 300 diplomatas se manifestam contra a política externa;
  • O Senado inteiro sublevado com o episódio de confronto provocado pelo ministro Araújo ofendendo a senadora Katia Abreu
  • O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco DEM/MG, teve que fechar suas redes sociais devido aos ataques sofridos;
  • O presidente da Câmara, Artur Lira, dando ultimato: “ou cuida da pandemia, ou haverá impeachment“;
  • 16 governadores, de diferentes partidos políticos, assinam manifesto em que denunciam uma onda de notícias falsas inundando as redes com objetivo de desestabilizar as instituições e pedem providências ao Congresso e ao STF
  • Com as palavras de ordem: Vida, Pão, Saúde e Educação, estudantes (e viva a juventude) estão bloquearam ruas e avenidas nas principais capitais. Com certeza isso se espalhará por todas as cidades.

c4c9d2c8 f5ef 49e8 83bd b9a8418afe01

Não é fácil o impeachment, já dissemos isso várias vezes, pois o “centrão“, que é quem de fato governa,  acaba de dar uma demonstração de força ao aprovar um Orçamento da União absolutamente contrário ao que pretendia o governo, e, sobre todos os pontos de vista, insustentável.

Mais um elemento a corroborar com que o caos está se tornando inevitável e que caos se resolve com troca de governo. Quando a tempestade é perfeita não se deve perder a oportunidade. Oxalá nossos deuses iluminem a sociedade civil.


19c65f35 6c9e 4f4d bcc7 574a0eb0f1e4

São muitos os sintomas de que os militares estão incomodados.

Piero Leiner, especialista em poder militar, da Universidade Federal de São Carlos, diz que o desembarque começou com o general Santos Cruz, lá atrás, afirmando que uma coisa é o governo e outra coisa são as forças armadas

Mais recentemente, tanto o ministro da Defesa quanto o comandante do Exército voltaram a afirmar que as forças armadas não se metem na política.

Dizem que a dança das cadeiras tem o único propósito de fortalecer a famiglia. Estamos atentos já que os militares de Bolsonaro não são nada confiáveis

Reprodução: Winkiemedia
O ex-ministro da defesa Fernando Azevedo

Em carta de demissão do Ministério da Defesa o general Fernando Azevedo e Silva afirma que enquanto titular preservou as forças armadas como instituição de Estado.

O Exército não é instituição do governo nem de partido político, é instituição do Estado, disse o ex-comandante do Exército general Pujol, em novembro de 2020.

Muito bem, só que a coisa ganhou muita complexidade. Não são 11 ministros que poderiam abandonar seus cargos e voltar aos quartéis como se nada. São, na realidade, mais de 10 mil militares usufruindo de duplo salário e mordomias. Convencê-los a largar o osso: eis o grande problema!

Leia também: Cannabrava | O que se espera da Lava Jato é que culpados sejam julgados e condenados: quantos juízes estiveram envolvidos?

Sobre a saída do general Azevedo, da Defesa, há quem culpe o fato de ele ter se negado a ordenar o ex-comandante do Exército general Pujol a mobilizar a arma em defesa do capitão presidente. Outros por não ter punido o general Paulo Sérgio, chefe de Recursos Humanos, por ter, em entrevista à imprensa, alertado sobre uma terceira onda da Covid. Há também quem, com razão, alega que isso ocorreu porque queriam que o general Pujol se pronunciasse contra a decisão do STF favorável a Lula e desfavorável a Moro. Justo Moro, uma possível terceira via para a eleição de 2022!

Ato contínuo especula-se por toda parte que os próximos a serem defenestrados serão os comandantes das três armas. Mas eis que para surpresa de todos os três renunciam a seus cargos por discordarem do comandante supremo, ou seja, do presidente. Está armada a maior crise militar da história…
E agora José?

58b18feb 8b9f 44fa 86cc 400379ddea11

O general Walter Braga Neto, novo na Defesa, terá força para trocar os comandantes das três armas. Braga Neto deixou a Casa Civil, que foi ocupada pelo geral Luiz Eduardo Ramos, que era ministro-chefe da Secretaria do Governo que, por sua vez, foi ocupada pela deputada Flávia Arruda (PL/DF).

Baixo oficialato segue a quem?

Bolsonaro dizia, com insistência, ter o “nosso exército” (milícias?) o Exército e o povo. O Exército pulou fora; o povo é uma aposta duvidosa, com o rechaço a seu governo batendo recordes. Sobraram os milicianos. Isso explica as tentativas de sublevação das PM que estão ocorrendo.

A “neutralização” de um soldado da PM por soldados da tropa está sendo utilizada para transformá-lo e em herói e incitar os PMs, em geral, a se sublevarem. “Não vou permitir que violem a dignidade do trabalhador”, dizia o soldado, armado de fuzil, disparando a esmo. Disparou também contra os que tentaram rendê-lo. 

Bia Kicis, porta-voz da família palaciana, diz que o soldado, gente do povo, se negou a reprimir o povo por ordem do governador Rui Costa, da Bahia.

Estado de Mobilização Nacional

Em desespero, nesta terça-feira (30), o líder do PSL na Câmara, major da PM Victor Hugo, tentou viabilizar projeto que estabelece Estado de Mobilização Nacional, o que daria amplos poderes ao presidente, acima das instituições

Realmente é hora de mostrar que a sociedade civil está contra isso aí. Cercar a Câmara.

Modus operandi

A fake news disseminada pelos grupos bolsonaristas dá o tom do desespero. 

Um áudio atribuído à ministra pastora Damares Alves, uma mulher aos gritos e lágrimas pede que todas as mães se dirijam aos quartéis para pedir aos militares que salvem esse governo que “foi eleito por Deus”. A peça diz que os comunistas querem derrubá-lo.

Esse tipo de material, além de enganar as pessoas, foi plantado para gerar medo, gerar confusão e caos.

Cai ministro, cai todo mundo só não cai Bolsonaro

Caiu o Ernesto Araújo… não é para menos, conseguiu se indispor com o Senado inteiro e com todo o corpo diplomático. Assumiu o diplomata Alberto Franco, que tomava conta do cerimonial do Planalto. 

É o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Araújo não dava mais, porém, que importância tem esse terraplanista diante da maior crise militar da história?

Dizem que a dança das cadeiras tem o único propósito de fortalecer a famiglia

Leia também: Amigo de Flávio Bolsonaro, novo ministro da Justiça já foi acusado de sequestro e tortura

No super Ministério da Justiça e Segurança, saiu o calvinista André Mendonça, que volta para a Advocacia Geral da União e, em seu lugar um delegado da Polícia Federal, Anderson Torres, amigo da famiglia. Assim sendo, outras pastas serão movidas para satisfazer o Centrão.

Tudo leva a crer que estavam preparando algo para comemorar o 31 de março, comemorando com o fechamento do regime

Para nós, 1º de abril que foi quando declararam vaga a presidência da república. Esses militares não são confiáveis.

O que estarão tramando?

* Paulo Cannabrava Filho é jornalista e editor da Diálogos do Sul


Assista na Tv Diálogos do Sul

 

cf21a13a 882a 43de 885c b995137b7a87

   

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

LEIA tAMBÉM

Cannabrava Multidões força popular sem direção
Multidões: força popular sem direção?
Cannabrava Crescimento econômico em marcha lenta
Crescimento econômico em marcha lenta
Agência Brasil
Supremo em pauta: ética, protagonismo e democracia em ano eleitoral
Educar para a barbárie o cachorro Orelha e as hierarquias que matam (2)
Educar para a barbárie: o cachorro Orelha e as hierarquias que matam