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Cannabrava | Mil dias de terror: desemprego, hospitais, fome, inflação, desgoverno

Mil dias de incompetência levaram país à estagflação. Mais que recessão temos estagnação econômica com inflação, que pesa mais na mesa do pobre
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Terror de ter que ser hospitalizado e cair nas mãos de um médico negacionista, de um hospital que queira fazer a gente de cobaia.

Terror de estar no emprego e receber a carta de demissão. E agora? 

Terror de estar desempregado e não ver nenhuma perspectiva de melhora na economia.

Terror de ver o dinheiro sumindo, comprando cada dia menos comida e ter que deixar de pagar as contas.

Terror. O símbolo de uma sociedade em surto de depressão.

Da recessão à estagflação 

Mil dias de incompetência levaram o país à estagflação. Mais que recessão o que temos é a estagnação econômica com inflação, que não é pouca e pesa mais na mesa do pobre. A recessão vem desde 2014 e agora parou de vez, por isso estagflação.

A meta dos gestores da economia a serviço do mercado financeiro é manter a inflação abaixo de 5%. Tiveram que admitir que está em torno de 10%. E isso no mundo deles, na ilha da fantasia em que transformaram a capital federal. A realidade de quem vai às compras no supermercado é outra.

O salário médio do povo brasileiro era R$ 3.085,21 em 2020 caiu para R$ 2.975,74 em 2021, já não alcança para cesta básica, aluguel, transporte, combustíveis, gás de cozinha, conta de água e luz, médico, hospital, remédios, que são preços administrados e, principalmente, alimentos. 

Alimentos subiram 14%. A carne teve que sumir da dieta familiar com a alta de 30%; os combustíveis bateram o recorde com 41,3% de aumento nos últimos 12 meses. 

Mil dias de incompetência levaram país à estagflação. Mais que recessão temos estagnação econômica com inflação, que pesa mais na mesa do pobre

Agência Brasil
Salário médio do povo brasileiro era R$ 3.085,21 em 2020 caiu para R$ 2.975,74 em 2021

Combustíveis e a realidade hipócrita da Petrobrás

O diesel, que já estava fora da realidade, acaba de ter mais um aumento de 9%. Aumenta o diesel, aumenta o frete, incide em todos os preços. 

A Petrobras, de empresa integrada abarcando todo o ciclo do petróleo, está sendo transformada numa grande financeira para dar lucro pros acionistas. Querem que seja exclusivamente exploradora e exportadora de petróleo.

“No Planalto, governo atua para destruir Estado brasileiro”

Venderam na bacia das almas refinarias, estaleiros, terminais marítimos, petroquímica, transportadora, distribuidora e fornecedora ao consumidor. Venderam coisas que não lhes pertence. Pertence ao povo.

Num gesto hipócrita tentando passar por boazinha, informou que vai destinar R$ 300 milhões para subsidiar o gás de cozinha para 400 mil famílias. Isso em um universo de 66 milhões de consumidores. O botijão de gás de 13 Kg está com preço médio de R$ 98, mas na cidade de São Paulo, por exemplo, chega a mais de R$ 100. Em janeiro de 2020 estava R$ 70.

Fome e insegurança alimentar

Manchete de O Estado de SP desta quinta-feira é terrífica, pois assinala que bens essenciais tiveram aumento de até 500%. Absurdo, mas é isso mesmo. Coisas que não podem faltar como farinha de trigo, 77,9%; Arroz, 70,7%; sabão em pó, 71,3%; Feijão carioca, 126,8%; Sal refinado, 155,2%; Sabonete, 218,3%; Leite integral UHT, 408,3%; dentifrício, 578%. 

Os especialistas recomendam consultar antes, entre os diversos fornecedores, o melhor preço. Dona de casa tem tempo para isso? O cara que trabalha e mal tem tempo de ir às compras no armazém mais perto.

Reportagem do UOL Economia mostra que segundo pesquisa da Rede PENSSAN do fim de 2020, 117 milhões de brasileiros sofriam algum tipo de insegurança alimentar e 19 milhões passavam fome no país de 213 milhões de habitantes.

O escândalo da Prevent Senior

Terror no escândalo da Prevent Senior que deixou apavorada uma população de 542 mil pessoas. É muita gente. Entraram no mercado oferecendo planos de saúde até 40% abaixo do mercado. A oferta atraiu principalmente maiores de 60 anos, que já não conseguiam pagar os altos preços cobrados para os de maior idade.

Foi a única operadora que cresceu na pandemia. Na pressa, as pessoas não foram verificar o que e quem estavam por trás dessa arapuca. Agora ficaram sabendo que se trata de um trio de bolsonaristas apologistas do nazismo, o que explica por que faziam testes com medicamentos sem consultar os pacientes.

Luis Nassif | Prevent Senior: entenda o xadrez da guerra comercial dos planos de saúde

Para o senador Otto Alencar (PSD/BA), o que está sendo revelado na CPI da Covid é um caso de “eutanásia disfarçada”. Eutanásia, mais que disfarçada, programada. 

Previdência e salário mínimo

Incompetência na gestão da Previdência, preferem a população morta a vê-la administrar a previdência. Compram vacinas e equipamentos para testar enfermidades e deixam vencer nos depósitos sem uso. 600 mil mortes pela Covid, grande parte maiores de 60 anos já aposentados.

A gestão incompetente da economia só gera riqueza para os 10% mais ricos e mais ainda para os 10% dessa minoria. Nós somos os 90% capazes de gerar riqueza. Riqueza se gera com investimento em educação, trabalho e empregos.

Salário Mínimo, aposentadorias e pensões, com valores congelados ou corrigidos abaixo da inflação. Isso vale para a população civil. Já a população militar, como governa em causa própria, os militares na reserva custam 17 vezes mais que os aposentados do INSS.

Sozinho o agronegócio não sustenta o país

O Agronegócio é importante, mas não sustenta um país deste tamanho. Nenhum país. Pequena e média propriedade é a que produz o alimento. Produção industrial e Serviços é que geram emprego. A indústria da construção, por exemplo, é a que tem maior efeito multiplicador na economia.

Para construir um edifício, uma casa, move todos os setores da economia: da mineração à siderurgia a uma gama enorme de manufaturados, que para chegar às mãos do consumidor movimentou comércio, bancos, financeiras. Sem contar a quantidade de mão-de-obra que necessita em cada etapa.

Franklin Delano Roosevelt tirou os Estados Unidos do atoleiro com seu New Deal, privilegiando a construção civil. Mais recente, temos o tremendo salto alcançado pelo desenvolvimento da China, por décadas crescendo 10% ou mais, privilegiando, claro, a construção civil.

Crescimento tem que ser acima do crescimento demográfico, sustentável, quer dizer, sem ser uma montanha-russa. E tem que ser vigoroso, como o da China, acima de 10% ao ano, porque, aqui como era lá, o atraso é de muitas décadas.

China toma medidas enérgicas em relação à educação, saúde e habitação para evitar crise

A política agrícola tem que priorizar a segurança e soberania alimentar. Isso em primeiro lugar. O agronegócio é para os excedentes agrícolas e tem que ser planejado para não ocorrer a devastação histórica das fronteiras agrícolas.

O agronegócio está sujeito às intempéries — chuva demais afoga, apodrece; seca encrua, mata a planta. E há também algumas pragas. Aqui, entre nós, a maior praga trazida pelo agronegócio são os chamados defensivos agrícolas, agrotóxicos, venenos espargidos sobre plantações ecológicas e sobre cidades e aldeias indígenas.

Quem dita os preços da commodities?

Outro problema é que quem dita os preços da commodities são as grandes trades internacionais que controlam as bolsas de futuro, bolsas onde se negociam as safras. Mesma coisa ocorre com os minérios. Não é quem vende que dita o preço para o minério bruto que é exportado. São as grandes corporações.

Veja, por exemplo, uma notícia sobre a possível quebra de uma incorporadora e construtora chinesa, que nem se chegou a confirmar, derrubou o preço do ferro e as ações da Vale, a maior predadora mineral do planeta.

O Brasil ultrapassou os Estados Unidos como maior produtor e exportador de soja. Soja em grão. Commodities. A China é a maior compradora da soja e do minério de ferro. Ela compra nosso minério e vende nos Estados Unidos o melhor aço a preço competitivo. O Brasil exporta o minério, deixou de fabricar trilhos para comprá-los na China. É ou não é o país do absurdo? 

Para onde vão “nossos dólares”?

O ´dólar nas alturas. Estava R$ 4,20 em fevereiro de 2020 está hoje em torno de R$ 5,40. Dólar alto favorece a quem?

O agronegócio continua batendo recordes de produção. Exportou nada menos que US$ 260,6 bilhões em 12 meses. Cadê esse dinheiro? 

Segundo o Instituto de Economia da FGV, pelo menos uns US$ 46,2 bilhões sequer entraram no país. Ficam nos bancos lá fora. E o que entra, para aonde vão?

Dowbor | Agronegócio prefere exportar a garantir segurança alimentar no Brasil

Vão para comprar agrotóxico, fertilizantes (estes estão 100% mais caros), carrões de luxo, aviões e iates, apartamentos em condomínios que permanecerão fechados, apartamentos em Miami e o que sobra alimenta a ciranda financeira.

Dinheiro para fazer mais dinheiro, ou, em alguns casos, para estender a fronteira agrícola, derrubando e queimando floresta para plantar mais grãos de exportação.

Nenhum centavo para a saúde, nenhum centavo para a educação. Bolsa Família vira porta-moedas. Devia ser pelo menos R$ 600 por cada membro da família, está em R$ 120 para menos gente e ainda não foi pago.

Amazônia e povos indígenas

Enquanto isso, tome invasão predadora da Amazônia: incêndios, derrubada e exportação ilegal de madeira, garimpo ilegal, assédio e até crimes de morte contra as populações ribeirinhas, quilombolas e aldeias indígenas. O Tribunal Penal de Haia está com notícia crime para condenar o capitão que ocupa a presidência por genocídio dos povos indígenas.

O Ministério do Meio Ambiente, que deve cuidar da Amazônia, de R$ 1,7 bilhões que dispunha em 2014, despencou para R$ 647 milhões em 2020. Em compensação, os gastos com os militares na Amazônia aumentaram 178%, passando de R$ 140 milhões em 2019 para R$ 389 milhões em 2020. Resultado: a derrubada da floresta se manteve acima de 10 mil km.

Já venderam nossas riquezas e o Estado brasileiro é a vez, por fim, do nosso território: a Amazônia brasileira

E tome incêndio no Pantanal. Muito grave a mudança do ecossistema do Pantanal. Já quase secou o rio Paraguai, vital para o povo paraguaio, tanto como fonte de vida como de transporte. Igualmente o rio Paraná está perdendo navegabilidade na Argentina. Barcos maiores já não navegam.

E tome seca em regiões tradicionalmente úmidas, como a região de Ribeirão Preto, que já foi um celeiro produtor de alimentos, hoje um mar de cana disputando com um oceano de soja. Seca e incêndio provocando escuridão ao meio-dia, seja com nuvem de fumaça, seja com nuvem de poeira.

E tome terra indígena. Tome desertificação.

Tome a morte de rios e cidades como as provocadas pelo rompimento das represas em Mariana e Brumadinho. Rio Doce, até hoje irrecuperável. O Rio São Francisco, rio da Integração Nacional, já não consegue cumprir com sua missão.

E tome gente morta pela violência do Estado. 50 mil mortos por violência segundo dados do próprio Ministério da Justiça. Os maiores números de vítimas ocorreram no Ceará (45,2%), Bahia (44,9%), Sergipe (42,6%).

O Estado contra o povo brasileiro: não se engane, estamos em guerra civil há 500 anos

São as vítimas dessa guerra civil, do Estado contra o povo iniciada em 1500. Guerra hoje comandada pelas forças armadas que abdicaram da soberania para serem submissas ao Império. Nada diferente das tropas dos conquistadores que praticaram o maior genocídio humano. Tudo continua igual. A luta é pela libertação nacional.

Paulo Cannabrava Filho é jornalista e diretor da Diálogos do Sul


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Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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