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Cannabrava | Um estranho no ninho: no G7, Lula diz "não" aos Estados Unidos e à Otan

Política externa de Lula representa paradoxo: não é possível reivindicar neutralidade na guerra se Brasil é aliado extra-Otan e integra Comando Sul dos EUA
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

O G7 se reuniu em Hiroshima, emblemática ilha japonesa, onde os Estados Unidos mostraram o desejo de obter mais apoio e continuar a guerra na Ucrânia. Porém, não conseguiram convencer o Brasil a mudar sua posição de neutralidade e de formar um grupo de países para mediar a paz. A atitude é correta, de neutralidade e pluralidade, porém, um paradoxo.

Hiroshima é icônica. Uma cidade que, sem ter nenhuma base militar, teve a população civil dizimada por uma bomba atômica jogada em 6 de agosto de 1945, por ordem de Harry Truman, então presidente dos Estados Unidos. Naquele dia, houve 250 mil mortos e feridos em um minuto. As sequelas radiativas duram até hoje, fora os danos materiais, morais e psicológicos.

O Japão, na Segunda Guerra já estava praticamente rendido, não havia necessidade de tal ato. Não satisfeitos, os EUA atiraram uma segunda bomba na cidade de Nagasaki, em 9 de agosto, matando mais de 35 mil pessoas e ferindo outras tantas. Sem necessidade, pois toda a infraestrutura já havia sido destruída por sucessivos bombardeios anteriores.

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Foi um experimento genocida para servir de alerta à Rússia, a vencedora sobre o nazifascismo.

Esse crime de lesa-humanidade até hoje não foi punido. Por vergonha na cara, o Tribunal Penal Internacional deveria condenar post-mortem o presidente Truman.

O Japão, que pareceu tão educado para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deveria cobrar, no mínimo, um pedido de desculpas, já que os danos materiais e humanos são incalculáveis. Nunca o fez porque segue sendo um país ocupado militarmente pelos Estados Unidos. Em Okinawa está o que talvez seja a maior das mais de 800 bases que os Estados Unidos mantêm mundo afora.


O que é o G7?

É a elite da Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan): Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Japão.

Leia também: Cannabrava | Resposta a atentado terrorista ao Kremlin pode ser morte de Zelensky e seu grupo

Qual a intenção dessa reunião?

Aprovar mais bloqueios contra a Rússia, mais apoio à guerra travada pelos EUA contra a Rússia e a China.

A Inglaterra, sócio privilegiado de sua ex-colônia, está cada dia mais subordinada a Washington; Alemanha, Itália e Japão são países ocupados militar e economicamente. Toda a Europa, vítima de uma guerra cultural e econômica prolongada, é hoje totalmente submissa aos interesses do Tio Sam, notadamente a partir da década de 1980, com a adoção do pensamento único neoliberal imposto pelo capital financeiro.

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Esses países se consideram os mais industrializados e ricos do planeta, o que não é verdade, já que mergulhados em crise sistêmica desde os anos 1980, quando adotaram a cartilha do Consenso de Washington na gestão de suas economias. 

Desestatização, desindustrialização, desnacionalização, precarização do trabalho, desemprego, carência de recursos energéticos e inflação: é isso o que se vê na União Europeia.


Quem foi convidado?

Para a reunião do G7 foi convidado um grupo de países de que a Otan precisa para a guerra ter uma maioria contra a Rússia, na tentativa de convencer os convidados a mudarem de opinião. Participaram como convidados a Austrália, as Ilhas Comores, as Ilhas Cook, a Coreia do Sul, a Indonésia, o Vietnã, a Índia e o Brasil.

A Coreia do Sul é uma base militar americana que está reivindicando armas nucleares táticas, já que a vizinha Coreia do Norte está armada. Esta tem no seu histórico ter derrotado e expulsado de seu território o imperialismo japonês e, em seguida, os Estados Unidos. Essa guerra, iniciada em 1956, ainda não terminou. Ambos os países mantêm o Armistício de Panmunjom, que selou o cessar-fogo.

Desde 2021, a Austrália está unida militarmente aos Estados Unidos e ao Reino Unido através do pacto Aukus, para a segurança na região Indo-Pacífico, com vistas a cercar a China. Deve obediência ao rei Charles III.

As Ilhas Comores são parte de um arquipélago com pouco mais de 800 mil habitantes. Foi colônia portuguesa, depois ocupada pela França, de quem se libertou em 1975. Está em posição estratégica ao nordeste de Moçambique, no Oceano Índico. O país, que abriga uma base naval francesa e um destacamento da Legião Estrangeira, está fadado à desestabilização, com mais de 60 golpes de Estado em sua recente história republicana.

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Situadas no Pacífico Sul, entre a Nova Zelândia e o Havaí, as Ilhas Cook são um paraíso turístico. Foram uma possessão inglesa, Estado associado à Nova Zelândia a partir de 1965 e se diz independente desde 1992, obediente, no entanto, ao rei Charles III.

Ambos os países insulares, diminutos e sem expressão política e econômica, estão estrategicamente situados para apoiar uma possível guerra contra a China.

A Indonésia é o maior arquipélago do planeta, com mais de 250 milhões de habitantes, situado no sudeste da Ásia. Foi colônia portuguesa, holandesa e inglesa, ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial e libertou-se em 1945. Com o líder Kusno Sosrodihardjo, conhecido como Sukarno, que governou de 1945 a 1967, foi um importante protagonista do movimento dos países não alinhados.

O Vietnã, que faz fronteira com a China, também é emblemático: um país de camponeses que derrotou a maior potência bélica do planeta, e isso após ter derrotado e se livrado da França colonialista. O país mantém relações diplomáticas com a Ucrânia, mas pensar que poderá apoiar a Otan é muito arriscado.

Será que a Ucrânia será o Vietnã da Rússia ou dos Estados Unidos? Pela lógica, a longo prazo, serão os Estados Unidos que mais têm a perder.

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Política externa de Lula representa paradoxo: não é possível reivindicar neutralidade na guerra se Brasil é aliado extra-Otan e integra Comando Sul dos EUA

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Presidente Lula em fotografia oficial dos chefes de delegação dos países membros e dos países convidados do G7. Hiroshima, Japão




Contra-hegemonia 

Contra as intenções de manter um mundo hegemonizado pelo ocidente neoliberal, temos o Brics: grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Esses países já romperam com o unilateralismo e estão impondo no mundo o multilateralismo fundado na cooperação para o desenvolvimento.

Argentina, Irã e Arábia Saudita estão prestes a ingressar no grupo. Há outros 19 países na fila para entrar, entre eles, Cazaquistão, Afeganistão, Tailândia e Indonésia, abrangendo quase toda a Ásia, além de Argélia, Egito, Emirados Árabes, Bahrein, Senegal e Nigéria.

Com a expansão, a população do Brics, atualmente em 3,2 bilhões, passaria a 4,2 bilhões, mais da metade da humanidade (53%). O PIB passaria de US$ 24,7 trilhões para US$ 29,7 trilhões, correspondendo a 38% do PIB global. A Rússia e a China apoiam a ideia de ampliação, enquanto o Brasil reivindica cautela para não perder o protagonismo.

Além disso, China e Rússia lideram a Organização para Cooperação de Xangai, firmada em 1996 por Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, considerada por observadores como um elefante na sala do Ocidente.

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A África está cansada de colonialismo e de continuar explorada pelas metrópoles coloniais. Ávida de independência, constitui hoje um palco preferencial para acordos de cooperação para o desenvolvimento propostos pela China, que já é o principal parceiro comercial de muitos dos países africanos.

A Nova Rota da Seda, ou Cinturão e Rota, projeto de cooperação para o desenvolvimento e infraestrutura proposto pelo presidente chinês, Xi Jinping, vai de Pequim a Roterdã, integrando a Eurásia à África e já tem mais de 100 países participantes, cerca de 70% da população e mais de 40% do PIB mundial.

A tentação de se somar a esse fabuloso projeto já chegou à Nossa América. Em fevereiro de 2022, a Argentina selou um acordo para integrar a Rota. Considerando que a China já é o maior parceiro comercial e mantém investimentos vultosos em quase todos os países latino-americanos, é fácil deduzir que o futuro passa pela integração também do Brasil ao projeto. Que futuro poderá haver fora dessa integração?

A Índia, assim como o Brasil, só tem a perder ao se alinhar ao projeto bélico dos Estados Unidos. Pobre Europa, de potência colonialista a sabujo dos imperialistas ianques, os anglo-saxões expansionistas.

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Joe Biden aproveita a reunião do G7 para anunciar o fornecimento de caças F-16 para a Ucrânia, bem como o treinamento de ucranianos para pilotá-los. Seu governo já autorizou mais de US$ 350 milhões em ajuda militar. Enviou tanques Leopard e sistema Patriot de disparo de mísseis de longo alcance, que na semana passada foram destruídos pelos mísseis supersônicos russos. Como dizer que essa guerra é da Rússia contra a Ucrânia?


Sem comédia

Volodymyr Zelensky, o comediante colocado no poder pelo golpe de Estado patrocinado pelos Estados Unidos, em 2014, que depende do apoio dos EUA e da Otan para continuar na guerra, pretendia encontrar-se com Lula em Hiroshima. 

Não chegou na hora marcada, frustrou-se. De pouco adiantaria o encontro, pois, como disse o próprio Lula. Zelensky não quer a paz, acredita que vai ganhar a guerra. 

Com relação à Rússia, o Kremlin sabe que não pode perder essa guerra. É para os russos uma questão vital para sobrevivência como país e território. E a China sabe que a integridade da Rússia é vital para sua sobrevivência.

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Lula tem carisma, é respeitado e querido na Europa e em quase todo o mundo, está no Brics e vocacionado para fazer parte das Novas Rotas. O não-alinhamento é a posição correta, dá autoridade para mediar pela paz.


Paradoxo brasileiro

O problema maior do Brasil é a questão militar não resolvida.

O General do Estado Maior das Forças Armadas Brasileiras, Alcides Valeriano de Faria Júnior, integra como subcomandante de interoperabilidade o Comando Sul dos Estados Unidos (Southcom).

Em 2019, o país foi promovido a aliado extra-Otan dos Estados Unidos e, no ano seguinte, fez um novo acordo complementar sobre a utilização da Base Aeroespacial de Alcântara. A intenção é integrar missões da Otan, como ocorre com a Colômbia, também integrante do comando estadunidense, comandado pela General de Exército Laura Richardson.

Em novembro de 2021, a general esteve no Brasil e se reuniu com os comandantes das três forças para fortalecer a cooperação militar entre os dois países. 

Richardson voltou em agosto de 2022 para participar da XV Conferência de Ministros de Defesa das Américas, que contou com representantes de 21 países. Em entrevista ao site Defesa Net, enfatizou que “temos um relacionamento forte e histórico com o Brasil. É muito importante minha visita aqui para continuar viabilizando e fortalecendo nossa parceria…. Meu desejo é apenas continuar essa ótima colaboração”.

Leia também: Vivemos cenário pior que guerra nuclear: única saída é pelo Brics, diz Paulo Cannabrava

No entanto, há um paradoxo: é incongruente ser aliado extra-Otan dos Estados Unidos, integrar o Comando Sul das forças armadas desse país e ser neutro em uma guerra travada por esse país.

Para ser independente e soberano, o Brasil precisa rever todos os tratados firmados com os Estados Unidos na área de defesa, segurança e inteligência. Principalmente, tem que romper os acordos com os serviços de inteligência, fonte permanente de desestabilização e prenúncio de golpe de estado.

Faz parte da libertação nacional levar ao povo essa verdade. É preciso fazer com que as forças armadas representem os interesses nacionais e defendam a soberania em todos os aspectos.

Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor da Diálogos do Sul e escritor.
É autor de uma vintena de livros em vários idiomas, destacamos as seguintes produções:
• A Nova Roma – Como os Estados Unidos se transformam numa Washington Imperial através da exploração da fé religiosa – Appris Editora
Resistência e Anistia – A História contada por seus protagonistas – Alameda Editorial
• Governabilidade Impossível – Reflexões sobre a partidocracia brasileira – Alameda Editora
No Olho do Furacão, América Latina nos anos 1960-70 – Cortez Editora

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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