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Cavalo de Troia: Ex-ministro do Peru admite ter usado cargo para desestabilizar Castillo

Ao assumir cargo, Mariano Gonzales assegurou sorridente que levaria ao governo “mais amor”. Na realidade levou mais aversão, mais ódio e mais guerra
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

Conta a lenda que o Cavalo de Troia foi um estratagema de tipo militar usado em tempos remotos pelos Aqueus, e que consistiu no ingresso a uma cidade sitiada de um destacamento guerreiro escondido em um cavalo de madeira, oferecido como “presente” no meio de um conflito que parecia inacabável.

Foi Ulisses, o rei de Ítaca, que cansado de assediar a cidade de Tróia, idealizou esta armadilha que levou os gregos à vitória. Os ingênuos cidadãos da cidade caíram mansamente na manobra inimiga e foram presa fácil de seus agressores. 

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Dos mil anos depois, em nosso país, o ex-ministro do Interior, Mariano González Fernández, proclamou-se “Cavalo de Troia” e assegurou ter-se introduzido sub-repticiamente nos prédios do oficialismo para levar a cabo uma espécie de “guerra interna” e acabar com a precária administração do Professor Pedro Castillo

A crise explodiu na noite da terça-feira de 19 de julho, quando, através do Twitter, o Chefe de Estado anunciou a designação de um novo titular na Pasta de Córpac, assegurando haver aceito “a renúncia” do titular. Depois se saberia que dom Mariano havia firmado – sem data – sua carta de renúncia ao assumir sua função ministerial. Se González tramava uma conjura, o Mandatário fez com que ela abortasse. 

Curioso. Até minutos antes das 8 da noite desse dia, o senhor González assegurava que o Presidente da República era um homem honrado, que lutava por resolver os problemas do país, e que gozava de sua inteira confiança. 

Bastou o tuíte para que a versão desse um giro: o Presidente era um delinquente, encabeçava uma quadrilha, obstruía a ação da justiça, e devia ser destituído de imediato. 

Ao assumir cargo, Mariano Gonzales assegurou sorridente que levaria ao governo “mais amor”. Na realidade levou mais aversão, mais ódio e mais guerra

RPP
Algum dia – quando concluam a investigação – se dirá que a denúncia não foi provada

Sem provas

O ex-funcionário apresentou alguma prova de suas temerárias acusações? Nenhuma. Simplesmente assinalou o que bem se podia considerar como “suas impressões”.

Acreditava que isso era assim. Estava convencido disso, disse aos meios de comunicação e o ratificou diante da Comissão Parlamentar que o interrogou no Congresso da República gerando maior ceticismo. 

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Desde o início os jornalistas o assediaram e o senhor González pôde dar-se ao luxo de passear por todos os canais da TV e oferecer todas as entrevistas coletivas que quis. Em outras palavras, foi a vedete neste surpreendente show. 

Nem todos acreditaram exatamente nele. Ou, em todo caso, nem todos aceitaram a íntegra da versão, embora tenham captado a substância. Comeram com gosto o prato de fundo – “Castillo é um delinquente” – mas objetaram ao portador da obscura mensagem. “Este também”, pareceram dizer.

Roma não paga traidores

No fundo, recordaram aquela expressão também antiga, embora falsa, atribuída ao Cônsul Cipião, que se negara a recompensar a Audax, Ditalco e Minurus por haver matado à traição a Viriato, o líder guerrilheiro lusitano enfrentado ao poder imperial: “Roma não paga a traidores”. Os antigos pensavam também que a deslealdade não se paga. 

Na realidade, houve quem questionasse a sinceridade do declarante porque presumiu ser “progressista”. Proclamou ser de “centro-esquerda”, talvez para não parecer radical. Mas para os meios, é intolerável. A polarização os leva a assegurar que “do centro para a esquerda, tudo é igual”. Só a direita é tolerável. 

Por isso Willax pôs em dúvida a versão. E em particular Phillip Butter a objetou, não questionando a essência, mas sim o declarante. No extremo, assegurou que formava parte de uma “manobra caviar”, que se orientava a derrubar Castillo para colocar em seu lugar Dina Boluarte – a Vice Presidenta – e assegurar a continuidade do regime. E para eles, a senhora também é “delinquente”. Tampouco a suportam. E querem tirá-la até antes de Castillo para que não tenham possibilidade de nada. 

O provável é que a denúncia de Gonzales fique como um ruído a mais. Ruído notável, sem dúvida, que dará passo a outras ações. Por enquanto, já a Promotoria assumiu os primeiros passos, e se dispôs a investigar a “obstrução à justiça” assinalada pelo renunciante. 

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E a carga de toda a “grande imprensa” se fará sentir até o fim. Algum dia – quando concluam a investigação – se dirá que a denúncia não foi provada. E que era apenas uma estratégia definida para tirar Castillo do governo. 

De imediato, já se desataram as idas e vindas dos politiqueiros de ofício. Congressistas, Opinólogos e Jornalistas. Uns buscam pelo Golpe de Estado. Outros, aninham a esperança de uma “sucessão constitucional”.

Mas uns e outros contam quantos votos necessitam para facilitar seus planos. E se dispõem a “rebaixar a vala” se a soma não for suficiente. Não há limite para a imaginação, mas tampouco para a angústia.

Não é em absoluto casual que o diário “El Comercio” tenha posto na primeira página a 8 colunas na quinta-feira: “Governo de Pedro Castillo já é insustentável”. Como se sua sustentabilidade dependesse do “diário do ódio” como era chamado até alguns anos atrás. 

Pareceria que o sonho acariciado pela ultra-direita ganha força. E que o assédio dará fruto, que se concretizará no que disseram exultantes e em uníssono María del Carmen Alva e Patricia Chirinos: “Pedro Castillo não pode estar um minuto mais na cadeira presidencial”. Vamos ver.  

Mariano Gonzales, ao assumir o cargo de ministro do Interior, assegurou sorridente que levaria ao governo “mais amor”. Na realidade levou mais aversão, mais ódio e mais guerra.

Mas neste caso, como em outros, será o povo que terá a última palavra. 

Gustavo Espinoza M. é colaborador da Diálogos do Sul, de Lima, Peru.
Tradução de Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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