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Ceci Juruá | Para entender desenvolvimento industrial do Brasil é preciso ler Celso Furtado e Sérgio Magalhães

"Por mais que lute, por mais que ofereça resultados favoráveis na esfera da produtividade e da produção, jamais os teóricos de certo tipo atribuiram mérito à empresa nacional"
Ceci Juruá
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

No meu entendimento, firmado através de muita leitura e debates em torno do tema Desenvolvimento Econômico do Brasil, dois autores se distinguem dos demais: Celso Furtado e Sérgio Magalhães (deputado federal pelo PTB, candidato a governador do Rio de Janeiro nas eleições de 1960).

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A obra de Celso Furtado é conhecida por um número restrito de economistas, historiadores e cientistas sociais de diversas áreas. Muito restrito o número dos que leram o conjunto da obra de nosso maior mestre, historiador do desenvolvimento e subdesenvolvimento do Brasil à luz do materialismo histórico nas versões de Marx e de Keynes.

Sérgio Magalhães é um nome que não se encontra na bibliografia de economistas brasileiros. Ele é, no entanto, autor de livro insólito que considero obra-prima da historiografia econômica brasileira: Problemas do Desenvolvimento Econômico (Civilização Brasileira, 1960).

"Por mais que lute, por mais que ofereça resultados favoráveis na esfera da produtividade e da produção, jamais os teóricos de certo tipo atribuiram mérito à empresa nacional"

Brasil de Fato
A obra de Celso Furtado é conhecida por um número restrito de economistas.

A certa altura desse livro de Sergio Magalhães, lemos:

Por mais que lute, por mais que ofereça resultados favoráveis na esfera da produtividade e da produção, jamais os teóricos de certo tipo atribuiram mérito à empresa nacional, por isso que a falência ou concordata de brasileiro não emociona os círculos do governo, sempre dispostos a amparar as iniciativas estrangeiras. Decorre essa atitude de uma filosofia… : acredita-se que, tendo o Brasil sido colonizado por nação mercantil, jamais a burguesia brasileira sairá com êxito dos limites do comércio.

De nossa apreciação sumária de alguns fenômenos do mundo atual e em particular da sociedade brasileira, decorrem alguns pontos básicos:

1) estabelecer uma política de crédito que facilite a expansão econômica da burguesia nacional;

2) estimular o empresário brasileiro a ocupar no cenário político o lugar que lhe está reservado pela história;

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3) restringir a enorme soma de privilégios de que desfruta a empresa de capitais estrangeiros

4) recensear os capitais que efetivamente vieram do exterior e a legitimidade do seu crescimento mediante a capitalização de lucros; privilegiar a empresa brasileira e criar uma ciência jurídica que ampare tal situação favorecida.

Estamos convencidos de que será possível assegurar o crescimento autônomo da economia brasileira, se soubermos levantar as reivindicações legítimas da burguesia industrial e comercial, de modo a brotarem espontaneamente as soluções mais justas e exequíveis dentro das condições institucionais do presente.”

Eu, uma participante da multidão que aplaudiu João Goulart em 13 de março de 1964, eu acredito que nessas linhas e entrelinhas de Sérgio Magalhães estão enunciadas as razões maiores do golpe de Estado civil-militar de março-abril de 1964.

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Entre inúmeras provas que poderíamos enumerar, são exemplos a criação do Banco Central do Brasil e a nomeação de Roberto Campos em substituição a Celso Furtado no Ministério do Planejamento.

Mas a maior prova, claro, pode ser encontrada na extinção do Partido Trabalhista Brasileiro e/ou na cassação por atos institucionais de uma brilhante plêiade de intelectuais brasileiros. Foi o tempo de Cassação das Bruxas!

Ceci Juruá, Economista e pesquisadora em história econômica do Brasil, mestre em desenvolvimento e planejamento econômico, doutora em políticas públicas, colabora com Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Ceci Juruá

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