Jorge Araujo / Fotos Públicas

Um sonho infeliz de cidade: São Paulo simboliza mazelas da sociedade brasileira

O dilúvio paulistano desta segunda, nos lembra que, mesmo a contragosto, ricos e pobres estarão cada vez mais no mesmo barco do cataclisma mundial

Wagner Iglecias

Diálogos do Sul Diálogos do Sul

São Paulo (Brasil)

São Paulo amanheceu caótica, debaixo d'água, com grande parte de suas principais vias interditadas. Não é a primeira vez e provavelmente não será a última. 

São décadas, mais de século de desleixo, irresponsabilidade, incompetência, desvios, marginalização. De uma cidade que asfixiou seus rios e córregos. Que derrubou suas matas. 

Jorge Araujo / Fotos Públicas
Uma cidade que priorizou o automóvel, a gasolina, a fumaça

Que jogou pras periferias milhões de pobres coitados, favelados, trafegando em trens e ônibus lotados em troca de salários de fome. 

Que investiu na (in)sociabilidade cinza do cimento e do asfalto. 

Que sempre definiu a destinação dos recursos públicos através de planos diretores desenhados pelo setor privado. 

Que priorizou o automóvel, a gasolina, a fumaça.

Que enalteceu os enclaves fortificados, os espaços exclusivos, com seus nomes em francês, inglês e italiano, com toda a segurança e sofisticação que "você e sua família merecem".

De uma cidade, enfim, que simboliza como poucas a sociedade brasileira e todas as suas mazelas.

Difícil, horas depois da cerimônia do Oscar, não relacionar a tempestade cenográfica de "Parasita" com o dilúvio paulistano desta segunda-feira: ambos a nos lembrar que, mesmo a contragosto, ricos, pobres e remediados estarão cada vez mais no mesmo barco do cataclisma mundial.

* Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da EACH e do PROLAM USP.

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