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Com fins eleitorais, antes de impôr novas sanções a Cuba, Biden consultou lobby antirrevolucionário de Miami

Para críticos, medidas são continuidade das ações de Donald Trump; movimento contra o bloqueio mobiliza mais de 400 políticos, intelectuais e ativistas ao redor do mundo
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O governo de Joe Biden, após consultas com Miami, impôs sanções simbólicas contra o ministro das forças armadas e uma unidade de forças especiais de Cuba por supostas violações aos direitos humanos durante as manifestações antigovernamentais na ilha há uma semana, e ameaçou: “isto é só o início”. 

São as primeiras medidas formuladas pelo novo governo em Washington que para críticos parecem ser só a continuação da política de intensificação do bloqueio de seu antecessor na Casa Branca, Donald Trump.

Biden, por ora, ignora as vozes liberais de seu próprio partido, que pedem o cumprimento de suas promessas eleitorais de retomar alguns aspectos da política de normalização impulsionada por Barack Obama.

As medidas anunciadas na ´última quinta-feira (22), simbólicas, já que congelam bens inexistentes e proíbem o ingresso dos sancionados nos Estados Unidos, foram consultadas primeiro pelo próprio Biden com líderes democratas cubano-estadunidenses em Miami na noite de quarta-feira (21). 

Não há outro caso no qual a política exterior dos Estados Unidos seja consultada primeiro tão extensamente com exilados ou a diáspora do país afetado, confirmam especialistas a La Jornada, confirmando que em boa medida, sobretudo na era pós-guerra fria, a política bilateral com Cuba não é resultado de alguma lógica geopolítica, mas sim de cálculos eleitorais na Flórida. 

Para críticos, medidas são continuidade das ações de Donald Trump; movimento contra o bloqueio mobiliza mais de 400 políticos, intelectuais e ativistas ao redor do mundo

@oficialBiden
Não há outro caso no qual a política exterior dos Estados Unidos seja consultada primeiro tão extensamente com exilados

Mesma retórica imperial

Biden declarou que seu país “continuará sancionando indivíduos responsáveis pela opressão do povo cubano” e repetiu sua retórica sobre a promoção da liberdade e direitos humanos como eixos de sua política exterior, e sua denúncia do governo cubano.

“Os Estados Unidos apoiam os cubanos valentes que saíram às ruas por opor-se aos 62 anos de repressão sob o regime comunista”, afirmou. 

O Departamento do Tesouro, encargado de aplicar este tipo de sanções por meio de seu Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), anunciou que as novas sanções foram aplicadas ao general Álvaro López Miera, ministro das Forças Armadas Revolucionárias, e toda a Brigada Especial Nacional do Ministério do Interior acusados de “repressão dos protestos, inclusive por meio de atos de violência física e intimidação sob a Lei Global Magnitsky”. 

O Tesouro informou que o programa de sanções contra Cuba é “o mais amplo de seu tipo administrado pela OFAC”, já que é a entidade encarregada de administrar o embargo econômico.

Apenas um começo

Biden, em uma declaração, também indicou que estas são só parte de um pacote de medidas juntamente como as anunciadas no início da semana anterior que contemplam:

  • avaliar um mecanismo de envio de remessas que evite beneficiar o governo da ilha;
  • buscar formas de ampliar o acesso à Internet na ilha;
  • ampliar o pessoal diplomático na embaixada em Havana para “reforçar nossa capacidade de colaborar com a sociedade civil”;
  • aplicar mais pressão internacional inclusive através da Organização dos Estados Americanos (OEA) contra a ilha.  

Biden assegurou em sua declaração que “os cubano-estadunidenses são sócios vitais em nossos esforços” na ilha. 

De fato, o anunciado na quinta-feira (22) foi consultado primeiro com cubano-estadunidenses em Miami na ligação de Biden na quarta, informaram alguns dos participantes, entre eles o presidente do Partido Democrata estatal da Flórida, Manny Diaz, a prefeita de Miami-Dade Daniela Levine Cava, os ex-deputados federais Joe Garcia e Debbie Mucarsel-Powell, um acadêmico e uma estrela de rádio local, a operativa política Sasha Tirador, entre outros, informou o site Politico.

O influente senador democrata Bob Menéndez, chefe do Comitê de Relações Exteriores, que foi chave em negociar a “nova” política de Biden, elogiou as novas sanções. 

Deixe Cuba Viver

Por outro lado, mais de 400 intelectuais, artistas, religiosos e ativistas assinaram uma carta aberta a Biden, publicada no New York Times intitulada Let Cuba Live. Afirmam que “é inadmissível, especialmente durante uma pandemia, bloquear intencionalmente as remessas e a utilização de instituições financeiras globais para a ilha, dado que o acesso aos dólares é necessário para a importação de alimentos e medicamentos”, e exigem que Biden anule as medidas coercivas impostas por Trump. 

Os signatários incluem Noam Chomsky, Jane Fonda, Oliver Stone, Daniel Ellsberg, Mark Ruffalo, Susan Sarandon, Danny Glover, o movimento Black Lives Matter, e a Reverenda Liz Tehoharis. Figuras internacionais incluem Luiz Inácio Lula da Silva, Adolfo Pérez Esquivel, Chico Buarque, Emma Thompson, Yanis Varoufakis, Jeremy Corbyn e Pablo González Casanova. 

Ao mesmo tempo, alguns legisladores liberais continuam buscando pressionar para anular algumas das mais de 200 medidas impulsionadas por Trump para apertar ainda mais o bloqueio, enquanto organizações solidárias promovem campanhas humanitárias para apoiar Cuba.

No domingo (25) teve início uma “caminhada pela família cubana” de Miami a Washington — uns 2 mil quilômetros — de cubanoestadunidenses, encabeçados por Carlos Lazo, o diretor de Pontes de Amor, em frente à Casa Branca chamando a atenção para o fim do bloqueio (quebrando assim a ideia oficial de que a comunidade cubana apoia as políticas de embargo e as sanções).

David Brooks, correspondente – La Jornada. Nova York, 22 de julho.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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