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Com Joe Biden no poder, Estados Unidos vai à guerra enquanto Venezuela quer a paz

Ainda que Biden esteja levantando a bandeira do multilateralismo o que esperar da relação dos EUA com todo o mundo, incluindo então com a Venezuela
Giovani del Prete
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

O que esperar do governo Biden na relação Estados Unidos-Venezuela? Com a saída de Donald Trump, há espaço para a construção do diálogo e respeito entre os dois países? A resposta é sim e não. 

Da parte venezuelana, há todo o interesse em ter boas relações com Washington. Com exceção da fração da oposição golpista venezuelana, liderada por Juan Guaidó, a oposição democrática e as forças chavistas querem o fim das invasões de paramilitares e dos bloqueios econômicos, financeiros e midiáticos promovidos desde os Estados Unidos durante a administração Trump. Contudo, já nos primeiros dias de governo Biden já temos algumas pistas de que a Casa Branca mudou de inquilino, mas não mudou sua política para a Venezuela.

Com a maior dívida pública do mundo (superando 21 trilhões de dólares), com 20% das mortes globais por Covid-19 e uma sociedade visivelmente polarizada depois de uma campanha eleitoral violenta, produzindo cenas como a invasão do Capitólio por grupos supremacistas convocados por Trump, o que não falta para os Estados Unidos são problemas internos. Cabe lembrar que, mais do que a vitória de Biden, as eleições de 2020 foram um referendo contra Trump. E é sob a realidade destes fatos que Biden e Harris assumem o governo.

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Em vez assumir uma agenda de reforma policial, de cancelamento das dívidas estudantis e hipotecas, só para citar algumas das demandas populares que vimos nos protestos massivos que tomaram as ruas do país no ano passado, Biden tem trabalhado para desmobilizar os movimentos populares, ao mesmo tempo que busca alianças com setores do Partido Republicano para ter condições de governabilidade. 

Assim, a nova administração dá continuidade às velhas fórmulas de conciliação burguesa que representam o sistema bipartidário nos Estados Unidos. Tal como Trump, Biden tem a tarefa de garantir a hegemonia dos Estados Unidos no mundo.

Ou seja, o que podemos esperar é que as políticas da Casa Branca para melhorar a vida do povo estadunidense terão validade até o momento em que o novo governo avaliar que conseguiu desarmar os protestos populares, sendo que as políticas prioritárias e permanentes serão aquelas que beneficiam Wall Street e o Pentágono. E é justamente a partir desta constatação que podemos ter mais clareza sobre o que esperar da relação dos Estados Unidos com todo o mundo, incluindo então com a Venezuela.

Ainda que Biden esteja levantando a bandeira do multilateralismo em seus discursos, Anthony Blinken, recém-nomeado Secretário de Estado, já apresentou a agenda da política externa imperialista: Guaidó segue sendo “presidente” da Venezuela. 

Na cabeça dos Estados Unidos, China e Rússia são as principais ameaças externas. Ou seja, o multilateralismo dos Estados Unidos será seletivo, buscando envolver os aliados tradicionais do Norte (Europa e Japão) numa estratégia de acúmulo de força para que os EUA sigam liderando a ordem imperialista com as táticas de Guerras Híbridas (combinação de ataques econômicos, midiáticos, militares e psicológicos) contra aqueles países considerados inimigos pelo Pentágono e Wall Street. 

É na construção da imagem de inimigos externos, como China, Rússia, Irã e Venezuela, por exemplo, que os Estados Unidos tentam desviar a atenção mundial para os seus graves problemas internos, ao mesmo tempo em que justificam a militarização das Relações Internacionais. Some-se a isto tudo, como é sempre bom lembrar, que a Venezuela é a maior reserva de petróleo do mundo (18% de petróleo mundial) e os Estados Unidos são altamente dependentes da importação deste recurso para suprir sua demanda interna. E a História nos mostra: onde há petróleo, há guerras.  

Neste sentido, cabe entender o que diz o Estado Profundo (deep State) sobre o orçamento de guerra dos Estados Unidos. Segundo a Estratégia Nacional de Defesa de 2018 [1], documento elaborado pelo Departamento de Defesa dos EUA, o país deve aumentar seu investimento em armas mais letais e modernas para combater as principais ameaças à influência dos Estados Unidos no mundo, leia-se China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. Segundo o levantamento do Stockholm International Peace Research Institute para 2019 [2], só os EUA são responsáveis por 38% dos gastos militares globais, valor muito superior à China (14%) e Rússia (4,5%).

Ainda que Biden esteja levantando a bandeira do multilateralismo o que esperar da relação dos EUA com todo o mundo, incluindo então com a Venezuela

Montagem Diálogos do Sul
O que esperar do governo Biden na relação Estados Unidos-Venezuela?

O resultado concreto desta influência do complexo industrial-militar-financeiro dos Estados Unidos na sua projeção de poder no mundo, é o de que não há qualquer possibilidade de diálogo, paz ou respeito à soberania dos outros países por parte dos Estados Unidos, seja em relação à Venezuela ou sobre qualquer outra nação que não se curve aos desígnios da Casa Branca. É assim que funciona o sistema imperialista no século 21 liderado pelos Estados Unidos. Com mais de 800 bases militares espalhadas pelo mundo, os EUA exercem seu poder imperial de espionagem e ataque rápido quando julgam necessário. 

Neste aspecto, cabe lembrar a relação de longa duração de investimento, treinamento e “modernização” das Forças Armadas colombianas por parte dos Estados Unidos através do Plano Colômbia, convertendo o país governado por Ivan Duque numa espécie de “Israel da América do Sul”, como uma ponta de lança dos interesses dos EUA a partir da Colômbia para assediar a Venezuela. Só no período da administração Obama-Biden, foram 7 novas bases militares dos EUA instaladas no país caribenho.

É sob este cerco e aniquilamento imperialista que o povo venezuelano trava sua luta diária de defesa de sua soberania e autodeterminação. Desde 1998, com a eleição de Hugo Chávez, a Venezuela é alvo de sabotagens, subornos, mentiras e de um criminoso bloqueio unilateral, que só entre 2017 e 2018 causou a morte de mais de 40 mil venezuelanos [3]. As balas de Washington, que agem dia-e-noite para desestabilizar a Revolução Bolivariana, matam e estrangulam o povo venezuelano. 

E, mesmo diante de todos estes ataques, também foram inúmeras as vitórias do povo bolivariano. Nestes pouco mais de 20 anos, o povo promulgou uma nova Constituição que garantiu a divisão da renda petroleira para programas sociais e desarmou 11 tentativas de Golpe de Estado [4]. A Venezuela nunca pediu a guerra, mas desde que seu povo escolheu o caminho da soberania e da autodeterminação, a campanha de desestabilização imperialista não cessa.

Mesmo bloqueada, a Venezuela é um dos exemplos no mundo no combate ao covid-19. Graças à organização popular nas comunas, urbanas e rurais, e às políticas do governo nacional, a Venezuela tem uma das menores taxas de mortes e infectados do planeta. Com uma população 10 vezes menor que a dos Estados Unidos, a Venezuela (1.159 mortes) tem 368 vezes menos morte do que os Estados Unidos (428 mil mortes) em função da pandemia.

Diante da análise dos fatos em perspectiva histórica, é evidente que os governos que combatem as desigualdades sociais, comprometendo-se com uma agenda em defesa dos Direitos Humanos, são também os governos que buscam o diálogo e constroem pontes entre os países. 

E diante de um país mergulhado em uma combinação de crises econômicas, sanitárias e sociais, seria racional e humanamente coerente a adoção de uma agenda, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos, de cooperação entre os povos. Porém, a prevalência dos interesses de Wall Street e do Pentágono na condução da política externa dos Estados Unidos acabam por evidenciar que Biden está mais para um administrador e propulsor de guerras do que para um pacifista.

E o povo venezuelano está calejado de saber, seja Biden ou Trump, ainda que possa haver diferenças táticas entre eles, a agenda neoliberal e militarista seguirá pautando a relação dos Estados Unidos com o mundo e assim será com a Venezuela.

Referências:

[1] = Disponível em: https://dod.defense.gov/Portals/1/Documents/pubs/2018-National-Defense-Strategy-Summary.pdf

[2] = Disponível em: https://sipri.org/media/press-release/2020/global-arms-industry-sales-top-25-companies-85-cent-big-players-active-global-south

[3] = Disponível em: https://cepr.net/report/sancoes-economicas-como-punicao-coletiva-o-caso-da-venezuela/

[4] = Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2020/10/08/em-seis-anos-de-bloqueio-venezuela-foi-alvo-de-150-sancoes-e-11-tentativas-de-golpe

Giovani del Prete é  formado em Relações Internacionais, militante e trabalhador internacionalista


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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