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Da mídia à Casa Branca, EUA rejeitam falatório de Biden sobre ameaça nuclear russa

Na última sexta-feira (7), imprensa oficial estadunidense corrigiu fala do presidente de que a Rússia estava contemplando usar arsenal
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Joe Biden advertiu na quinta-feira passada (6) que estamos à beira do “Armagedom” se o seu adversário Vladimir Putin cumprir com sua ameaça de usar uma arma nuclear tática na Ucrânia. Tanto Biden como Putin ameaçaram com consequências catastróficas se alguém impedir o que eles querem durante os últimos meses. Agora o mundo está nas mãos de duas pessoas que ameaçam usar tudo para conseguir seus supostos objetivos “racionais” de poder.  

Em comentários em uma ceia para arrecadar fundos eleitorais para o Partido Democrata em Nova York (será recordada como “a última ceia”?), Biden indicou que “não enfrentamos a possibilidade de Armagedom desde Kennedy e a crise dos mísseis em Cuba” há 60 anos, culpando Putin de chegar a esse ponto por sua invasão da Ucrânia.

Que um presidente se atreva a dizer que as coisas chegaram a este ponto é nada menos que uma confissão de fracasso já que o primeiro dever de um mandatário – segundo eles mesmos – é garantir a segurança de seu povo. Pôr a culpa no adversário é esperado. Washington continua fingindo que é inocente na crise monumental em torno à Ucrânia, mas os próprios arquitetos e operadores estadunidenses da Guerra Fria – de George Kennan até Henry Kissinger, entre outros – advertiram que brotaria uma nova guerra fria e um conflito como o da Ucrânia se os Estados Unidos continuassem violando o acordo verbal com Gorbachov de não buscar ampliar sua aliança militar europeia ao desmantelar-se a União Soviética.

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Ambos Putin e Biden – e aliados de ambos – compartilham responsabilidade pelo que deveria ser um delito de lesa humanidade: ameaçar à humanidade proclamando que estão dispostos a contemplar o apocalipse em seus jogos de poder. Nos estão convidando ao mesmo manicômio.

Embora palavras apocalípticas sobre uma guerra nuclear não sejam nada novo, surpreende que depois do comentário alarmante de Biden não tenha acontecido nada: não mudou o debate político cotidiano do país, não foi o tema principal nos meios, não houve reunião de emergência na ONU, nem tampouco se emitiram alertas à população sobre debaixo de qual escrivaninha nós devemos nos esconder se estalar “a bomba”. Nem os pacifistas e suas ONGs, nem centros de análise, organizações civis dedicadas ao bem-estar das maiorias, nem forças de esquerda estadunidenses convocaram reuniões e mobilizações imediatas. Por que?

Ninguém acredita neles? No dia seguinte, sexta-feira (7), a encarregada de imprensa da Casa Branca disse que os comentários de Biden não estavam baseados em nenhum tipo de nova inteligência e não havia informação de que a Rússia estava contemplando usar armas nucleares de maneira iminente. Ou seja, foi só um exemplo a mais de um político que saiu do roteiro? Só que neste caso, este político, como seu adversário, tem seu dedo sobre o “botão nuclear”. 

Ou todos estão acostumados a viver sob a sombra apocalíptica nuclear que, afinal de contas, tem acompanhado a humanidade desde 1945, quando pela primeira vez foram usadas estas armas por ninguém menos que os Estados Unidos?

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Vale repetir que a doutrina do chamado “equilíbrio nuclear” que imperou entre ambos os superpoderes girava sob o entendimento de que usar suas armas nucleares um contra o outro era suicídio mútuo e resultaria na destruição do mundo (de fato, ainda existem suficientes armas nucleares para fazer justamente isso). Essa doutrina se chamava “Destruição Mútua Assegurada” e sua sigla em inglês é MAD – palavra que se traduz como louco. Não há outra resposta racional senão exigir que vão embora ambos os líderes por se atreverem a ameaçar-nos com o fim do nosso mundo. Qualquer outra possibilidades seria simplesmente mad (triste).

Bônus musical 1 | Tom Lehrer – We Will All Go Together When We Go 

Bônus musical 2 | Trombone Shorty & Allen Toussaint – On Your Way Down

David Brooks | Correspondente do La Jornada em Nova York.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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