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Foto: X de Delegación ELN

Descumprimento de acordos coloca em risco processo de paz na Colômbia

Segundo o ELN, "governo deve renunciar à perfídia e cumprir os acordos" pactuados na instalação das mesas de diálogo
Jorge Enrique Botero
La Jornada
Bogotá

Tradução:

Beatriz Cannabrava

O Exército de Libertação Nacional (ELN) acusou o governo colombiano de ter uma estratégia de negociações baseada na deslealdade e exigiu cessar imediatamente os diálogos paralelos que sustentam com uma frente de sua organização no departamento de Nariño, ao sul da Colômbia, sob risco de paralisação dos diálogos referentes ao atual processo de paz.

Embora as delegações de ambas as partes estejam reunidas em Caracas, Venezuela, há uma semana, as conversações estão oficialmente congeladas e atravessam um de seus piores momentos desde o início, em novembro de 2022. “Para sair desta crise do processo de paz, o governo deve renunciar à perfídia e cumprir os acordos que pactuou com o ELN quando se instalou a mesa”, adverte a guerrilha em um comunicado emitido neste sábado (20) desde a capital venezuelana.

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ELN alertou o Governo

O documento faz uma minuciosa cronologia dos fatos que levaram ao atual parênteses das negociações, sublinhando que desde fins de agosto de 2023 a guerrilha alertou o governo sobre a ilegitimidade das aproximações e acordos com a chamada Frente Companheiros do Sul, que opera em uma região fronteiriça com o Equador.

A insurgência assegurou que havia informado à delegação governamental que Gabriel Yépez, comandante da frente, conhecido como H, havia sido chamado a responder “em um processo disciplinar interno por violar a política do ELN de deslinde categórico com o narcotráfico”.

Não obstante, o governo não só desatendeu o apelo da insurgência, mas em fevereiro avalizou os diálogos regionais com a fração de H e em março anunciou a conformação de uma comissão de desminagem humanitária em Nariño, considerada pelo ELN como “um reconhecimento de status internacional e contundente ao dito grupo, que nos suplanta, criando uma dissidência protegida pelo Estado”.

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Analistas como o historiador e sociólogo Horacio Duque chamaram a atenção para a mudança de estratégia do governo desde a nomeação do ex-comandante guerrilheiro Otty Patiño, companheiro de armas do presidente Gustavo Petro no M-19, como alto comissário de paz.

Segundo Duque, “não só no caso do ELN, mas nas negociações com o Estado Maior Central, uma das duas dissidências das extintas FARC, o governo apostou na divisão interna das forças rebeldes, gerando um clima de desconfiança pouco propício para levar adiante um processo de paz“.

Especialistas locais mostraram preocupação pelas eventuais consequências da atual crise sobre o cessar-fogo entre o governo e o ELN, que existe há mais de seis meses e conseguiu reduzir drasticamente os impactos da guerra em numerosas comunidades rurais.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Jorge Enrique Botero Jornalista, escritor, documentarista e correspondente do La Jornada na Colômbia, trabalha há 40 anos em mídia escrita, rádio e televisão. Também foi repórter da Prensa Latina e fundador do Canal Telesur, em 2005. Publicou cinco livros: “Espérame en el cielo, capitán”, “Últimas Noticias de la Guerra”, “Hostage Nation”, “La vida no es fácil, papi” y “Simón Trinidad, el hombre de hierro”. Obteve, entre outros, os prêmios Rei da Espanha (1997); Nuevo Periodismo-Cemex (2003) e Melhor Livro Colombiano, concedido pela fundação Libros y Letras (2005).

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