Pesquisar
Pesquisar

“Desencanto”, que na era Obama levou Trump ao triunfo, retorna aos EUA de Biden

Fica no ar a dúvida se o povo defenderá ou não o que se chama “democracia”, uma decisão que pode afetar a todos no planeta
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Na segunda semana consecutiva em que o comitê do Congresso continuou documentando publicamente a forma como se tentou um golpe de Estado nos Estados Unidos e continuou advertindo que essa ameaça direitista prevalece hoje em dia, talvez o mais surpreendente é que isto ainda não provocou uma onda popular massiva pela defesa do que supostamente é a essência fundamental deste país: sua democracia.  

E ainda mais, tudo aponta que um Partido Republicano que se subordinou, por ora, a Trump, retomará o controle do Congresso nas eleições intermediárias de novembro, com sua liderança prometendo revanche contra aqueles que se atreveram a investigar os delitos antidemocráticos do ex-presidente e seus cúmplices.  

Assista na TV Diálogos do Sul

Será que no farol mundial da democracia, já está sendo fundida essa palavra tão sagrada?

Vale recordar que há um ano e meio uma maioria dos eleitores expulsaram o bufão neofacista e apoiaram o candidato que prometeu “o governo mais progressista desde Franklin Delano Roosevelt” e declarou que sua presidência marcava o fim de quatro décadas de políticas neoliberais (sem usar essa palavra).  

E ainda mais, vale sublinhar que, nas enquetes, maiorias apoiam toda uma gama de políticas progressistas: desde direito ao aborto das mulheres a maior controle de armas de fogo, um sistema de acesso básico à saúde e educação, que os ricos paguem sua parte em impostos para reduzir a desigualdade, uma reforma migratória para legalizar a maioria dos indocumentados, entre outras políticas.

Biden e a liderança democrata prometeram promovê-las e, em parte por isso, ganharam a Casa Branca e o controle de ambas as câmaras do Congresso, mas pouco depois começou a imperar o jogo de Washington onde a vontade da maioria não é implementada. 

Fica no ar a dúvida se o povo defenderá ou não o que se chama “democracia”, uma decisão que pode afetar a todos no planeta

Wikimedia Commons
Democracia para que?

Desencanto é palpável

Como resultado, o desencanto, outra vez mais, é palpável por toda parte, e em particular, como foi com Obama antes, entre os jovens. 

Esse tipo de desencanto foi em grande medida o que motivou o triunfo eleitoral de Trump, sobretudo entre setores de trabalhadores e granjeiros que continuavam perdendo seus empregos, terras e oportunidades para sua família e filhos. Algumas manifestações de uma crescente desesperança social são as epidemias de opiáceos, violência com armas de fogo e suicídios, entre outros fatores que causam mortes prematuras e que estão elevando a taxa de mortalidade de maneira inusitada e diferente da de outros países ricos. 

Campanha dos pobres: Marchas antissistema e por justiça social se multiplicam nos EUA

A Campanha dos Pobres insiste que há um problema moral nos Estados Unidos gerado por demasiada injustiça social, racismo, guerras e a devastação ecológica e que, agora, o “país tem que ser resgatado de si mesmo” com uma “revolução de valores”, uma receita recomendada pelo Reverendo Martin Luther King em 1968.

Ante um óbvio desencanto com o que oficialmente se chama “democracia”, pode-se dizer que há dois caminhos visíveis nos Estados Unidos nesta conjuntura: uma proposta neofascista baseada em uma agenda supremacista branca anti-imigrante, ou uma proposta progressista que busca cumprir com as necessidades e demandas das maiorias e a favor da justiça social e econômica.

Observar o deterioro da “democracia” do país mais poderoso do mundo tem sido a tarefa jornalística desde a eleição de Trump em 2016, embora esse processo tenha se iniciado muito antes e em grande parte – como em tantos países – está relacionada diretamente com a era neoliberal das últimas 4 décadas.

Que houve um intento de golpe de estado e que há um projeto neofascista explícito apoiado por milhões e por um dos partidos nacionais, algo impensável há só uns poucos anos, continua definindo a conjuntura atual dos Estados Unidos. Com isso fica no ar a pergunta sobre se o povo defenderá ou não o que se chama “democracia”.  

As consequências dessa decisão, por se tratar do superpoder, afetarão a quase todos no planeta, e de maneira imediata, seus vizinhos.

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York.
Tradução Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na TV Diálogos do Sul

 


Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:

  • PIX CNPJ: 58.726.829/0001-56 

  • Cartão de crédito no Catarse: acesse aqui
  • Boletoacesse aqui
  • Assinatura pelo Paypalacesse aqui
  • Transferência bancária
    Nova Sociedade
    Banco Itaú
    Agência – 0713
    Conta Corrente – 24192-5
    CNPJ: 58726829/0001-56

       Por favor, enviar o comprovante para o e-mail: assinaturas@websul.org.br 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

LEIA tAMBÉM

milei-diaz-ayuso
Presidenta de Madri entrega a Milei medalha também dada a Zelensky e Guaidó
eua-louisiana-2
"Querem impor uma teocracia", alerta deputado dos EUA sobre "10 mandamentos" em Louisiana
Joe Biden
Nova medida de Biden para regularizar indocumentados é positiva, mas insuficiente, diz especialista
Vladimir Herzog
Amyra El Khalili: história de Vladimir Herzog se repete há 76 anos na Palestina Ocupada