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Destruição ambiental e agronegócio: biólogo evolutivo revela origens do novo coronavírus

Livro de Rob Wallace aponta que COVID-19, assim como diversas outras epidemias tem origem na globalização das práticas predatórias no campo
Allan Rodrigo de Campos Silva
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Atualizada em 02/06/2020, ás 10h55

De acordo com Rob Wallace, autor do livro “Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência” (Editora Elefante & Igrá Kniga, em pré-venda), a atual pandemia de COVID-19, assim como diversas outras epidemias dos últimos anos, pode ter a sua origem na globalização das práticas predatórias do agronegócio, mais especificamente na pecuária, hoje caracterizada por um verdadeiro sistema de produção de patógenos integrado à criação de porcos e galinhas.

Wallace, biólogo evolutivo e pesquisador de Geografia na Universidade estadunidense de Minnesota, se dedica ao estudo das doenças infecciosas já há duas décadas. Em meio ao surto de Ebola na África em 2013, Wallace já alertava para o avanço das plantações de palmeiras para a produção de óleo, um ingrediente essencial para a fabricação de alimentos industrializados, em direção às áreas florestais da Guiné e da Libéria. 

O desmatamento teria atraído populações de morcegos, repositórios naturais de diversos vírus, como o Ebola, em direção às plantações de palmeiras, aumentado assim a interface entre os trabalhadores rurais e os potenciais vetores de contágio da doença. A produção de novas periferias urbanas em interface com o ambiente rural teria garantido o provimento constante de um grupo de humanos suscetíveis. A partir destas condições, uma forte cadeia de transmissão ajudou a estabelecer a epidemia regional. 

Utilizando o exemplo da Ebola da África como explicação arquetípica, o autor nos ajuda a compreender as dinâmicas por trás de outras epidemias, como o surto de gripe aviária (H5N1) em 2003, a gripe suína (H1N1) em 2009 e mesmo a atual pandemia de COVID-19. Todas estas epidemias têm em comum o fato de surgirem nas fronteiras da expansão do agronegócio, que destrói sistemas florestais inteiros e aumenta a interface com vetores de transmissão, facilitando assim o chamado transbordamento (spillover) sobre populações humanas.

De acordo com Wallace, a pecuária intensiva cumpre hoje um papel crítico para a proliferação de diversos patógenos, como vírus e bactérias. Nos celeiros de criação de aves e porcos, esse micro-organismos estariam encontrando as melhores condições possíveis para o aprimoramento da sua patogenicidade — a capacidade infectar um hospedeiro — e para o aumento da sua virulência — a sua capacidade de causar dano ao hospedeiro.

Um dos fatores mais problemáticos da pecuária industrial hoje está ligado ao sistema de monocultivo genético, que encerra a possibilidade de variação de genes entre os animais, capazes de acumular uma resistência imunológica a vírus e bactérias. Hoje,  cerca de cinco empresas de melhoramento genético controlam aproximadamente 80% das aves produzidas em todo o mundo, fornecendo frangos de corte, galinhas poedeiras, perus e outras aves, a partir de um banco genético unificado.

A baixa variabilidade genética entre os animais produzidos sob confinamento constitui um risco e uma aposta perigosa para a própria agroindústria. Os vírus, que estão em constante mutação, se mostram capazes de desvendar a biologia de aves e porcos e assim abrir caminho para uma infecção. 

Um novo rearranjo de vírus que tenha sido capaz de abrir caminho da infecção em animais produzidos sob o sistema de monocultivo genético, é capaz de contaminar celeiros, fazendas e regiões inteiras. O sistema é tão crítico que, em muitos casos, são realizados abates sacrificiais em massa para evitar que um surto incipiente se espalhe por uma região ou até pelo planeta inteiro.

Contudo, os vírus não ficam satisfeitos infectando unicamente os animais da pecuária. Em meio às suas mutações constantes, um organismo que até determinado momento circulava unicamente entre aves ou porcos pode encontrar um caminho de infecção em seres humanos. Os primeiros alvos desse novo ciclo de contágio, semelhante ao transbordamento de vírus de morcegos para humanos, via de regra, são os trabalhadores rurais que mantêm contato mais próximo com aves e porcos.

A destruição das áreas úmidas em todo o planeta oferece um efeito adicional sobre o circuito global de produção de novas doenças. As zonas úmidas, tais como pântanos, turfas e charcos, são naturalmente utilizadas como áreas de pousio e invernada por bandos de aves migratórias, que também são reservatórios naturais de diversas cepas de vírus. Contudo, dada a alta variabilidade genética dos bandos de aves selvagens, elas normalmente hospedam apenas vírus de baixa patogenicidade. 

Na medida em que a produção agrícola e pecuária avança sobre as zonas úmidas, drenadas para a formação de campos de cultivo, esses bandos de aves perdem as suas áreas de pousio e passam a forragear em meio às sobras das fazendas de grãos, cana-de-açúcar entre outras. Essa situação aumenta a interface entre aves migratórias selvagens e aves de criação. Quando os vírus das aves selvagens infectam um celeiro de aves de criação, encontram o caminho livre para ampliar a sua virulência e patogenicidade.

Livro de Rob Wallace aponta que COVID-19, assim como diversas outras epidemias tem origem na globalização das práticas predatórias no campo

Pixabay
Pecuária hoje é caracterizada por um verdadeiro sistema de produção de patógenos integrado à criação de porcos e galinhas

O pantanal brasileiro, uma das maiores planícies alagáveis do planeta, abrigando mais de 600 espécies de aves, sofre com a pressão da destruição ambiental do agronegócio, com seus campos drenados para criação de gado e produção soja, ao mesmo tempo em que se proliferam os celeiros da avicultura industrial por todo o país. Essa dinâmica, em conjunto com as queimadas da Amazônia, o aumento da grilagem e da pressão sobre reservas indígenas alcançaram um patamar catastrófico sob o governo Bolsonaro.

Se acompanhamos o argumento de Rob Wallace, acabamos descobrindo como cenário brasileiro é crítico, uma vez que todas as condições econômicas e ambientais que deram origem a surtos de doenças na China ou nos EUA, podem ser encontradas de forma abundante no território brasileiro. 

A transmissão do Zika vírus no Brasil, entre 2015 e 2016, e que produziu uma taxa anômala de bebês com microcefalia em diversos estados, apesar de ter se apresentado como uma epidemia eminentemente urbana, tem as suas origens no desmatamento e no aumento da interface com os vetores rurais, que fez o seu curso através das periferias urbanas.

O livro oferece ainda dois artigos inéditos que investigam as origens do Sars-Cov-2, o vírus por trás da pandemia de 2020, nos meandros dos circuitos regionais de criação de animais no sudeste da China, em interface com a pressão e a degradação ambiental. 

Desde os anos 1990, a neoliberalização da economia do país transformou as paisagens agroecológicas da China de maneira radical. Tais transformações fazem dos arranjos produtivos globalizados, presentes em todo o sudeste chinês, um epicentro para a produção de novos patógenos. Um percurso que o Brasil imita, a todo custo.

Enfim, a partir de um conjunto vasto de pesquisas, Wallace nos apresenta uma nova perspectiva para o entendimento sobre como as novas epidemias surgem a partir de suas geografias relacionais, conectando biomas e sistemas de produção agrícola e pecuário em todo o planeta.

Enquanto somos confrontados pela inépcia do governo brasileiro em oferecer uma resposta razoável para o combate à pandemia de COVID-19, a leitura deste livro pode nos oferecer uma perspectiva nova para encaramos com mais firmeza a epidemiologia do agronegócio e da destruição ambiental para a produção de novos surtos de doenças, no coração da sua catastrófica ecologia.

 

Serviço:

Livro: Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência

Autor: Rob Wallace

Tradução: Allan Rodrigo de Campos Silva

Preço: R$ 49,90 (com desconto na pré-venda)

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Allan Rodrigo de Campos Silva

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