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Detalhes de golpe contra Allende planejado por Nixon, Kissinger e magnata do Chile vêm à tona

Documentos revelados nesta semana incluem uma transcrição de chamada telefônica que comprova a participação pessoal de Nixon no complô
Jim Cason
La Jornada
Washington

Tradução:

O presidente Richard Nixon estava orquestrando pessoalmente o complô encabeçada pela CIA, um magnata da mídia chilena e militares golpistas chilenos para anular a vontade do povo nas eleições de 1970 e evitar a chegada ao poder de Salvador Allende, segundo novos documentos oficiais estadunidenses recém desclassificados e um novo livro lançado nesta terça-feira (8) pelo National Security Archive, centro de investigação independentes em Washington.

Os documentos revelam pela primeira vez que 11 dias depois do triunfo eleitoral presidencial de Allende, Nixon teve um encontro no Salão Oval com o magnata chileno Agustín Edwards, dono da cadeia de jornais El Mercúrio. Edwards estava solicitando apoio para um plano a fim de evitar que o Congresso confirmasse o triunfo de Allende e com isso evitar que chegasse ao poder. 

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Estes documentos, emitidos como parte da publicação da nova edição do livro Pinochet Desclassificado: Os arquivos secretos dos Estados Unidos sobre o Chile, também confirmam – segundo o autor Peter Kornbluh, também diretor do projeto sobre o Chile do Archive – que antes de sua reunião com Nixon, Edwards se encontrou com o então chefe da CIA, Richard Helms, para discutir quais oficiais militares chilenos apoiariam um golpe de Estado e que tipo de assistência financeira e garantias necessitariam de Washington para prosseguir com o complô. 

Pouco depois de sua reunião com Edwards em 15 de setembro de 1970, Nixon convocou o seu assessor de segurança nacional Henry Kissinger, o procurador-geral John Mitchell e Helms e ordenou ao chefe da CIA que elaborasse um plano nas seguintes 48 horas para instigar um golpe para evitar que Allende fosse presidente.

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Junto com Edwards, Helms elaborou um plano que incluía remover o general René Schneider, considerado como um constitucionalista que não apoiaria um golpe, a tomada do poder por militares e anular o processo de ratificação da eleição de Allende pelo Congresso. 

Documentos revelados nesta semana incluem uma transcrição de chamada telefônica que comprova a participação pessoal de Nixon no complô

Wikipedia
Nixon participou pessoalmente no complô golpista

Assassinato do general Schneider 

Mas o esforço para remover o general Schneider acabou com seu assassinato, e enquanto agonizava com feridas mortais, Nixon falou por telefone com Kissinger para perguntar “o que está ocorrendo no Chile?”

Os documentos difundidos nesta semana incluem uma transcrição dessa chamada que comprova a participação pessoal diária de Nixon no complô para evitar a chegada de Allende ao poder. 

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No telefonema, Kissinger diz a Nixon que os militares chilenos, segundo o plano, deveriam ter tomado o poder, mas que isso não havia ocorrido. “São uma agrupação bastante incompetente”, afirma Kissinger em referência aos militares chilenos. Nixon responde que estão “fora de prática”. Kissinger comenta que provavelmente já era demasiado tarde para frear a sessão do Congresso e evitar a ratificação do triunfo de Allende.  

Ao se aproximar o 50º aniversário do golpe militar no Chile em 11 de setembro de 1973, Kornbluh apelou ao governo estadunidense que divulgue todos os documentos oficiais que ainda não foram desclassificados sobre esse evento.

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“O aniversário do golpe no Chile oferece a melhor oportunidade para que aprendam suas lições sobre a santidade dos processos democráticos contra os perigos do autoritarismo – lições que permanecem imediatamente relevantes não só para os chilenos, mas sim para a comunidade global, incluindo os Estados Unidos”. 

Os documentos podem ser consultados aqui.

Jim Cason e David Brooks | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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