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Diplomação de Lula e o dilema: Ser ou não ser colônia?

Recuperar o poder de decisão, principalmente na economia, e resolver tanto a questão militar como a questão religiosa, o maior desafio para Lula e seu governo de coalizão
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

A diplomação de Lula como presidente da República, certamente afasta o perigo de um terceiro turno a que o governo dos militares pretendia impor à Nação, mas não arrefece os ânimos da turba de agitadores por uma simples razão: a campanha continua.

Depois da campanha que os levou ao poder em 2018, os militares passaram os últimos quatro anos realizando mais atos de campanha que atos de governo.A bem da verdade, atos de guerra psicológica, tais como descritos nos manuais do estado maior das forças armadas. Veja matéria publicada por mim em 18/10/22.  

Favorecidos, militares se alastram pelo governo enquanto Brasil afunda: “Estão contentes”

Planejaram por mais de dez anos a captura do poder que alcançaram através de uma operação de inteligência, e tinham como objetivo explícito, permanecer pelo menos trinta anos no poder. Por isso a frustração, o inconformismo explícito nas hostes militares. Tinham certeza de que o plano daria certo. Tinham dinheiro e “máquina” para dar certo.

Frustração também dos donos do dinheiro, surpreendidos com a incompetência como gestores e ganância com que abiscoitaram o dinheiro público, além de estar a levar o país à situação de caos que a ninguém favorece.

O que tivemos em outubro de 2022 não foi uma simples eleição, confronto entre forças políticas em disputa pelo poder. O que realmente ocorreu em outubro foi mais um episódio de uma extensa guerra que vem sendo travada contra nosso povo. Guerra Cultural, guerra hibrida, guerra econômica, guerra psicológica, ciber-guerra, ações por todos os meios comandadas por Washington com o fim de estender e manter a hegemonia do imperialismo sobre as nações de Nossa América.

Para se ter um marco, poder-se-ia dizer que essa guerra vem sendo travada desde 1980, ano do Consenso de Washington, a partir do qual passa a vigorar uma verdadeira ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro, tendo a cartilha do Consenso de Washington como modelo de gestão econômica, tida como oficial do FMI e Banco Mundial.

Cannabrava | Os efeitos da Guerra Cultural: um Brasil paralelo vive na midiosfera

Collor de Mello e Henrique Cardoso realizaram a façanha de implantar o modelo. Lula e Dilma, na sequência fizeram a melhor gestão do neoliberalismo porque incorporou o pobre no orçamento. 

Quando Lula junto com empresários pretendeu usar as riquezas minerais e a Petrobras como indutoras do desenvolvimento, vieram os assassinos econômicos e acabaram com a festa. 

A utilização do sistema judiciário (lawfare) foi priorizado posto que os militares já estavam desde algum tempo cooptados. Juízes e procuradores atuando mancomunadamente, orientados pelo Departamento de Justiça e a CIA dos Estados Unidos para manter Lula fora do processo eleitoral, destruir as maiores empresas de engenharia e construção, e alienação do pré-sal para as transnacionais.

Os anos 1980 são emblemáticos porque marcam também o fim do período ditatorial-entreguista iniciado em 1964 e a volta dos civis ao governo. Os militares saíram do governo, mas não saíram de cena. Alicerçados no fato de terem sido eles mesmos os protagonistas da transição, trataram de se organizar para o retorno ao poder. 

No Clube Militar, os oficiais de pijama (assim se qualificam os retirados que passam à reserva) passaram a atuar como um partido político e a fazer pronunciamentos incitando o golpismo. Anos seguidos fazendo isso impunemente. Impunemente diziam que se Lula ganhasse haveria golpe, haveria guerra civil infundindo medo na população. 

Pra que servem os acordos Dilma / Obama?

Paralelamente, nas Forças Armadas se estreitam os vínculos com os Estados Unidos, uma promiscuidade “legalizada” com o Acordo de Cooperação Militar Dilma/Obama, que culmina com a entrega da Base Espacial de Alcantara e, verdadeiro estupro à soberania nacional, com a integração de oficias do Estado Maior ao Comando Sul dos Estados Unidos.

Em outro cenário, cerca de uma dezena de oficiais que participaram de missões de paz da ONU, sob o comando dos Estados Unidos, com destaque para a Minustah, passam a atuar como grupo organizado e vão comandar a operação de inteligência para a captura do poder. Em 2011 o deputado e capitão do Exército Jair Bolsonaro visitava academias apresentado como candidato que salvaria a pátria e aclamado como mito.

Recuperar o poder de decisão, principalmente na economia, e resolver tanto a questão militar como a questão religiosa, o maior desafio para Lula e seu governo de coalizão

Agência Brasil | Marcelo Camargo
O futuro presidente Luís Inácio Lula da Silva

Capturar o poder para que?

Ficou claro que queriam o poder pelo poder.  Primeiro para locupletarem-se, recebendo duplo salário e prebendas fruto da corrupção, segundo para consumar a desmontagem do Estado, o saqueio e a submissão ao imperialismo. Transformaram o país numa colônia de quinta categoria, protegida por tropas pretorianas, nacionais.

Outro importante componente ativo nessa guerra cultural são as igrejas pentecostais e neopentecostais com origem nos Estados Unidos, que aqui chegaram com estratégia de captura do poder do Estado. De um lado acolhendo e empoderando populações marginalizadas e abandonadas pelo Estado; de outro impondo uma visão de mundo de duas faces, céu e inferno, bem e mal que precisa ser combatido.

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Com estratégia de transformar o país nas próximas décadas numa teocracia evangélica pentecostal, estão infiltrados em todas as esferas de poder, participam em quase todos os partidos e têm seu próprio partido político. No Congresso a Bancada da Bíblia, na legislação que se encerra tinha 112 deputados terá 132 na nova legislatura e os senadores aumentaram de 11 para 14.

Contam com muito dinheiro e poderosos meios de comunicação. Descrevo essa estratégia pormenorizadamente em meu livro A Nova Roma – Como os Estados Unidos utilizando a religião construíram um império com sede em Washington. Editora Appris, 2022.

Projetos de poder

Ambos projetos de poder -dos militares e das denominações religiosas- se juntaram na operação de inteligência que levou à ocupação do Planalto pelos militares em 2018. Nove mil militares ocupando postos da administração pública, com duplo salário, uma verdadeira ocupação e evidente desvio de função, contrariando Constituição e os códigos militares. 

O general Hamilton Mourão, era vice presidente agora é senador eleito pelo Rio Grande do Sul, em artigo publicado no Estado de SP (14/12/22), dá o tom para a orquestra tocar a marcha da oposição e seguir o caminho da desestabilização. “perder efervesceu o sentimento de injustiça indignação”… os juízes do STF e do TSE extrapolam atribuições constitucionais ao mandar prender ou admoestar os que se manifestam contrários. 

Os manifestantes estão fora da Lei, eles sabem disso. Lula, reiterado por seu ministro da Justiça, o jurista e ex governador Flávio Dino, agora senador pelo Maranhão, diz que a Lei será aplicada, doa a quem doer. Os que cometeram crimes serão julgados e punidos. Nesse Brasil do impossível cabe perguntar: 

Quem vai julgar? Quem vai punir?

Soberania jurídica vilependiada

A soberania jurídica foi vilipendiada pelo império que utilizou o sistema judicial para alcançar seus objetivos de captura do poder.  Eis aí outra das mais graves questões a resolver pela sociedade civil que agora retorna ao poder: impor Segurança Jurídica. Sem segurança jurídica não se governa, não há desenvolvimento nem democracia possível. 

Quem são os que ocupam as frentes dos quarteis? Alguns não sabem o que fazem, outros, são os familiares desses nove mil usurpadores que não querem perder o emprego, por isso pedem intervenção militar.

Esses são alguns dos principais e mais difíceis problemas da atual transição de um governo militar com base social e religiosa, para a sociedade civil cujo Estado deve ser constitucionalmente laico. De novo uma transição conduzida pelos militares.

Ser ou não ser colônia?

Agora, a questão crucial que se coloca é se vamos continuar colônia ou vamos pelo caminho da Libertação Nacional. 

Recuperar o poder de decisão em todos os aspectos e em todas as áreas, eis a questão. Recuperar o poder de decisão, principalmente na economia, e resolver tanto a questão militar como a questão religiosa, o maior desafio para Lula e seu governo de coalisão. 

Muito heterogênea a frente ampla que garantiu a vitória. É poderosa, contudo, não consegue se impor ao poder ditatorial do presidente da Câmara, o alagoano Artur Lira e seus pares que mandam no Orçamento Secreto, mandam no Centrão. 

Como será a relação com a próxima legislatura, de composição pior que a atual? 

A correlação de forças desigual, só poderá ser compensada com pressão social. Por isso é fundamental à todas organizações democráticas e principalmente à esquerda, retornar à linha de massas, levar a verdade ao povo em todas as partes e em todos os momentos e, encarar que a luta é de libertação nacional. Sem encarar o inimigo principal se estará dando murros em ponta de faca.

Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor da Diálogos do Sul e escritor.
É autor de uma vintena de livros em vários idiomas, destacamos as seguintes produções:
• A Nova Roma – Como os Estados Unidos se transformam numa Washington Imperial através da exploração da fé religiosa – Appris Editora.
Resistência e Anistia – A História contada por seus protagonistas – Alameda Editorial
• Governabilidade Impossível – Reflexões sobre a partidocracia brasileira – Alameda Editora
No Olho do Furacão, América Latina nos anos 1960-70 – Cortez Editora

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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