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Eleições 2022 e Iluminismo: para combater autoritarismo, é preciso jogar luz às trevas

Iluministas acreditavam que o pensamento racional deveria substituir as crenças, as mentiras e o misticismo, que bloqueavam a evolução do homem
Carlos Russo Jr
Diálogos do Sul
Florianópolis (SC)

Tradução:

Nos dias de hoje, com maior intensidade nestes que precedem à eleição para presidente da república, as mentiras, as deturpações da história, o surgimento de crendices manipuladoras e obscurantistas são agressivas, autoritárias e sua divulgação tão absurda e abjeta!

E ao lado do obscurantismo caminha a burrice crente, que deseja se elevar ao nível do intelecto com frases feitas e acabadas, compostas por “verdades inquestionáveis” extraídas sempre das redes sociais. A infantilização de nossa população caminha a passos largos!

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Não por acaso a razão tem sido substituída por uma intuição tipo emocional. E por isto, a futilidade, a incultura, a ausência de racionalidade e a boçalidade se arvoraram em mães da intolerância e da desconstrução dos valores civilizacionais, que a humanidade demorou séculos para consolidar!

Por tudo isso é tempo de relembrarmos um dos movimentos que alteraram a história de toda a civilização ocidental e com o qual poderemos voltar a nos “iluminar” e combater o avanço das trevas autoritárias! E nos armarmos para combater a infantilidade agressiva de milhões de seres humanos.

Iluministas acreditavam que o pensamento racional deveria substituir as crenças, as mentiras e o misticismo, que bloqueavam a evolução do homem

Pintura de Oswaldo Guayasamín | Reprodução
As causas dos destinos humanos ou são naturais ou nela imperam a maldade, os instintos e, sobretudo, a estupidez




O Iluminismo e o Século das Luzes

O Iluminismo, que surgiu na França em fins do século XVII, atingiu seu auge no século seguinte, naquele que foi denominado de “O Século das Luzes”.

E são exatamente Luzes que faltam na sociedade líquida e distópica dos dias que vivemos!

Os pensadores daquele então tinham o propósito de iluminar “as trevas” na qual se encontrava a sociedade europeia do século XVII. Tal qual nos dias de hoje, o domínio da razão obtusa, da mentira e da religiosidade dogmática e intolerante dominara os homens.

É ilusão pensar que só engajamento nas redes sociais pode mudar sistemas políticos

Os iluministas acreditavam que o pensamento racional deveria substituir as crenças, as mentiras e o misticismo, que bloqueavam a evolução do homem.

O homem, sim, deveria ser o centro do universo! Afinal, “cogito ergo sum”, dizia Descartes.

Que a busca de respostas para questões que, até então, eram justificadas somente pela fé religiosa cega, manipulada e manipuladora, deveria ser guiada pela razão.

E o Iluminismo foi uma das principais fontes da Revolução Francesa, assim como dos movimentos sociais em outros países e continentes, como a independência das colônias inglesas na América do Norte e a própria Inconfidência Mineira no Brasil.

“A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, redigida na França no ano de 1789, foi um dos mais importantes documentos humanistas e democráticos, elaborado pela absoluta inspiração dos ideais do Iluminismo, inspiradora até hoje de toda política voltada sos direitos humanos.


Bandeiras do Iluminismo: o liberalismo, a liberdade de pensamento, igualdade de oportunidades, independência dos poderes

John Locke, o filósofo inglês conhecido como o “pai do liberalismo”; o genebrino Jean-Jacques Rousseau, com o seu ideal de um estado democrático que garantisse igualdade para todos; Montesquieu, defensor do poder político tripartite e independente (legislativo, executivo e judiciário); Diderot e d’Alembert, “Os enciclopedistas”; o racionalismo de Descartes. E, afinal, Voltaire, o mais influente de todos eles, o grande defensor da liberdade de pensamento.

François-Marie Arouet, Voltaire, pendão do século XVIII.

Relembremos um pouco Voltaire. Ele inicia colocando o comércio numa posição mais elevada até mesmo que a própria religiosidade dogmática! Chega a ridicularizar a intransigência religiosa tanto do catolicismo quanto do protestantismo de seu tempo.

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“Entrai na bolsa de valores de Londres, lugar mais respeitável que muitas cortes. Ali se vêm reunidos deputados de todos os países para a utilidade dos homens. Lá o judeu, o cristão e o maometano tratam uns aos outros como se fossem da mesma religião; somente dão o nome de infiéis aos que vão à bancarrota. ”

“Afinal, entre os especuladores, não há distinção de raças e credos!”. E prossegue: “A vida comercial internacional livre, ditada pelo egoísmo internacional, é útil para a sociedade humana, dado que reúne os homens para uma atividade comum e pacífica; as religiões por sua vez são absurdas, e o absurdo fica comprovado… tanto quando cada uma delas afirma ser a verdadeira, quanto pela falta de sentido de seus dogmas e cerimônias… As coisas só ficam feias quando elas se perseguem e combatem entre si. ”


O Iluminismo e a Técnica do Holofote: a verdade que exige toda a verdade!

Voltaire utiliza pela primeira vez uma técnica genial, denominada de a Técnica do Holofote, praticada desde o Iluminismo até os dias de hoje. E não apenas na literatura!

A técnica consiste em iluminar intensivamente uma pequena parte de um grande e complexo contexto, deixando na escuridão todo o restante. De tal forma a se desmascarar aqueles que utilizam apenas dados parciais, que não podem ser negados, não obstante todo o conjunto da mensagem seja falsificado. “A verdade exige toda a verdade, assim como a correta ligação entre as partes”!

Isto tudo para comprovar as origens dos diferentes tipos de obscurantismos e de manipulação das mentiras, quando se tornam “verdades”.

Hoje sabemos que o público sempre volta a cair nestes truques, sobretudo em tempos de inquietação social. Mesmo que o truque e a manipulação sejam fáceis de serem descobertos, falta à massa, ao vulgo, o desejo sério de fazê-lo ou aceitá-lo. E este constitui um dos truques utilizados a posteriori por todos os candidatos a manipuladores no mundo!

 “Viva à tolerância”! Exclama Voltaire.


O pontificado da liberdade é o livre pensar!

Em Voltaire a velocidade, a ligeireza do expressar-se está a serviço da simplificação. O problema é sempre reduzido a uma antítese e a narrativa é divertida e rápida, onde se coloca sempre o preto no branco.

Temos de sua autoria um quadrinho rococó em que um cavaleiro vê a jovem Morton caminhando graciosa pela estrada, levando uma cesta no colo e indo ao mercado vender seus produtos. “Sir Robert movido pela cobiça desce num salto e a aborda com franqueza: Tenho vinte escudos em minha valise, é tudo o que tenho; tomai também o meu coração, tudo vos pertence…”

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“É para mim uma honra, diz a jovem Marton.” Voltaire expressa num curtíssimo tempo os motivos essenciais da ação humana, assim como os entende essencialmente materialistas, mas sem chegar a ser grosseiro. Não existe nada de espiritual e nem de elevado neste quadro gracioso. Tudo são arabescos que encobrem a relação sexual acertada e a ser paga.

Mas existe o frescor herdado do Classicismo!


“Cândido”, de Voltaire

O romance “Cândido” contém uma polêmica contra o otimismo metafísico do pensamento conformista do filósofo Leibniz, acerca do vivemos “no melhor dos mundos possível”. Mentira! Voltaire diz: o mundo precisa ser transformado!

A jovem Cunegundes, principal personagem feminina, relata o ataque dos búlgaros ao castelo de seus pais. Pai, mãe e irmão trucidados, ela estuprada reage, ganha um corte de faca no seio e vai mostra-lo sensualmente a Cândido. “Tudo o que ocorria no castelo de mau pai era usual”.

Os horrendos acontecimentos parecem cômicos, dada a velocidade com que são narrados, “frutos da vontade divina e da inevitabilidade para os ofensores”, em contradição com o horror dos atingidos. As desgraças correm uma atrás das outras e sempre são interpretadas como necessárias, ordenadas e razoáveis, dignas do melhor dos mundos possíveis, o que evidentemente é um disparate!

Voltaire absolutamente discorda de Leibniz no pensamento da harmonia mundial metafísica. Não vale nada!

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O mundo não tem nada de harmônico! Voltaire falseia propositalmente a realidade na medida em que simplifica a causa dos inumeráveis acontecimentos e desgraças que se abatem sobre o principal personagem masculino, Cândido.

As causas dos destinos humanos ou são naturais ou nela imperam a maldade, os instintos e, sobretudo, a estupidez. No entanto, Voltaire absolutamente não considera que possa existir ligação entre o caráter e o destino de um indivíduo, omitindo sempre tudo o que se refira à moral e à história em questão.

Um exemplo é a explicação de Pangloss, outra personagem, para a sífilis que contraíra. Começa com a deliciosa criada Paquette, que por sua vez a contraíra de um sábio franciscano, que o recebera de uma velha condessa, que a herdara de um capitão, que o devia a uma marquesa contaminada por um pajem, herança de um jesuíta em ligação direta com um dos seus companheiros e que chega até à sífilis de Cristóvão Colombo.

Tal representação que só considera as causas naturais, e que no plano moral só salienta a sátira com relação aos padres (incluindo a homossexualidade), suprime na ligeireza todos os dados históricos e individuais que levaram ao surgimento de cada relação amorosa, “isentando” de responsabilidade os seres humanos que apenas seguem os instintos sexuais.


A libertação da sociedade humana

Para o Iluminismo, a sociedade humana deveria ser liberada de tudo o que se oponha ao progresso racional, inclusive condições econômico-sociais e históricas.

Voltaire ao completar os 67 anos, fraco e envelhecido, escreve um bilhete de agradecimento à Madame Nacker, que a ele enviara o famoso escultor Pigalle, com o objetivo de esculpir sua face no bronze, aquela face macilenta que todos nós conhecemos: “Quando minha gente viu o pessoal chegar disse: vão disseca-lo, será divertido! Todo o tipo de espetáculo diverte os homens, seja o de marionetes, de estúpidos políticos e negocistas, e até mesmo os enterros. Minha estátua fará sorrir alguns filósofos, e fará franzir o cenho de qualquer hipócrita sem vergonha: vaidade das vaidades! Mas nem tudo são vaidades, meu reconhecimento a alguns amigos e à senhora não é vaidade”. 1770.

Aqui a ousadia iluminista na ironia diante da própria fama, a alusão polêmica aos inimigos e o termo vaidade no ancião ainda amável e vivaz, no “Século das Luzes” que ele ajudou a formatar com tanto amor e dedicação!

“Século das Luzes” que sempre nos assinalará rumos contra o avanço do obscurantismo, da intransigência, da religiosidade obtusa e monetarista, e, principalmente das mentiras que destroem aquilo que resta de nossa civilidade construída nos últimos três séculos.

Carlos Russo Junior | Colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carlos Russo Jr Carlos Russo Jr., coordenador e editor do Espaço Literário Marcel Proust, é ensaísta e escritor. Pertence à geração de 1968, quando cursou pela primeira vez a Universidade de São Paulo. Mestre em Humanidades, com Monografia sobre “Helenismo e Religiosidade Grega”, foi discípulo de Jean-Pierre Vernant.

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