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Em meio a ataque em São Petersburgo, Rússia declara: "Regime de Kiev apoia o terrorismo"

Especulações sobre o ataque emergem de todo tipo e não seria a primeira vez que um crime como esse termine sem esclarecimentos
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

As autoridades russas detiveram na primeira hora desta segunda-feira (3) Daria Trepova, mulher de 26 anos de idade, nascida em San Petersburgo, que é suspeita de haver entregado ao blogueiro Maksim Fomin, conhecido por seu pseudônimo Vladlen Tatarsky, a estatueta que continha uma bomba que o matou em uma cafeteria da antiga capital do império russo na tarde do domingo. 

Em um fragmento do interrogatório de Trepova, difundido pelo Comitê de Instrução da Rússia através dos canais da televisão pública, perguntada se era consciente de porque estava detida e de que a acusavam, respondeu afirmativamente: Por estar na cena do assassinato e por entregar uma figurinha que explodiu”, mas não quis precisar quem lhe deu a estatueta. “Posso responder isso um pouco mais tarde?”, perguntou ao seu interrogador, instantes antes que se cortasse a gravação do vídeo. 

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Por Trepova – identificada pelos meios de comunicação que estão na órbita do Kremlin como “ativista contra a guerra na Ucrânia, detida no ano passado em uma manifestação de protesto”, em 24 de fevereiro, no mesmo dia da invasão e condenada a dez dias de prisão administrativa – respondeu o Comitê Antiterrorista Nacional da Rússia, instância que coordena as dependências de segurança do Estado no combate ao terrorismo, mediante este comunicado categórico:  

“Se estabeleceu que o atentado terrorista, cometido em 2 de abril em San Petersburgo, contra o reconhecido jornalista Vladlen Tatarsky (Maksim Fomin, seu nome real) foi planejado pelos serviços de inteligência da Ucrânia com a participação de agentes de (o líder opositor encarcerado Aleksei) Navalny, do qual a detida Trepova é uma seguidora ativa”. 

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E no mesmo teor, o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, afirmou que a Rússia não enfrenta “uma onda de terrorismo; enfrenta o regime de Kiev, que apoia o terrorismo”. 

Agregou: “É um regime que está atrás do assassinato de Daria Duguina, é um regime que muito provavelmente esteja atrás da morte de Fomin, do atentado terrorista em San Petersburgo. É um regime que está por trás da morte de pessoas ao longo de muitos anos, desde 2014. Precisamente por isso se leva a cabo a operação militar especial”.

Desde o exílio, o diretor do FBK, Ivan Zhdanov, desmentiu qualquer vinculação da organização criada por Navalny com o atentado que matou Fomin: “Estamos perante uma situação demasiadamente absurda. Refutar o fato de que o fizemos é uma idiotice. Naturalmente, não nos dedicamos a isto. Não refutar: e se alguém acredita que realmente o fizemos?”.

Segundo Zhdanov, “faz tempo que querem colar em nós a etiqueta de terroristas e logo haverá um novo julgamento contra Navalny. Obviamente querem dar a ele a condenação máxima e o terrorismo é muito conveniente para isso”. 

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O colaborador do líder opositor está convencido de que “tudo indica que na realidade foram agentes do FSB (sigla em russo do Serviço Federal de Segurança) ao quais simplesmente eliminaram a este propagandista (Fomin) para pôr a culpa em nós: necessitam não só um inimigo absoluto externo, a Ucrânia, mas também um interno, a equipe de Navalny”.

O esposo de Trepova, Dimitri Rylov, o qual depois de ser perseguido como membro do proscrito Partido Libertário se refugiu em outro país, declarou que alguém a está utilizando mediante enganos: “Estou completamente seguro de que ela não pôde fazer isso (o atentado com bomba) por sua própria vontade. Sim, Daria e eu não apoiamos a guerra na Ucrânia, mas consideramos que ações desse tipo são inadmissíveis. Não tenho a mínima dúvida de que ela nunca teria aceitado participar se soubesse o que ia ocorrer”. 

E depois do que dizem uns e outros, unicamente ficam mais dúvidas que certezas. Emergem no primeiro plano especulações de todo tipo que não tem sentido reproduzir, pois no momento não existe nenhuma evidência que as corrobore, e não seria a primeira vez que esse tipo de crime nunca se chegue a esclarecer completamente.

Especulações sobre o ataque emergem de todo tipo e não seria a primeira vez que um crime como esse termine sem esclarecimentos

Kremlin
O porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov




Entenda o caso

Um atentado com bomba tirou a vida neste domingo de um conhecido blogueiro pró russo, Maksim Fomin, conhecido por seu pseudônimo Vladlen Tatarsky, com o que firmava seu canal no Telegram e que chegou a ter 560 mil inscritos. 

A polícia confirmou que a explosão que matou Fomin, de 40 anos, ocorreu no café Street Food Bar No. 1, localizado no calçadão Universitário da cidade de San Petersburgo, e deixou um saldo de 25 feridos, 19 deles hospitalizados com distintos graus de gravidade. 

O estabelecimento costumava ser, sobretudo nos fins de semana, uma espécie de clube de debates da chamada Frente Cibernética Z, que reúne simpatizantes com blogueiros que apoiam a “operação militar especial” da Rússia na Ucrânia. Neste domingo, Fomin, apresentado como “correspondente de guerra” adscrito às tropas russas, estava oferecendo uma palestra sobre suas experiências recentes nos campos de batalha.

Até o momento ninguém reivindicou a autoria do atentado. Denis Pushilin, o governante da autoproclamada República Popular de Donetsk, depois de dizer que Fomin era “um autêntico patriota do Donbass e da Rússia”, culpou de sua morte o “regime de Kiev”: “O mataram de uma maneira covarde. Os terroristas não podem de outra forma. O regime de Kiev é um regime terrorista. É preciso aniquilá-lo”.

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Mikhaylo Podolyak, em funções de porta-voz do governo do vizinho país eslavo, rechaçou de imediato a acusação e assegurou que a Ucrânia não teve nada a ver, atribuindo o atentado à “luta intestina” dentro da Rússia. 

O Comitê de Instrução da Rússia, a cargo da investigação, abriu uma acusação por assassinato (artigo 105 do Código Penal) e considera – segundo reportou a agência TASS – duas hipóteses principais de como sucedeu a deflagração: uma, que o artefato tivesse sido colocado anteriormente perto do lugar onde estava sentado Fomin e, a outra, que o explosivo estivesse dentro de uma estatueta que foi entregue ao blogueiro por uma mulher à qual ele distribuiu um fotograma no momento de fazer uso da palavra, extraído de um vídeo gravado pelo canal REN TV.

Várias testemunhas apontaram que a explosão ocorreu três ou cinco minutos depois da mulher ter dado a estatueta a Fomin, embora tenha regressado à sua mesa e abandonou o local só quando se produziu o atentado e os assistentes, que não foram feridos, e correram para a saída. 

O café, segundo o portal de notícias de San Petersburgo Fontanka, está registrado como parte do consórcio Concord, propriedade do magnata Yevgueni Prigozhin, chefe do grupo de mercenários Wagner. Em junho do ano passado o polêmico empresário confirmou que o cedeu a “uns rapazes estupendos” que coordenam a Frente Cibernética Z e “ajudam sua pátria a derrotar os nazistas e a vencer nesta grande guerra do século XXI, a guerra da Rússia contra o mal”.

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De acordo com o politólogo Konstantin Dolgov, o empresário tinha previsto acudir à palestra de Fomin, embora mudaram seus planos e não pôde chegar. 

Originário da localidade de Makiivka, em Donetsk, Fomin, depois de escapar da prisão em 2014 – cumpria condenação por atracar um banco – se incorporou como combatente ao batalhão Vostok, uma das milícias separatistas que se enfrentaram ao exército ucraniano e aos grupos ultranacionalistas de tipo neonazista na guerra civil desse ano até a trégua dos acordos de Minsk.

A partir de 24 de fevereiro de 2022, já sob o pseudônimo de Vladlen Tatarsky, se converteu em um dos mais férreos defensores nas redes sociais da “operação militar especial” e, de um tempo para cá se distinguiu por lançar duras críticas à cúpula do exército russo, coincidindo com as posições de Prigozhin.

Fomin assistiu como convidado a cerimônia no Kremlin que, em setembro de 2022, formalizou a anexação das quatro regiões (incompletas) da Ucrânia, ocasião em que subiu à sua conta no Telegram esta mensagem: “Venceremos a todos, mataremos a todos e vamos saquear a quem o mereça. Tudo vai sair como gostamos de fazer. Adiante, que Deus nos bendiga!”.


Reforçar a fronteira Norte-Ocidental 

A partir desta terça-feira, com a oficialização do ingresso da Finlândia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a reserva de que mais adiante o faça Suécia, a Rússia terá que reforçar a segurança de sua fronteira Norte-Ocidental. 

Assim foi confirmado nesta segunda-feira (3) pelo vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Viktor Grushko, o qual declarou que “já instrumentamos parte das medidas que buscam reforçar nosso potencial bélico no Oeste e no Noroeste”.

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E advertiu que em caso de que outros países da aliança Norte-atlântica enviem tropas e armamento para o território da Finlândia, “a Rússia tomará medidas adicionais para garantir sua segurança”. 

Finlândia e Suécia renunciaram ao seu status de países neutros e solicitaram seu ingresso à OTAN – firmaram o protocolo de adesão em 5 de junho de 2022, que no caso do segundo só falta ser ratificado pela Turquia –, como consequência da guerra que a Rússia desatou no vizinho país eslavo, entre outros motivos oficiais para “impedir que continuasse, com a admissão da Ucrânia, a expansão para o leste da aliança norte-atlântica”.

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Desde esta terça-feira, aos 1.215 quilômetros de fronteira terrestre que a Rússia mantém com cinco países da OTAN, haverá que agregar os 1.290 quilômetros que a separam da Finlândia, o membro número 31 da aliança norte-atlântica.


Jornalista dos EUA detido na Rússia

Acusado de espionagem em favor do governo dos Estados Unidos, o FSB (sigla do Serviço Federal de Segurança, sucessor da KGB soviética) informou nesta quinta-feira (30) que deteve Evan Gershkovich, correspondente em Moscou do diário The Wall Street Journal (WSJ).

Com isto se rompe o tácito entendimento de que os correspondentes de meios de outros países credenciados pela chancelaria russa – a instância governamental que autoriza ou não desempenhar os trabalhos profissionais dos jornalistas estrangeiros neste país –, podiam ser expulsos ou ter negada a renovação de sua credencial, mas gozavam de uma certa imunidade, no sentido não serem aprisionados. 

Gershkovich, cidadão estadunidense de 31 anos, que há seis anos trabalhava na capital russa, agora para o WSJ e antes para a agência France Press e The Moscow Times, poderia ser condenado até 20 anos de privação de liberdade por tentar recavar, presumidamente, informação secreta, pelo qual o FSB o prendeu na noite de quarta-feira (29) ao sair do restaurante Bukowski Grill em Yekaterimburgo, Sibéria.

O diário, preocupado pelo estado no seu jornalista, nega sua implicação em atividades de espionagem e afirma que ele havia viajado à Sibéria para fazer reportagens sobre a atitude dos habitantes da terceira maior cidade da Rússia, depois de moscou e São Petersburgo, sobre a “operação militar especial” da Rússia na Ucrânia e o papel que desempenha nela o grupo de mercenários Wagner.

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Gershkovich já se encontra na prisão de alta segurança de Lefortovo em Moscou, depois que uma corte do mesmo distrito lhe impôs dois meses de prisão preventiva, em sessão à porta fechada no qual não se permitiu a entrada à sala de seu advogado Danil Berman, segundo reportou a agência noticiosa Sputnik. 

Mediante um comunicado, que não precisa as causas da detenção, o FSB se limita a dizer que “frustrou as atividades ilegais do correspondente em Moscou do jornal estadunidense The Wall Street Journal, Evan Gershkovich, cidadão estadunidense suspeito de espionagem em interesse do Governo dos Estados Unidos”.

Segundo sua curta versão, o jornalista “por encargo da parte estadunidense, esteve recolhendo informação catalogada como segredo de Estado sobre uma companhia russa do setor de defesa” e, por esse motivo, foi feita denúncia contra ele por espionagem”, delito que o código penal russo castiga com prisão entre 10 e 20 anos. 

Colegas do detido comentam que sua prisão poderia guardar relação com a recente visita que realizou também à cidade de Nizhny Taguil, onde está a sede do consórcio da indústria militar Uralvagonavod, fabricante dos famosos tanques Armata, os mais modernos do exército russo, que ainda não foram vistos nos campos de batalha na Ucrânia. 

O porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, disse que “até onde sei, o agarraram (Gershkovich) com as mãos na massa”, María Zajarova, diretora de informação e imprensa da chancelaria russa, comentou: “Lamentavelmente não é a primeiro vez que se utiliza o status de ‘correspondente estrangeiro’, o visto de jornalista e o credenciamento para encobrir atividades que nada têm que ver com o jornalismo. Não é o primeiro caso de um ocidental detido em flagrante”. 

O caso anterior de um jornalista acusado de espionagem se deu na época soviética, em setembro de 1986, com a detenção de Nicholas Daniloff, correspondente do semanário US News & World Report, três dias depois da prisão em Nova York de Guennadi Zajarov, funcionário da missão soviética ante as Nações Unidas. Três semanas mais tarde ambos ficaram em liberdade sem acusações em um intercâmbio que incluiu também a licença para sair da União Soviética do dissidente Yuri Orlov.

Aqueles que seguem de perto este tipo de história não excluem que Gershkovich, assim como Paul Whelan e/ou Marc Fogel, que cumprem condenações em prisões russas, o primeiro por espionagem e o segundo por contrabando de narcóticos, possam formar parte de uma troca com presumidos agente russos caídos em desgraça como, por exemplo, Maria Meyer e Ludwig Gisch, detidos há pouco tempo em Liubliana, Eslovênia, acusados de serem espiões e cidadãos russos com passaporte argentino falso por Tanja Fajon, a chanceler desse país da antiga Iugoslávia. 

Juan Pablo Duch | Correspondente do La Jornada em Moscou.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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