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Embaixador russo rebate acusações de que Rússia é responsável por crise alimentar global

Segundo Dmitry Feoktistov, produtos agrícolas registram preços recordes desde 2021 como consequência da pandemia e de políticas dos países desenvolvidos
Guilherme Ribeiro
Diálogos do Sul
Bauru (SP)

Tradução:

O embaixador da Rússia na Argentina, Dmitry Feoktistov, publicou uma declaração na qual aponta as circunstâncias que levam à atual crise alimentar global.

O texto, intitulado “As verdadeiras causas da crise alimentar” e publicado no último dia 21, contesta acusações dos EUA e aliados de que a Rússia seja a grande responsável pelo problema. Segundo Feoktistov, um estudo detalhado foi construído pela embaixada, mas teve a veiculação recusada pela mídia argentina.

O embaixador russo considera que a Argentina está atenta ao tema, uma vez produtora e exportadora agroindustrial importante e atualmente com registro de déficits e preços crescentes nos supermercados. “No entanto, a situação atual no mercado internacional de alimentos não se desenvolveu de um dia para o outro, e sim reflete as tendências dos dois últimos anos, pelo menos”, observa no documento.

Os produtos agrícolas, segundo Feoktistov, já registram preços recordes desde 2021, como consequência da pandemia e erros na política monetária e energética em países desenvolvidos: “Ao estimular a demanda interna, estes países desviaram para si os principais fluxos de produtos básicos, acelerando a inflação e criando déficit no resto do mundo”, denuncia o representante russo.

As sanções dos EUA e da União Europeia contra a Rússia, o maior exportador de alimentos do mundo, também são apontadas como propulsoras da crise alimentar global: “Os navios estrangeiros ainda evitam entrar nos portos russos, e as operações financeiras no contexto das transações com Moscou continuam sendo difíceis”.

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Dmitry Feoktistov rebate ainda as alegações do Ocidente de que a Rússia bloqueia intencionalmente a exportação de cereais da Ucrânia. O embaixador assinala que os produtos seguem deixando território ucraniano “pelas mesmas rotas pelas quais armas estão sendo fornecidas à Ucrânia a partir da UE, ou seja, em vagões de estrada de ferro e barcaças pelo rio Danúbio”. No entanto, aponta ele, “o grão não chega aos países necessitados do Sul Global, sendo depositado nos armazéns da Europa”, denuncia.

A seguir, confira a declaração na íntegra:

Segundo Dmitry Feoktistov, produtos agrícolas registram preços recordes desde 2021 como consequência da pandemia e de políticas dos países desenvolvidos

Embaixada da Rússia na Argentina
"Se nosso país for “retirado” do mercado de fertilizantes, em apenas um par de anos, o mundo perderá alimentos para 780 milhões de pessoas"




As verdadeiras causas da crise alimentar

A Embaixada da Federação Russa elaborou uma informação detalhada sobre as verdadeiras causas da crise alimentar global a fim de difundi-la posteriormente pelos meios de comunicação. No entanto, os jornais centrais e os sites, aos quais foi remetido este material, rejeitaram sua publicação. Tendo em conta a importância do assunto quero indicá-lo para atenção das autoridades e do público da República Argentina.

Os Estados Unidos e seus aliados tentam acusar a Rússia de desencadear a crise alimentar mundial, vinculando-a ao início da operação militar especial na Ucrânia. As hostilidades levaram supostamente a uma escalada dos preços e afetaram negativamente o fornecimento de fertilizantes e de alimentos. Além disso, acusa-se a Rússia de deterioração “maliciosa” da situação: bloqueio das rotas marítimas para a exportação de cereais ucranianos a mercados estrangeiros. Isto é, estão tentando atribuir quase toda a responsabilidade da “fome mundial por vir” a nosso país.

Estamos conscientes de que as autoridades da República Argentina prestam atenção regularmente ao tema da crise alimentar mundial. Entendemos a particular urgência deste assunto para o país que é um produtor e exportador agroindustrial importante. Seguimos a informação nos meios de comunicação, segundo a qual a Argentina registra um déficit em fertilizantes necessários para as temporadas de plantio. Notamos os crescentes preços nos supermercados.

No entanto, a situação atual no mercado internacional de alimentos não se desenvolveu de um dia para o outro, e sim reflete as tendências dos dois últimos anos, pelo menos.

Já em 2021, o aumento do custo dos produtos agrícolas no mundo alcançou níveis recorde, de 20% em uma taxa anual. Foi provocado por fenômenos climáticos adversos, pelas consequências da pandemia da COVID-19, assim como por erros de cálculo sistêmicos nas políticas monetária e energética dos países desenvolvidos.

Portanto, a emissão adicional como medida anticrise chegou a cerca de 5 bilhões de dólares nos Estados Unidos, mais de 1 bilhão de dólares na União Europeia e cerca de 2 bilhões de dólares no Japão. Ao estimular a demanda interna, estes países desviaram para si os principais fluxos de produtos básicos, acelerando a inflação e criando déficit no resto do mundo.

A transição anunciada para a “energia verde” levou à rejeição dos investimentos no setor de petróleo e gás, o que provocou um aumento nas cotizações de energia. Como consequência, aumentou o preço do combustível para máquinas e transportes agrícolas, assim como o da eletricidade para a indústria alimentícia. A escalada dos preços do gás arrastou o custo dos fertilizantes minerais: no final de 2021, o valor da carbamida e do salitre aumentou entre 3,5 e 4 vezes, e o de outros tipos de produtos, entre 2,5 e 3 vezes.

Um fator adicional são as sanções ilegítimas dos EUA e da UE contra a Rússia, que é o maior produtor de alimentos do mundo. Os confiscos, a que se referem Washington e Bruxelas, não mudam realmente nada em relação às exportações agrícolas de nosso país. No entanto, os navios estrangeiros ainda evitam entrar nos portos russos, e as operações financeiras no contexto das transações com Moscou continuam sendo difíceis. Segundo algumas estimativas, se nosso país for “retirado” do mercado de fertilizantes, em apenas um par de anos, o mundo perderá alimentos para 780 milhões de pessoas. O dano potencial para a humanidade seria enorme.

Quanto aos cereais ucranianos, as acusações de que a Rússia bloqueia intencionalmente seu fornecimento não correspondem à realidade. Este grão está sendo exportado pelas mesmas rotas pelas quais armas estão sendo fornecidas à Ucrânia a partir da UE, ou seja, em vagões de estrada de ferro e barcaças pelo rio Danúbio. No entanto, o grão não chega aos países necessitados do Sul Global, sendo depositado nos armazéns da Europa. As principais ameaças para a exportação de cereais ucranianos por via marítima estão vinculadas a um grande perigo de minas e à ameaça de bombardeios, ambas criadas por Kiev. Os especialistas russos, ao contrário, ao desminar os territórios correspondentes, restabeleceram o trabalho dos portos de Berdyansk e Mariupol. Nosso país está disposto a ajudar a garantir a navegação de embarcações comerciais estrangeiras para realizar o transporte do grão da Ucrânia. Com este objetivo, o exército russo anuncia regularmente corredores humanitários especiais a partir dos mares Negro e Azov. Além disso, em 13 de julho último, realizaram-se diálogos em Istambul com a participação de representantes da Rússia, Ucrânia, Turquia e ONU, onde a delegação russa apresentou um pacote de soluções para o problema de retomada das exportações de cereais da Ucrânia. Portanto, a especulação sobre a “má vontade” de nosso país é absolutamente infundada.

Exortamos nossos sócios, inclusive os da Argentina, a não perder de vista que a afirmação promovida pelo Ocidente sobre o início de uma crise alimentar como resultado de uma operação militar especial levada a cabo pela Rússia é só uma tentativa mais de desacreditar nosso país no contexto de uma selvagem campanha russofóbica que não se baseia em fatos reais.

Declaração do embaixador Dmitry Feoktistov
Embaixada da Federação Russa na República Argentina
Tradução de Ana Corbisier

Guilherme Ribeiro, jornalista e colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Guilherme Ribeiro Jornalista graduado pela Unesp, estudante de Banco de Dados pela Fatec e colaborador na Revista Diálogos do Sul.

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