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EUA: ataques de republicanos ao México vão impactar eleições em 2024, adverte ativista

“Militarizar a fronteira não é algo que a maioria de latinos, e sobretudo os de origem mexicana, apoia”, afirma Lydia Camarillo
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Os eleitores de origem mexicana nos Estados Unidos, incluindo o Texas, estão atentos à forma como alguns políticos estadunidenses atacam o México e isso influirá em seu voto nas próximas eleições, afirma Lydia Camarillo, presidenta da Southwest Voter Registration and Education Project.

Em entrevista ao La Jornada, o Presidente Andrés Manuel López Obrador advertiu que apelaria aos votantes de origem mexicana nos Estados Unidos que votassem contra políticos que propuseram a presença de forças armadas estadunidenses contra os cartéis de droga no México. Camarillo comentou que estes republicanos estão usando o tema só para gerar apoio entre setores ultradireitistas neste país.

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“Me compraz que o presidente do México fez uma declaração pública de que o México é uma nação soberana”, afirmou Camarillo, que encabeça a organização mais antiga dedicada a promover o registro de eleitores e o voto latino nos Estados Unidos. Sublinhou que é necessário marcar a linha, uma mensagem de “nem comece” quando se fala de intervir no México. “Se somos um país que espera que outros o respeitem, que seja um líder, não pode estar ameaçando intervir em outros países”, afirmou. 

Indicou que nem os Democratas nem os Republicanos entendem o voto latino, e que a retórica dos republicanos, sobretudo no Texas, piorou desde 2016. “Creio que desde antes das eleições de 2016 os republicanos estavam usando o tema da fronteira e da imigração para mobilizar os conservadores” e com o “primeiro fascista público como presidente”, Trump intensificou o ataque contra a México e os mexicanos, junto com muçulmanos, afro-estadunidenses e mulheres.  

Militarizar a fronteira não é algo que a maioria de latinos, e sobretudo os de origem mexicana, apoia”, comentou, indicando que esta política extremista está tendo um efeito catalisador entre os latinos. Assinalou que depois da eleição de Donald Trump e a implementação de suas políticas anti-imigrantes, sua organização registrou uma explosão de interesse entre os latinos para registrar-se como eleitores. Em 2022, o registro de latinos no Texas se incrementou em 31%, e também se elevou em outras partes do país. Para Camarillo, isto se deve em grande medida ao rechaço pelos latinos das políticas do Trump, incluindo seus ataques contra o México. 

“Militarizar a fronteira não é algo que a maioria de latinos, e sobretudo os de origem mexicana, apoia”, afirma Lydia Camarillo

Alianza Americas
Lydia Camarillo: “Ataques de republicanos contra o México são de fato um grande favor aos democratas”




Cresce o voto latino nos Democratas

“Os ataques destes republicanos contra o México [nestes dias] são de fato um grande favor aos democratas”, explicou. “Os latinos de origem mexicana estão votando cada vez mais pelo Partido Democrata – em algumas partes do Texas chegou a 98%”. 

Camarillo, também presidente do centro de estudos latinos William C. Velazquez Institute, reconhece que há alguns latinos na fronteira que votam por republicanos porque estão empregados pela Patrulha Fronteiriça, Aduanas ou a DEA e acreditam que os republicanos oferecem mais financiamento para essas agências, mas que isso está concentrado em alguns lugares, e rechaça informes que exageraram um suposto giro do voto latino a favor dos republicanos. 

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Perguntada sobre o efeito que terá um apelo como o do presidente mexicano aos latinos de origem mexicana para votar contra republicanos, Camarillo sublinha que “os latinos não incluem a relação com o México ou a imigração entre os temas mais prioritários. Estes sempre são o emprego, a economia, a educação”.

Agregou que “se o eleitor está desempregado, ou não ganha o suficiente para manter a sua família, isso é o mais urgente. O seguinte tema de importância é a educação porque entendem que isso é nossa escada para uma vida melhor para a próxima geração”.

Mas isso não implica que a política para o México não seja importante, adverte Camarillo, e assinala que isso é um tema do qual se fala nas famílias.


Apelo de Obrador

O apelo do presidente poderia convencer aqueles mexicanos que se naturalizaram a que se registrem e votem nos Estados Unidos. Explicou que há muitos que não se naturalizaram ou não se registraram porque não desejam ser desleais a seu país de origem ou não querem perder seu direito ao voto no México. Por tanto, espera que López Obrador poderia estimulá-los a registrar-se e votar nos Estados Unidos e assegurar que também poderão continuar votando no México. 

Enquanto o voto latino é pouco entendido por ambos os partidos, e também por outros países, afirma que só nas últimas eleições presidenciais se pôde argumentar que “sem o voto latino nos dois estados chaves que determinaram a resultado nacional, Georgia e Arizona, hoje Trump seria presidente… e o Senado seria controlado por republicanos”.

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Portanto, adverte que os democratas deveriam reconhecer esta força eleitoral e não a considerar dada, já que fracassos em promover reformas migratórias entre outros temas dos democratas poderia levar a “um voto de castigo” não a favor de outro partido, mas sim só não se apresentar às urnas.

O registro de latinos como eleitores está crescendo de maneira surpreendente em várias partes do país, incluídos Texas, Arizona e Califórnia, e em parte isto, insiste, é parte de um “já basta” diante dos ataques políticos contra os latinos.

O objetivo é que o eleitorado latino cresça 2 milhões a cada 4 anos. Recorda que um terço da população latina é demasiado jovem para poder votar, mas que entre 800 mil a um milhão de jovens alcançam a idade para votar a cada ano neste país, ampliando o potencial do que já é uma força política chave para o futuro dos Estados Unidos.

Jim Cason e David Brooks, correspondente do La Jornada em Washington e Nova York.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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