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EUA, polícia do mundo: na ONU, Biden aposta em velho discurso recheado de cinismo

Para Biden, o tema prioritário para a “comunidade internacional” hoje é a Rússia, embora também não faltaram críticas ao outro superpoder, a China
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O presidente Joe Biden convocou o mundo a defender a Carta da Organização das Nações Unidas e a ordem internacional ameaçada pela guerra da Rússia em seu discurso ante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. No entanto, outros líderes mundiais apelaram por uma nova ordem internacional sem guerras e com maior justiça econômica, social e ambiental.

“A Rússia violou descaradamente os princípios básicos da Carta das Nações Unidas… Se as nações podem promover suas ambições imperiais sem consequências, então pomos em risco tudo o que esta instituição representa”, declarou o mandatário estadunidense ante representantes dos 193 países membros da ONU, incluindo o Iraque e o Afeganistão que foram invadidos pelos Estados Unidos contra o ditame desta mesma organização mundial há 20 anos.

Sua mensagem centrada em denunciar as guerras de agressão e intervenção e apresentar os Estados Unidos como forma anti-imperialista – que “sempre promoverá os direitos humanos e os valores da Carta da ONU em nosso próprio país e ao redor do mundo” – seguramente deixou surpreendidos representantes de demasiados países que têm experiências diretas com as agressões e intervenções dos Estados Unidos.

Para Biden, o tema prioritário para a “comunidade internacional” hoje é a Rússia, embora também não faltaram críticas ao outro superpoder, a China

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Biden evitou mencionar que foram os Estados Unidos que anularam o acordo com Teerã sobre armas nucleares

Para Biden, o tema prioritário para a “comunidade internacional” hoje é a Rússia, embora também não faltaram críticas ao outro superpoder, a China. No entanto, assegurou que “não buscamos uma guerra fria. Não pedimos a nenhuma nação que escolha entre os Estados Unidos e qualquer outro sócio”.

Porém Biden falou sobre os perigos de uma guerra quente contra a Rússia, comentando que Vladimir Putin acabava de “fazer ameaças nucleares abertas contra a Europa” e dizendo que está mobilizando mais soldados.

Sublinhou: “uma guerra nuclear não pode ser ganha e nunca deveria ser combatida”, e responsabilizou a Rússia de não respeitar os “ideais” da não proliferação. Ao mesmo tempo, acusou a China de estar aumentando seu arsenal nuclear, que a Coréia do Norte continua com seus problemas nucleares, e reiterou que o Irã não está cumprindo com suas obrigações: “não permitiremos que o Irã adquira uma arma nuclear”.  

No entanto, evitou mencionar que foram os Estados Unidos que anularam o acordo com Teerã e por causa disso agora é necessária uma nova negociação.

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Biden apresentou seu país como guardião de uma ordem internacional que está sob ameaça por forças antidemocráticas, advertindo que “a base da Carta da ONU de uma ordem estável, justa e baseada em regras está sob ataque por aqueles que desejam desmantelá-la ou distorcê-la para sua vantagem política”.  

Ao abordar temas como a mudança climática, elogiou o fato de seu governo estar propondo investir 11 bilhões de dólares, mas não reconheceu que seu país é responsável pela metade do dióxido de carbono que contamina o planeta, nem que os Estados Unidos são o único país que firmou os Acordos de Paris sobre a mudança climática e abandonou esse consenso por alguns anos. 

Biden também anunciou novos fundos para promover a segurança alimentar – embora tenha usado este tema para acusar a Rússia pela piora desta crise – e para promover novos programas de apoio a projetos de saúde e defesa dos direitos humanos.

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, referendou a mensagem de Biden ao qualificar a invasão da Rússia como um atentado contra os princípios da comunidade internacional. “Quando um país tenta roubar o território de outro Estado, põe sob ataque a todo o mundo… Cometeu um crime contra as vidas de nosso povo, contra os valores que nos fazem aos senhores e a mim uma comunidade das Nações Unidas”, declarou em uma mensagem pré-gravada transmitida à grande sala da Assembleia Geral (o único orador ao qual se ofereceu uma exceção à regra de que cada governo necessita apresentar-se fisicamente para fazer seus discursos).

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Apelando pelo “castigo justo” à Rússia, pediu que a comunidade internacional adote um plano de cinco pontos para conseguir a paz, incluindo castigar a Rússia por delitos de agressão, e também proteção da vida, restauração de segurança e integridade territorial, garantias de segurança e o direito de continuar a defesa de seu país.

Solicitou apoio militar adicional para “esta guerra pela vida”, e denunciou aqueles que proclamam a “neutralidade”. Acusou que o único que está feliz com essa guerra é Putin. Recebeu uma ovação de pé dos congregados na Assembleia Geral.

Entretanto, diversos países do sul global expressaram nestes dois primeiros dias da semana de discursos ante a Assembleia Geral que, embora todos condenem a guerra da Rússia, não necessariamente compartilham a opinião de Biden, de Zelensky e da comunidade europeia de que este conflito é o principal tema planetário, nem que a atual ordem internacional merece ser defendida.

Vários enfatizam as desigualdades na chamada ordem internacional em torno às consequências da mudança climática, a concentração de riqueza, o acesso a alimentos e vacinas e outros conflitos ao redor do mundo.

Cuba, através de seu chanceler, Bruno Rodriguez, ressaltou que a pandemia pôs à luz “a verdadeira essência da injusta e insustentável ordem internacional prevalecente”, afirmando que apesar da grande riqueza material e intelectual disponível para atender as necessidades de saúde, alimento e desenvolvimento, “nunca antes o mundo foi tão desigual”.

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Destacou que as prioridades incluem o rechaço de políticas que violam os princípios da ONU, incluindo a imposição de bloqueios ilegais como o que padece seu país, o qual classificou como “um ato de guerra em tempo de paz”. Insistiu que, para abordar os desafios internacionais, se deve respeitar o direito à autodeterminação e promover a cooperação multilateral, como a que se está promovendo entre a América Latina e o Caribe.

A chanceler da África do Sul, Naledi Pandor, deixou claro que para seu país o tema essencial são “as necessidades dos marginados e dos esquecidos” e que os principais desafios globais são “a pobreza, a desigualdade, o desemprego e a sensação da exclusão”.

Insistiu que “a solidariedade humana” é requerida para enfrentar os desafios da insegurança alimentar e energética, a mudança climática, acesso à saúde e vacinas revelado pela pandemia, educação e a devastação causada por conflitos, incluindo a ameaça existencial das armas nucleares”.

Sobre as guerras, Pandor declarou que “devemos tratar todos os conflitos do mundo com a mesma indignação, independentemente da cor ou credo das pessoas afetadas”. Neste contexto, ele pediu a resolução do conflito sobre a Palestina, condenando o sistema do apartheid imposto por Israel e o fim do embargo contra Cuba, entre outros.

David Brooks | Correspondente do La Jornada em Nova York.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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