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“Feliz Ano Novo”: como obra de 1975 de Rubem Fonseca oferece espelho ao Brasil de 2022

Fonseca registra a vida brasileira de maneira absolutamente realista, resultando num relato brutal de situações cotidianas assustadoras
Carlos Russo Jr
Diálogos do Sul Global
Florianópolis (SC)

Tradução:

A dita “festa da democracia” demonstrou, na verdade, a circularidade da mentalidade retrógrada, ressentida, violenta que permeia boa parte da sociedade brasileira, percorrendo, todas as classes sociais.

Na verdade, a realidade de hoje imita a arte de Rubem Fonseca, em seu livro de contos “Feliz Ano Novo”, escrito em 1975, em plena ditadura militar

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Fonseca registra a vida brasileira de maneira absolutamente realista, resultando num relato brutal de situações cotidianas assustadoras. Ele logra captar a violência que impera nas ruas do Rio, que de quatro décadas para cá, somente fez se expandir com o surgimento e crescimento das milícias paramilitares de hoje.

Em sua terceira edição, de 1977, o livro foi censurado. Não foi por um acaso nem a censura nem sua recolha de todas as livrarias e a proibição de circular na Terra descoberta por Cabral.

Censurado em nome da família, da moral e dos bons costumes. O maior escândalo literário da ditadura militar!

Tanto ontem quanto hoje, a violência narrada pode surgir de condições sociais degradantes, mas também ela surge da solidão, da frustração pessoal, da loucura, da solidão de personagens presos a objetivos de vida fúteis e esnobes, fomentos da violência gratuita!

Fonseca registra a vida brasileira de maneira absolutamente realista, resultando num relato brutal de situações cotidianas assustadoras

Arturo Espinosa – Flickr (modificado)

"Meus livros estão cheios de miseráveis sem dentes. A pobreza e a marginalidade são a verdadeira pornografia!"




Histórias grotescas

Uma violência presente na sociedade das grandes metrópoles brasileiras, independente da classe a que pertençam seus personagens.

Por trás de histórias grotescas, o autor traça uma sociedade que se formava valorizando o consumismo e o individualismo. Algumas cenas chocantes são contrapostas a uma situação de normalidade, mostrando a hipocrisia e o cinismo presentes no nosso cotidiano.

Seus personagens sempre representam os dois extremos da nação: os que vivem à margem e os que constituem a elite privilegiada do sistema.


“Feliz Ano Novo”, em seu primeiro conto:

Pereba e o personagem narrador conversam no apartamento deste na noite de ano novo. Zequinha chega ao apartamento e diz que estava aguardando umas armas que viriam de São Paulo. Então, os três vão à casa de uma velhinha, Dona Cândida, buscar as armas. As armas eram de um tal de Lambreta e seriam usadas no dia 2 de janeiro para assaltar um banco na Penha, subúrbio do Rio de Janeiro.

Mas ao retornarem com as armas eles decidem usa-las naquela mesma noite para assaltar uma festa de bacanas. Roubam um carro e partem para São Conrado à caça da casa ideal. Encontram uma festa com pouca gente, colocam as meias na cabeça e entram. Mandam todos deitarem no chão, rendem os empregados e Pereba sobe com uma mulher para encontrar uma senhora doente que estava na parte de cima da casa. Pereba violenta esta mulher e mata as duas.

O narrador personagem, por seu lado, arranca o dedo de outra senhora para roubar o anel que não saía.

Ao descerem comem a ceia e um dos homens da família diz que podem levar tudo, que não vão dar queixa à polícia. Isso revolta ainda mais o narrador personagem, pois percebe que o que roubaram não era nada perto do que os ricos tinham.

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Com raiva, manda o homem se levantar e atira, tentando grudá-lo na parede com a força da potente arma. Matam mais um outro, violentam mais alguém.

Voltam para casa, estenderam uma toalha no chão com as comidas que roubaram e brindaram com um “Feliz ano novo”.


“O intestino grosso”

Este é o primeiro conto, ao qual outros se sucedem, até atingir seu ápice em “O intestino grosso”.

Suas observações sobre o conto de fadas de João e Maria são estarrecedoras: João e Maria são sádicos, pois fritam a bruxa que os acolhera e retornam à casa de onde haviam sido enxotados pelos pais, com tudo o que haviam roubado da bruxa. “Isto não deveria ser um conto de fadas, a história é indecente, desonesta, obscena, despudorada e sórdida. “E os pais a contam para os filhos como algo edificante.”

No conto que tem a formatação de uma entrevista, o autor-personagem é questionado se ele se considerava um escritor pornográfico, ao que responde: “Sou, os meus livros estão cheios de miseráveis sem dentes. A pobreza e a marginalidade são a verdadeira pornografia!”

“Escrevo para pessoas empilhadas nas cidades, enquanto os tecnocratas afiam o arame farpado… estamos matando todos os bichos, nem tatu aguenta, várias raças já foram extintas, um milhão de árvores derrubadas por dia”.

Destruímos o que nos envolve e todo o erguido sempre desaba no caos.

Afinal, pornográfica é a pobreza!

E para concluir, recordo-me de um livro de Ignácio de Loyola Brandão: “Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela. ”

Será???? Saberemos em 30 de outubro.

Carlos Russo Jr | Colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Carlos Russo Jr Carlos Russo Jr., coordenador e editor do Espaço Literário Marcel Proust, é ensaísta e escritor. Pertence à geração de 1968, quando cursou pela primeira vez a Universidade de São Paulo. Mestre em Humanidades, com Monografia sobre “Helenismo e Religiosidade Grega”, foi discípulo de Jean-Pierre Vernant.

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