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Frei Betto | Na Roma Antiga ou no Brasil de 2023, luta pela terra é alvo da fúria das elites

O mundo gira e felizmente prevalece, ao longo da história, a pedagogia dos oprimidos
Frei Betto
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Este é o quarto texto de uma série de publicações de Frei Betto sobre a CPI contra o MST. Leia também:
1. CPI do MST serve para trazer à tona violência no campo e crimes do agronegócio
2. Mesmo agro que financiou golpismo em Brasília quer CPI contra MST
3. CPI contra MST: só reforma agrária pode erradicar fome e insegurança alimentar
5. Trabalho escravo no Brasil é problema crônico do agro jamais visto no MST

Tibério Graco era defensor público na república romana. Sua função, no século 2 a.C., era assegurar os direitos do povo e impedir que as autoridades violassem o que a lei estabelecia.

A desigualdade social era gritante na sociedade romana. Uma pequena classe privilegiada esbanjava riqueza, enquanto a maioria da população vivia em estado de pobreza crescente. Os conflitos sociais eram constantes e, no contexto do século 2 a.C., giravam em torno, principalmente, da posse da terra.

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Com o aumento do território da república, havia a esperança entre os sem-terra, principalmente os que retornaram da guerra, de que conquistariam uma área de lavoura, o que não aconteceu na prática. 

Muitos camponeses haviam perdido terras em decorrência das invasões das tropas de Cartago na Península Itálica, e os pais ainda foram obrigados a pagar as despesas dos filhos que abandonaram as lavouras para lutar nas guerras.

O mundo gira e felizmente prevalece, ao longo da história, a pedagogia dos oprimidos

MST
Até hoje as circunstâncias da morte de Caio, irmão de Tibério, não foram esclarecidas: se por assassinato ("suicidado”) ou suicídio

Projeto de reforma agrária

Tibério Graco propôs ao Parlamento um projeto de reforma agrária. Nenhuma propriedade rural poderia ultrapassar 120 hectares. Além dessa extensão, a área era considerada latifúndio e, automaticamente, desapropriada pelo poder público e entregue aos sem-terra.

Inúmeras famílias de sem-terra receberam, assim, glebas de 7 hectares. Porém, muitos senadores se opuseram à reforma agrária. O juiz Marco Otávio encabeçou as forças de oposição ao projeto e entrou em colisão com Tibério Graco, acusado de sectário pelo Senado. Os parlamentares decidiram vetar os recursos destinados à reforma agrária. Tibério Graco recorreu, então, à iniciativa privada, principalmente à herança deixada por um multimilionário grego e repassada ao Estado. O Senado considerou a medida um ataque à sua autoridade.

Frei Betto | CPI do MST serve para trazer à tona violência no campo e crimes do agronegócio

Quando Tibério Graco decidiu concorrer à reeleição para defensor público, a turba mobilizada pelos latifundiários e impregnada de ódio espancou-o até a morte. 

Caio Graco, irmão de Tibério, se elegeu defensor público e deu continuidade às reformas. Além de implementar as reformas fundiárias, proibiu que menores de 17 anos fossem convocados a prestar serviço militar e conseguiu a aprovação da lei que obrigava certa quantidade de grãos a ser vendida a preços populares. Criou também estoques reguladores de alimentos. 

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A elite se insurgiu contra as reformas de Caio Graco em defesa dos direitos dos sem-terra. Perseguido, ele se refugiou no Monte Aventino. Ali faleceu e até hoje as circunstâncias de sua morte não foram esclarecidas, se por assassinato (teria sido “suicidado”) ou suicídio. Lúcio Opímio, que liderava a oposição a ele, perseguiu ferozmente os movimentos sociais que apoiavam Caio Graco, o que resultou na morte de três mil pessoas.

O mundo gira, a Lusitana roda e a elite não aprende, envenenada por sua ambição desmedida. Felizmente prevalece, ao longo da história, a pedagogia dos oprimidos. É apenas uma questão de tempo.

Frei Betto | Escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros 72 livros, editados no Brasil e vários deles no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org. Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Frei Betto Escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras); “Batismo de sangue” (Rocco); e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros 74 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org. Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.

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