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Foto: X de UNRWA

Geopolítica, mídia hegemônica e ignorância: por uma política de comunicação verdadeiramente plural

As abordagens midiáticas são decisivas em nossa percepção de mundo; por isso é preciso vencer a ignorância generalizada sobre tantas questões da contemporaneidade
Verbena Córdula
Diálogos do Sul
Salvador (BA)

Tradução:

Na última quarta-feira, 17 de abril, em uma aula de Políticas de Comunicação, fui interpelada por um estudante que revelou sentir-se ignorante por não compreender o que está acontecendo entre Israel e Irã. E, a priori, antes de traçar, grosseiramente, um esboço de caminho para que esse estudante alcance um mínimo de compreensão acerca do assunto, disse-lhe que essa ignorância se dá, primordialmente, pelo fato de a maioria da sociedade se informar exclusivamente através dos meios de comunicação hegemônicos, cujas abordagens buscam justamente não oferecer elementos suficientes para a compreensão da geopolítica, mas, ao contrário, apresentar países, regiões, povos, governos não aliados ao Ocidente hegemônico como “emissários do mal”. 

Cada vez mais interconectado e volátil, o mundo se torna, a cada dia, uma espécie de “emaranhado” que, para compreendê-lo, necessitamos nos interessar pelas relações de poder existentes entre os mais variados territórios e, sobretudo, as formas de articulação dessas relações pelos Estados. Ou seja, precisamos nos interessar por geopolítica. E, neste sentido, precisamos nos interessar, também, sobre o papel dos meios de comunicação em seus processos de mediações acerca da geopolítica global.

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Compreender os papéis e as interações entre esses diversos atores é condição sine qua non para compreendermos, por exemplo, os porquês de Israel estar cometendo um verdadeiro genocídio em Gaza, enquanto o mundo (quando digo “o mundo” me refiro à quem detém o poder no mundo) se atém a “discursos polidos” que “aconselham” ao mandatário israelense a cessar-fogo, sem que medidas contundentes sejam adotadas contra o Estado de Israel de modo a forçá-lo a terminar com esse extermínio do povo palestino.

Subservientes aos ditames de Washington

A geopolítica se trata muito mais do que o estudo das fronteiras geográficas ou dos recursos naturais de um país. Entendê-la nos obriga a realizar uma análise profunda das relações de poder, das rivalidades históricas, das alianças estratégicas e dos interesses econômicos e políticos que entrecortam as relações entre as mais variadas nações. Precisamos compreender, principalmente, quem são os atores que compõem esse cenário: desde as potências tradicionais até os Estados emergentes, passando por organizações internacionais, empresas transnacionais, entre outros que desempenham papéis fundamentais nesse emaranhado.

Compreender geopolítica nos torna capazes de decifrar as interconexões entre os eventos locais e globais, como, por exemplo, os porquês de um conflito em uma região distante reverberar em todo o mundo. A geopolítica nos proporciona subsídios necessários à compreensão deste mundo cada vez mais interdependente e complexo, através da decifração do que está por trás das relações internacionais

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Estados Unidos, União Europeia, China e Rússia desempenham papéis dominantes na geopolítica global. Isto, claro, sem deixar de lado seus aliados, que no caso do Ocidente conta com a maioria, embora esse cenário, na atualidade, esteja se redesenhando. Os EUA mantêm sua posição como a superpotência militar e econômica; a União Europeia, ainda que diante de desafios internos, exerce influência significativa através de sua diplomacia econômica e do soft power; mas, de fato, diz “amém” a tudo o que Washington decide. Exemplo disso foram as sanções contra a Rússia após a invasão da Ucrânia, que terminaram em prejuízo principalmente para a Alemanha, que passou a comprar gás a preços bem mais caros (adivinha de quem?), tudo para satisfazer ao Tio Sam. O país germânico, considerado o motor industrial europeu, agora encara um processo de desindustrialização, conforme alguns especialistas. E quem está se beneficiando com tudo isso é a China, sobretudo no setor automotivo, com os carros elétricos “invadindo” o mundo, inclusive o território europeu.

Por outro lado, Brasil, Índia e Turquia desempenham papéis importantes em suas respectivas regiões. Suas economias em crescimento e influência política controlam certas dinâmicas regionais, de modo que esses países têm buscado afirmar sua presença no palco global. No entanto, não nos enganemos. Uma equiparação entre as potências supracitadas ainda está muito longe de acontecer, sobretudo por conta de instabilidades politicas provocadas pela ascensão de governos que não têm essas mesmas aspirações, como no caso da América Latina, que teve um retrocesso político e agora está governada, majoritariamente, por dirigentes subservientes aos ditames de Washington. Fato emblemático ocorreu recentemente, quando o atual presidente da Argentina, Javier Milei, em total demonstração de servidão aos EUA, recebeu a Generala Laura Richardson e lhe entregou “de mãos beijadas” (ou de joelhos, se preferimos) uma licença para instalação de uma base militar, justamente numa área onde se localiza o lítio.

“Mocinhos” e “bandidos”

Ainda na Argentina, esta semana a ministra de Segurança, Patricia Bullrich, afirmou, através da mídia hegemônica, que “células terroristas” estão localizadas justamente no triângulo do lítio (fronteiras entre Argentina, Bolívia e Chile), sem sequer disfarçar, porque o fez dias após seu presidente entregar a área que mencionamos acima para a construção de uma base estadunidense.

E por falar em mídia hegemônica, conforme citamos na introdução deste texto, desempenha papel preponderante no que se refere à visão hegemônica da geopolítica no mundo. E voltando ao sentimento de ignorância do meu estudante, é importante ressaltar que essa mídia influencia a percepção pública, tanto de forma a moldar as agendas políticas, como também na forma como percebemos e interpretamos os acontecimentos globais, em geral, sempre de modo a favorecer aos interesses do Ocidente dominante.

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Os meios de comunicação hegemônicos decidem quais assuntos são importantes e, portanto, merecedores de cobertura jornalística. Costumam destacar determinados temas em detrimento de outros, e isso afeta a percepção pública acerca de quem são “mocinhos” e “bandidos” nas relações internacionais. As abordagens midiáticas constroem discursos que influenciam o modo como os acontecimentos no âmbito da geopolítica são interpretados. Isso pode ser decisivo na maioria das percepções sobre determinados países, líderes políticos ou grupos étnicos, o que afeta não somente as relações entre Estados e a condução de suas políticas externas, mas a maneira como diferentes povos se percebem.

A mídia hegemônica, como as que temos no Brasil, por exemplo, muitas vezes reflete e promove as ideologias dominantes, a ponto de, por exemplo, muitas pessoas confundirem antissionismo e antissemitismo. Essa confusão é proposital e dá forças ao Estado de Israel a cometer atrocidades contra o povo de Gaza, porque todas aquelas pessoas ou Estados que se posicionam contra o que está acontecendo naquela região são taxadas de antissemitas, ou seja, que odeiam judeus, quando na realidade essas pessoas são contrárias às atitudes dos judeus como o Primeiro-Ministro Benjamín Netanyahu, judeus radicais que querem estruturar um Estado Judeu a qualquer custo, como o extermínio dos palestinos, rechaçando a ideia de dois Estados, um judeu e um palestino (só para dar uma explicação simples aqui neste espaço). 

Dois pesos e duas medidas

Essa mesma mídia hegemônica condena o ataque do Irã contra Israel ocorrido na semana passada, mas deixa de contextualizar os motivos que levaram o país persa a adotar tal atitude, como o ataque de Israel à Embaixada iraniana na Síria, no último dia 1 de abril; ou o assassinato do General Seyed Razi Mousavi, em dezembro de 2023, através de um ataque aéreo realizado contra um bairro de Damasco, capital da Síria.

E qual a relação de tudo isso com Políticas de Comunicação? Porque é urgente que o mundo democratize o acesso à informação/comunicação. E isso somente se dará quando os Estados se conscientizem que se faz necessário construir, coletivamente com cada sociedade, política de comunicação democrática, que dê espaço à pluralidade de vozes.

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Na década de 1980, o Relatório MacBride já atentava para a questão. Indicou a necessidade de democratizar a comunicação e, neste sentido, apontou algumas questões, como, por exemplo: que o direito de comunicar é uma extensão lógica do progresso constante em direção à liberdade; que existe uma conexão direta entre a comunicação e todos os direitos que demandam a participação em espaços públicos. O conteúdo do Relatório já nos convocava a debater sobre a sociedade, seus valores e prioridades; e, principalmente, sobre o nosso futuro.

Naquela época, o documento chamava a atenção para o fato de que os Estados deveriam assumir a tarefa de salvaguardar o pluralismo comunicacional, através do financiamento de grupos representativos, para fazer ecoar vozes distintas; ressaltava a importância do valor educativo da informação; advertia sobre o perigo da dominação cultural promovida pela comunicação de massa: “quando predominam os modelos culturais que refletem estilos de vida e valores alheios, a identidade cultural corre perigo”. Chamava a atenção para a questão da concentração, que colocava em perigo a diversidade e pluralidade de vozes; advertia sobre a reivindicação de liberdade de expressão por parte dos meios, e que o mesmo não acontecia em relação aos cidadãos, entre outros aspectos. Todos muito atuais!

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Conhecido por seu título: “Um Mundo e Muitas Vozes”, o Relatório MacBride foi um documento da UNESCO publicado em 1980. Levou esse nome em homenagem ao homem que presidiu a comissão que o redatou, Seán MacBride, um irlandês, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1974. A comissão foi instituída com o objetivo de analisar problemas da comunicação no mundo em sociedades modernas, e sugerir nova perspectiva comunicacional para resolver estes problemas e promover a paz e o desenvolvimento humano.

Como podemos ver, essa demanda ainda se faz necessária. Sem isso, não conseguiremos sair da nossa ignorância generalizada acerca da geopolítica e de tantas outras questões da nossa sociedade contemporânea.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Verbena Córdula Graduada em História, Doutora em História e Comunicação no Mundo Contemporânea pela Universidad Complutense de Madrid e Professora Titular da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, BA.

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