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“Gestapo de Macri” espionou Cristina Kirchner e líderes sindicais para desestruturar oposição

Ex-presidente da Argentina e personalidades do governo foram acusados de espionagem ilegal e perseguição a sindicalistas e opositores
Beatriz Contelli
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Quando no dia 24 de março de 1976 Isabelita Perón foi deposta da presidência da Argentina por um golpe, as Forças Armadas assumiram o país. A partir de então, a nação latino-americana enfrentou um governo centrado na desindustrialização, no endividamento externo, na centralização do poder nas mãos dos militares e no terrorismo de Estado.

Clamando por uma suposta “segurança nacional”, a ditadura argentina promoveu sequestros, torturas, assassinatos, centros de detenção, propagandas anti-comunismo e financiou o treinamento de cerca de três mil oficiais em escolas militares estadunidenses.

Característica de regimes ditatoriais, a espionagem ainda está presente nos governos argentinos após 39 anos do fim da ditadura militar. Filhote de um sistema repressivo e liberal, o ex-presidente Mauricio Macri (2015-19) está sendo investigado por envolvimento em casos de espionagem ilegal e perseguição a sindicalistas e opositores.

Conhecido por “Gestapo macrista”, o esquema de espionagem envolve não só o ex-presidente, como também a ex-governadora de Buenos Aires, Maria Eugenia Vidal, empresários, diretores da Agência Federal de Inteligência (AFI) e o ex-ministro do Trabalho, Marcelo Villegas. Foram divulgados áudios e vídeos em que as personalidades citam nomes dos movimentos sindicais e o que deveria ser feito para impedi-los de continuar atuando.

Argentina vai investigar governo Macri por espionagem e perseguição a sindicalistas e opositores

O termo “gestapo” acabou associado ao esquema por uso do próprio Villegas, ao afirmar em uma das gravações que desejava ter um sistema de espionagem como a Gestapo. Após divulgação dos vídeos, o ex-ministro pediu desculpas e reconheceu o significado negativo da palavra por se referir à polícia nazista alemã que investigava, prendia e torturava opositores. 

As gravações ainda deixam claro como Vidal participou do projeto de espionagem ilegal por toda a cidade de Buenos Aires e que recebia apoio do governo nacional. 

As “bases Amba”, espalhadas pela capital argentina, espionaram os passos de Cristina Kirchner, organizações políticas, sindicatos — principalmente os sindicatos de professores — e organizações de direitos humanos. Funcionaram entre 2016 e 2017 e foram desativadas por suspeita de espionagem contra a própria Maria Eugenia.

Em dezembro de 2021, Macri virou réu por suspeita de espionar as famílias dos 44 marinheiros mortos do submarino militar ARA San Juan em 2017, quando já era presidente. Acredita-se que o submarino tenha sofrido uma explosão antes de desaparecer.

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Macri, que se defendeu afirmando ser uma perseguição política, foi acusado de facilitar a espionagem para obter dados pessoais dos familiares dos tripulantes, inclusive para verificar participações em organizações sociais, sindicais e partidárias. 

As investigações contra Macri, Vidal, Villegas e os restantes presentes seguem em curso, inclusive para entender quem autorizou que as reuniões fossem gravadas.

Histórico do governo Macri

Rodeado por um discurso de caráter populista, Mauricio Macri tomou posse da presidência da Argentina em 2016, após doze anos do governo de Nestor e Cristina Kirchner. 

Ex-presidente da Argentina e personalidades do governo foram acusados de espionagem ilegal e perseguição a sindicalistas e opositores

Casa Rosada
Esquema de espionagem envolve não só ex-presidente, mas ex-governadora de Buenos Aires, Maria Eugenia Vidal

Logo no primeiro ano de mandato, o nome de Macri esteve envolvido em empresas de fachada para encobrir lavagem de dinheiro, evasão fiscal e sonegação de impostos. Suas promessas de livrar o país da “corrupção causada pelos Kirchner” foi se mostrando cada vez mais falha.

Prisões políticas de manifestantes, prisões de líderes sindicais e de grupos sociais, aumento do desemprego, queda de 13 ministérios, utilização das Forças Armadas para segurança interna e políticas liberais beneficiárias aos Estados Unidos, caracterizaram o governo do ex-presidente. 

As medidas macristas afundaram a Argentina em uma profunda crise econômica: cortes na educação e na saúde, aumento de impostos, elevação dos preços dos alimentos e medidas de contenção de gastos pioraram o cenário do país, que já acumulava uma dívida de 50 bilhões de dólares ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em 2019, Mauricio Macri perdeu as eleições presidenciais para Alberto Fernández, que tem Cristina Kirchner como vice.

Beatriz Contelli é jornalista e colabora com a Diálogos do Sul


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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