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Hegemonia global em queda explica desespero dos EUA por controle sobre América Latina

Questionamento do dólar como moeda de intercâmbio universal é sinal inequívoco de que estamos assistindo ao ocaso do império
Juan Pablo Olsson
Página 12
Buenos Aires

Tradução:

Os Estados Unidos transformaram-se em superpotência depois da Segunda Guerra Mundial e consolidaram-se como império hegemônico depois da queda do Muro de Berlim. Atualmente estão em declínio e apostam no controle dos recursos estratégicos da região.

A visita à Argentina de Laura Richardson, Chefe do Comando Sul estadunidense, deve ser lida no contexto de um pronunciado declínio da hegemonia que os Estados Unidos ostentaram desde o final da Segunda Guerra Mundial, quando se estabeleceu a supremacia do dólar como moeda de intercâmbio global no sistema financeiro e comercial internacional.

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Em 1944 realizou-se a conferência entre potências econômicas em Bretton Woods, Estados Unidos, que teve como resultado a proclamação do dólar como moeda de reserva e divisa de referência no comércio mundial. Posteriormente, em 1946, foram criadas duas instituições chave para garantir o controle do sistema de finanças internacional e levar adiante uma agenda de colonialismo financeiro que tendesse a consolidar o poder hegemônico dos Estados Unidos: o Banco Internacional de Reconstrução e Fomento (atualmente conhecido como Banco Mundial) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Teoricamente, o objetivo da criação do primeiro era “reduzir a pobreza e aumentar a prosperidade compartilhada”, enquanto que o FMI se encarregaria de atuar como “autoridade de supervisão do sistema monetário internacional”.

A hegemonia do dólar como moeda de intercâmbio internacional consolidou-se em 1971 com a queda dos acordos de Bretton Woods por decisão do então presidente norte-americano Richard Nixon. O que implicou no rompimento das regras para as relações comerciais e financeiras entre os países e acabou com a garantia em metal como valorização das moedas. Desde então, e até hoje, a moeda norte-americana substituiu o ouro e começou a ampliar as reservas dos Bancos Centrais do mundo. Por sua vez, o comércio de petróleo em dólares colocou a moeda como referência indiscutida no mercado internacional.

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Entre os sinais inequívocos de que estamos assistindo ao ocaso do império norte-americano se encontra no fato de que existe um pronunciado questionamento do dólar como moeda de intercâmbio universal, depois de mais de 80 anos de supremacia não questionada. Com o surgimento de potências que disputam hegemonia com os Estados Unidos, a guerra econômica se apresenta como possibilidade para organizar alianças que geram condições para que o comércio internacional já não se faça unicamente em dólares.

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Em uma perspectiva temporal mais ampla, Washington já vinha de uma grande derrota política depois do fracasso da ALCA




Desdolarização

As repúblicas da Rússia e da China concordaram recentemente em incrementar a presença das  moedas rublos e yuanes nos pagamentos comerciais, investimentos e financiamento entre as duas nações. Negociações que poderiam chegar a 100 bilhões de dólares no final deste ano, para tirar protagonismo da moeda norte-americana. Vladimir Putin e Xi Jinping também previram nas negociações fortalecer a colaboração nos sistemas de pagamento e seguros para melhorar a estrutura de novas áreas de crescimento.

Especificamente, a mútua colaboração em matéria de energia está destinada à compra e venda de petróleo, gás, carvão e eletricidade, e contempla inclusive a exploração de energia renovável, a eficiência energética e os fornecimentos de equipamentos de energia. Concretamente, a maior companhia de gás da Rússia, Gazprom e a Corporação Nacional de Petróleo da China concordaram em usar o rublo e o yuan em seus intercâmbios. De fato, Gazprom projeta construir o “Poder da Sibéria 2”, um gasoduto que abastecerá a China através da Mongólia.

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Estas modificações do regime cambial da China e da Rússia devem levar a uma transformação significativa da ordem monetária internacional. Desde o início da invasão russa da Ucrânia e das sanções internacionais ao país de Vladimir Putin a hegemonia do dólar vem sendo questionada. Há algumas semanas, a própria Gita Gopinath, subdiretora gerente do Fundo Monetário Internacional, advertia que as sanções podiam resultar em uma fragmentação do sistema monetário internacional em que a primazia do dólar fosse se diluindo gradualmente.

Efetivamente, a possível derrubada dos petrodólares, a crise do sistema tradicional financeiro com supremacia dos Estados Unidos e o dólar como reserva mundial, está rachando depois de uma erosão de anos. Isto se deve em parte às constantes sanções que os Estados Unidos impuseram a países como China, Venezuela, Coreia do Norte, Irã e atualmente Rússia. De fato, no cenário geopolítico global, a guerra entre Ucrânia e Rússia aprofundou as tensões políticas existentes entre Oriente e Ocidente, ao mesmo tempo em que expôs a crise da hegemonia do império norte-americano e o aprofundamento da tendência ao renascimento de um novo mundo multipolar.

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Na mencionada reunião bilateral entre China e Rússia, Vladimir Putin afirmou em seu discurso que a Rússia tinha decidido começar a usar o yuan chinês em vez do dólar estadunidense para o comércio com a Ásia, África e América Latina. Esta ação representa uma desdolarização tanto para desligar-se de possíveis sanções por parte dos Estados Unidos, como reforça o yuan chinês na cena internacional. Por sua vez, o Banco Popular da China está muito adiantado com relação a outros grandes bancos centrais no desenvolvimento de uma moeda digital.


Lula desafia os EUA

Por sua vez, Luiz Inácio Lula da Silva desafia os Estados Unidos por meio da relação do gigante sulamericano com a China. Durante seu encontro com o Presidente Xi Jinping, em Pequim, o mandatário brasileiro afirmou que pretende que o Brasil e a China se associem para “equilibrar a geopolítica mundial” e advertiu que “ninguém vai proibir” o aprofundamento das relações entre os dois países.

Em sua visita à China, Lula esteve com o líder da Assembleia Popular, Zhao Leji. Neste encontro assegurou que a geopolítica mundial deve mudar, apoiada tanto na China como no Brasil, no marco de seu discurso sobre a necessária reforma das instituições internacionais com comércio em moedas locais, deixando de lado o dólar.

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Nesse quadro, Lula se apresentou como uma das vozes mundiais dispostas a romper a hegemonia do uso do dólar estadunidense no comércio global e a substituir com o banco de fomento dos Brics, o NDB, as instituições surgidas depois da Segunda Guerra Mundial, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, que acusou de submeter países em desenvolvimento, como a Argentina.

O presidente do Brasil, ao assistir à posse de Dilma Rousseff como presidente do Banco de Desenvolvimento criado pelos Brics, afirmou que “nenhum governante pode governar com uma faca na garganta”. Afirmou que o FMI é uma instituição que “asfixia” países como a Argentina, como no passado fez com o Brasil. Atualmente, a Argentina representa o exemplo mais paradigmático da agenda de colonialismo financeiro imposta pelo FMI: durante o governo de Mauricio Macri outorgou-se a nosso país o maior empréstimo na história do organismo, 45 bilhões de dólares que se destinaram em sua totalidade à fuga de capitais.

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De acordo com o então presidente norte-americano Donald Trump, este empréstimo tinha o objetivo político de apoiar o expresidente Macri nas eleições presidenciais de 2019, que finalmente perdeu para Alberto Fernández como candidato da Frente de Todos. Atualmente o país se encontra em uma profunda crise da dívida e padece os condicionamentos das políticas de ajuste do Fundo Monetário Internacional.

As visitas à Argentina de Laura Richardson, Chefe do Comando Sul e Wendy Sherman do Departamento de Estado norte-americano mostram claramente o papel do FMI como instrumento financeiro dos EUA para condicionar e subordinar os governos. Já afirmara Richardson em sua intervenção em um evento do Atlantic Council. Referindo-se à América Latina afirmou “por que esta região é importante?

Com todos seus ricos recursos e terras raras. Temos o triângulo do lítio, que é necessário para a tecnologia atual. 60% do lítio do mundo está no triângulo do lítio: Argentina, Bolívia e Chile. As maiores reservas de petróleo, cru leve e doce descoberto na Guiana (…) Os recursos da Venezuela também com petróleo, cobre e ouro. Temos os pulmões do mundo, o Amazonas. Também temos 31% da água doce do mundo nesta região. Temos que começar nosso jogo”.

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As palavras de Richardson mostram claramente sua intenção de garantir e aprofundar seu domínio em países estratégicos da região. 

Decadência

Em clara decadência de sua hegemonia como superpotência global, os Estados Unidos buscam evitar um maior enfraquecimento de sua presença na América Latina. O triunfo de Lula sobre Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do Brasil no ano passado significou uma grande derrota de um aliado chave para os interesses dos Estados Unidos. Em uma perspectiva temporal mais ampla, Washington já vinha de uma grande derrota política depois do fracasso da ALCA, do qual nunca pôde se recuperar, por não conseguir lograr seu objetivo de uma integração comercial e financeira de toda a região sob seu controle.

Neste contexto de crise da hegemonia norte-americana, é preciso considerar que a maioria dos países latino-americanos que têm suas economias atreladas ao dólar, entre eles a Argentina, sofrerão um impacto negativo se não ousarem tomar medidas de fundo que modifiquem esta situação de dependência de uma moeda em decadência e em pleno processo de desvalorização.

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Estas tendências impõem grandes questões para a América Latina e para a Argentina em um ano eleitoral decisivo frente ao modelo de país que predomine como resultado da opção triunfante: um modelo de subordinação aos interesses dos Estados Unidos que concebe a região como seu quintal, que atualiza a Doutrina Monroe, onde os recursos estratégicos estejam a serviço dos interesses norte-americanos e que aprofunda o modelo de endividamento com o Fundo Monetário Internacional; ou um modelo de integração autônoma em nível regional e internacional de um mundo que tende à multipolaridade; consolidando um projeto nacional e popular, em defesa de nossa soberania, com mecanismos de redistribuição da riqueza para garantir o bem estar do conjunto da população.

No momento, na agenda de curto prazo, a Argentina deveria somar-se como novo membro ao grupo dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) na reunião que está prevista para agosto deste ano na África do Sul. As nações dos Brics representam em seu conjunto 22% da superfície continental; 24% do PIB mundial, 42% da população mundial e contribuem com 16% das exportações e 15% das importações mundiais de bens e serviços.

Com o ingresso da Argentina o grupo passaria a denominar-se Bricsa, e para nosso país significaria não só um caminho virtuoso em termos de intercâmbio comercial, como de autonomia quanto à subordinação aos interesses coloniais de um império em decadência e aos programas de ajuste estrutural e de austeridade do FMI e do Banco Mundial. Como costumava dizer a socióloga Alcira Argumedo: “estamos diante de uma mudança de época e é preciso estar atentos, porque os impérios em decadência, antes de cair mostram seu pior rosto”.

Juan Pablo Olsson | Sociólogo ambientalista, coordenador na América Latina da Internacional Progressista. Cofundador do movimento global Dívida x Clima.
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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