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Iêmen, povo indomável (II): o impacto geopolítico do bloqueio marítimo e apoio à Palestina

Pela história e localização geográfica, o papel do Iêmen e do movimento houthi é determinante no equilíbrio geopolítico do Oriente Médio
Sergio Rodríguez Gelfenstein
Resumen LatinoAmericano
Buenos Aires

Tradução:

Ana Corbisier

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Os meios de comunicação internacionais plantaram a ideia de que os houthis agem sob a influência do Governo do Irã. Embora nem o Irã nem os houthis tenham negado seu pertencimento a um eixo de resistência ao imperialismo, ao colonialismo e ao sionismo, que também inclui forças políticas do Líbano, Síria, Bahrein e da própria Palestina, simplificar a equação a uma relação de “subordinação” não deixa de ser superficial e banal, tendo em conta o próprio histórico de luta do povo iemenita.

Na Ásia Ocidental, a crescente agressividade de Israel e a presença intervencionista dos Estados Unidos estão polarizando a situação política. O recente acordo do Irã para dirimir diferenças com a Arábia Saudita, assim como outros acordos que aproximaram Egito e Turquia, Catar e Arábia Saudita entre outros – depois de anos de distanciamento – somado à própria paralisação da guerra no Iêmen, aponta para o enfraquecimento do polo imperialista-sionista e o fortalecimento da resistência.

Contexto e o papel do Iêmen

Neste contexto, por história e por localização geográfica, o papel do Iêmen e do movimento houthi é determinante. Vale dizer que o Ansarolá nunca ocultou sua relação com o Irã. Os une seu comum pertencimento ao ramo xiita do islã. Tanto o fundador do movimento Ansarolá como seu irmão, que o dirige hoje, passaram parte de sua vida em Qom (Irã), formando-se política e ideologicamente, ao mesmo tempo em que estudavam a corrente xiita, baseada na ideia de que a sucessão legítima de Maomé pertence aos descendentes de seu genro Ali por oposição aos sunitas que pensam que os sucessores de Maomé deviam ser os companheiros do profeta. Sunita vem de “Ahl al-Sunna”, que se traduz como “a gente da tradição” e xiita provém de “Shiat Ali”, que significa “o partido de Ali”.

Mas isto não significa que os iemenitas sejam simples “acessórios” do Irã. Além do apoio financeiro, militar, comunicacional e político que tem recebido de Teerã, o movimento Ansarolá demonstrou autonomia e decisão própria no projeto e execução de suas ações tanto na guerra contra a Arábia Saudita e seus aliados desde 2015 como agora, no apoio à causa da Palestina.

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Deve-se saber que além de seu auxílio à Palestina, o Iêmen tem um conflito direto com Israel pelo suporte que a entidade sionista deu aos Emirados Árabes Unidos (EAU) durante a guerra que permitiu a ocupação das estratégicas ilhas iemenitas de Socotorá em 2018, que se encontram no mar Arábico a uns 350 quilômetros ao sul da costa do país, a fim de estabelecer uma série de bases de espionagem com o propósito de reunir informação de inteligência em toda a região, em particular no estreito de Bab el-Mandeb.

Algo importante a indicar em relação à base dos EAU e de Israel em Socotorá é que também beneficia os Estados Unidos já que por meio dela poderia controlar o porto de Gwadar no Paquistão que faz parte do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) onde Beijing construiu um porto para que as mercadorias descarregadas ali pudessem ser enviadas por terra à China, particularmente a sua região ocidental.

Ações do Iêmen em apoio à Palestina

Mas, em relação aos fatos atuais, é preciso saber que as ações do Iêmen em apoio à Palestina começaram quase imediatamente depois de 7 de outubro. Em 19 daquele mês, um navio da armada estadunidense derrubou mísseis e drones disparados pelos houthis contra Israel, de acordo com informação do Pentágono publicada naquele momento.

Uns dias depois, em 27 de outubro, seis pessoas ficaram feridas quando dois drones caíram sobre Taba, um povoado egípcio fronteiriço com Israel, depois de sua interceptação por parte da força aérea israelense. Em 31 de outubro, os houthis reivindicaram um ataque com drones contra a entidade sionista. Seu exército informou que interceptou um míssil lançado a partir do sul.

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O porta-voz militar houthi, general Yahya Sari, afirmou em uma declaração televisionada que o grupo lançará um «grande número» de mísseis balísticos e aviões não tripulados sobre Israel e que haveria mais ataques no futuro “para ajudar os palestinos a alcançar a vitória”. Em resposta, o assessor israelense de Segurança Nacional, Tzachi Hanegbi disse que os ataques dos houthis eram intoleráveis, mas não quis dar mais detalhes quando lhe perguntaram como Israel responderia.

Em meados de novembro, o Ansarolá comunicou que suas forças armadas atacaram todos os navios que navegavam com bandeira israelense ou que fossem operados ou propriedade de empresas israelenses. Uns dias depois, o general Sari indicou que “as forças armadas Iemenitas continuam impedindo que os navios de todas as nacionalidades que se dirigem a portos israelenses naveguem pelo mar Arábico e pelo mar Vermelho até que transportem os alimentos e medicamentos de que necessitam os palestinos na Faixa de Gaza”.

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Ante esta decisão e depois dos primeiros ataques a navios que se dirigiam a Israel, quatro grandes empresas de navegação (a maior linha de contêineres do mundo, Mediterranean Shipping Co. [MSC], com sede na Suíça, a dinamarquesa Maersk, a francesa CMA CGM e a alemã Hapag-Lloyd suspenderam a passagem de seus navios pelo mar Vermelho. Estas empresas transportam aproximadamente 53% dos contêineres marítimos do mundo, e cerca de 12% do comércio mundial em termos de volume. É preciso dizer que 30% do tráfego mundial de contêineres passa por Babelmâmdebe.

Em resposta, em 19 de dezembro, os Estados Unidos propuseram-se a criar uma aliança naval a fim de iniciar uma operação que denominaram “Guardião da Prosperidade“, supostamente destinada a “garantir a liberdade de navegação no Mar Vermelho”. De fato, isso significou declarar guerra ao Iêmen e militarizar este mar. Mas o país árabe se manteve firme em sua posição. Suas forças armadas afirmaram que “qualquer ataque contra bens Iemenitas ou contra as bases de lançamento de mísseis do Iêmen tingiria de sangue todo o Mar Vermelho”, assegurando que possuem “armas para afundar seus porta-aviões e destroyers”.

Escalada de ações e o Eixo da Resistência

A escalada das ações a partir de então foi evidente. Em 20 de dezembro, em um discurso, o líder do Ansarolá, Sayyed Abdul Malik Al-Houthi, afirmou que a responsabilidade do mundo islâmico ante o conflito na Palestina era grande, especialmente da região árabe por ser “o coração desse mundo”. Neste sentido, deplorou a posição islâmico-árabe nas cúpulas realizadas para debater o tema, especialmente a que se realizou na Arábia Saudita.

Al Houthi caracterizou como débil este ponto de vista. Afirmou que deveria haver um compromisso dos povos árabes e muçulmanos de apoio à Palestina, ao mesmo tempo que deplorou o enfoque de alguns países sobre o que chamou de “conspiração contra a Palestina”. O líder Iemenita disse que sua nação não esperava dos Estados Unidos e dos países europeus uma posição ou papel positivo quanto à Palestina. Por tais razões, considerou que a perspectiva do Eixo da Resistência deveria elevar o nível de apoio militar à Palestina.

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Nesse quadro, Al Houthi advertiu que o Ansarolá arremeter contra os navios de guerra estadunidenses se suas forças fossem atacadas por Washington depois do lançamento da operação “Guardião da Prosperidade”. Segundo Al Houthi, os Estados Unidos não pretendem proteger a navegação mundial e sim militarizar o espaço marítimo.

Não obstante, os Estados Unidos não obtiveram consenso para levar adiante as missões da aliança naval criada. Houve desacordos com os países árabes convocados para fazer parte da coalizão o que dificultou uma resposta coerente aos ataques dos houthis contra os navios que transitam pelo mar Vermelho. Dois países chave da região, implicados na longa guerra contra o Iêmen —Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita— têm posições opostas em relação aos houthis, o que significou um importante obstáculo para o plano estadunidense de pôr fim aos ataques marítimos. Uma possibilidade cogitada por Washington é dar uma resposta militar aos houthis mas alguns aliados árabes se negaram a isso. Estes preferem insistir na via diplomática e reforçar a proteção marítima aos navios.

Analistas especializados consultados a respeito concordam em mostrar que os objetivos da operação são vagos se considerar que não foram dadas missões precisas aos chefes navais. Além disso, os navios da coalizão, ainda que equipados com armamento avançado, só podem limitar-se a repelir os ataques com mísseis, escoltando os navios mercantes com navios de guerra, o que é questionável uma vez que o arsenal de mísseis do Iêmen é inesgotável à luz das ações empreendidas nos últimos 8 anos, além do que, “nem a direção das empresas de transporte mundiais, nem os capitães dos navios mercantes, nem as seguradoras estarão dispostos a jogar nesta loteria”, segundo disse Iliá Kramnik, especialista russo em forças navais.

Michael Horton, cofundador da Red Sea Analytics International, uma empresa de assessoria independente dedicada a oferecer análises imparciais sobre as dinâmicas de segurança no mar Vermelho, afirmou que os houthis “só empregaram uma parte de suas armas, sem utilizar mísseis de maior alcance, drones mais avançados e minas marinhas difíceis de detectar”.

Normais e persistentes

Nesta situação, o vice-almirante estadunidense Kevin Donegan afirmou que os “Estados Unidos também aceitaram como normais os persistentes ataques […] dos houthis”. Segundo o New York Times, isto leva a que o presidente Biden se veja obrigado a enfrentar uma difícil eleição relacionada com os futuros planos de dissuasão dos houthis. Para isso deve considerar que a Arábia Saudita não busca uma escalada do conflito que poderia prejudicar uma trégua com os rebeldes negociada com muito esforço. Por sua vez, Tim Lenderking, enviado especial dos Estados Unidos para o Iêmen afirmou, em meados de dezembro que “Todo o mundo está buscando uma fórmula para reduzir as tensões”.

Na outra parte do conflito, em 24 de dezembro último, o comandante da Guarda Revolucionária do Irã, major general Hossein Salami anunciou que se poderia avançar para um bloqueio naval total de Israel se se chegasse a fechar o Mar Mediterrâneo, o Estreito de Gibraltar e outras vias navegáveis. Hoje, o Iêmen já conseguiu bloquear quase integralmente o porto israelense de Eilat, situado no Mar Vermelho, que está funcionando só com 15% de sua capacidade. Vale dizer que as forças milísticas do Ansarolá conseguiram atingir um navio israelense em águas profundas do Mar Arábico, perto da Índia, muito longe do território Iemenita. Por sua vez, o Irã conta com drones e mísseis hipersônicos de longo alcance que, em caso de uma guerra total contra o sionismo poderiam apontar facilmente para navios comerciais que se desloquem pelo Mediterrâneo para os portos israelenses.

Na preparação de um combate de outras dimensões contra Israel, o exército do Iêmen anunciou que conta com 20.000 soldados reservistas treinados e dispostos a lutar junto às Forças armadas do país contra a entidade sionista e a coalizão liderada pelos Estados Unidos.

Em 28 de dezembro, o Iêmen advertiu os Estados Unidos e seus sócios sobre a militarização do Mar Vermelho, afirmando que intensificará seus ataques contra os inimigos se continuar o bloqueio a Gaza. Neste contexto, um dia antes, os principais comandantes das Forças Armadas do Iêmen se reuniram para discutir os últimos acontecimentos regionais e rever a disposição combativa das tropas. Ao final do encontro, disseram estar prontos para cumprir as ordens do líder do Ansarolá.

Em 4 de janeiro, depois que um contingente naval Iemenita enfrentou cara a cara as forças militares estadunidenses no Mar Vermelho, com perda de três pequenas embarcações e 10 combatentes, o comandante das Forças de Defesa Costeira do Iêmen, general de divisão Muhammad Al-Qadiri, advertiu que seu país não se reservava o direito de responder, mas que responderia determinando o objetivo em cada caso nas ilhas no Mar Vermelho e “nas bases onde estão estacionados os sionistas e os estadunidenses”.

Se finalmente os Estados Unidos e sua aliança decidirem desafiar diretamente os houthis no Mar Vermelho, enfrentarão uma vasta guerra naval desde o Golfo de Aden, o Mar Arábico e o Oceano Índico. Se isso acontecesse, seria desencadeada uma espiral impossível de deter de confrontações de dimensões incalculáveis.

Em qualquer caso, o Iêmen já conseguiu utilizar sua posição estratégica como força nos equilíbrios globais e impor-se como parte importante na equação de confronto em curso, expressando uma das formas mais valentes de apoio ao povo palestino que enfrenta a máquina de guerra israelense apoiada pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha, constituindo uma importante carta de pressão contra o sionismo e seu mentor norte-americano.

Controlar o Canal de Suez é controlar 90% do comércio mundial, afetando diretamente Israel ao golpear sua economia. Neste sentido, os houthis conseguiram fazer o que Israel e os Estados Unidos tentaram evitar a todo custo até agora: “transformar o genocídio em Gaza em uma crise global”.

O jornalista libanês Khalil Harb, citando o Banco Mundial, em um artigo na revista online The Cradle, afirmou que Israel importa e exporta “quase 99% dos bens por rio e por mar” e mais de ⅓ de seu PIB depende do comércio de bens.

Por sua vez, o jornalista brasileiro especializado em política internacional Eduardo Vasco afirmou que além da incidência direta que está causando o movimento huti na Ásia Ocidental, suas ações estão “paralisando a economia mundial, isto é, o próprio funcionamento do regime capitalista, que está na raiz do problema da guerra de agressão no Oriente Médio”. Neste quadro, Vasco opina que os Estados Unidos e Israel estão limitados para realizar um ataque direto ao Iêmen porque poderia haver represálias contra os aliados dos Estados Unidos na região “principalmente contra suas jazidas de petróleo, o que agravaria brutalmente a crise econômica com uma de petróleo (que já começou). Por esta razão, enquanto os Emirados Árabes Unidos querem ações enérgicas contra os houthis, os sauditas se mostram cautelosos”.

Na última hora e quase a encerrar este artigo, chega a informação de que o Iêmen atacou um navio estadunidense que transportava fornecimentos a Israel, respondendo assim aos recentes ataques estadunidenses contra as forças navais iemenitas.

Respondendo às declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos Anthony Blinken, o vice-ministro de relações exteriores do Iêmen, Hussein Al-Ezzi, ratificou “a segurança da navegação a todos os destinos, exceto os portos da Palestina ocupada”, negando categoricamente as informações falsas divulgadas por Washington, Londres e Berlim em relação à segurança da navegação.

As linhas precedentes dão conta da capacidade e da decisão do povo Iemenita de assumir um protagonismo certo na guerra de Israel contra a Palestina. De fato, tornam patente que, embora sejam um país pequeno e marginalizado global e regionalmente do desenvolvimento econômico, mantêm uma vontade de luta que expressa o sentimento milenar de existir como nação independente, colocando em xeque as principais potências mundiais ao pôr travas e empecilhos para a execução imperial de sua política na região por meio do pleno apoio a Israel.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
Sergio Rodríguez Gelfenstein Consultor e analista internacional venezuelano, formado em Relações Internacionais pela Universidade Central da Venezuela, Magna Cum Laude, e mestre em Relações Internacionais pela mesma universidade. Candidato a Doutor em Estudos Políticos pela Universidad de los Andes (Venezuela)

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