Pesquisar
Pesquisar

Juca Ferreira: destruição da cultura brasileira é o mesmo que destruir o país

Nossa soberania, nosso futuro como povo, nossa singularidade e grandeza cultural estão ameaçados. E a guerra cultural é a mãe de todas as batalhas!
Juca Ferreira
Diálogos do Sul
Brasília (DF)

Tradução:

Uma das estratégias usadas pelos militares na guerra é a que os especialistas chamam de cerco e aniquilamento. Como o nome já anuncia, essa estratégia é usada quando a missão é destruir os inimigos, não deixar pedra sobre pedra no território.

Para chegar a esse objetivo final cercam, enfraquecem, acossam, perseguem, machucam e atormentam até o aniquilamento total.

É essa estratégia que está sendo posta em prática pelo atual governo em sua relação com a cultura brasileira.

Bolsonaro e os que apoiam o governo abertamente, ou desde as sombras, querem “passar a cultura brasileira a limpo”, como se toda a dimensão simbólica do país fosse uma mancha a ser removida com uma água sanitária ideológica, com mecanismos de censura, perseguição e asfixia financeira.

Todo o setor cultural já sente os efeitos dessa belicosidade. Uma tragédia, em meio à barbárie geral que estão tentando implantar no país.

Cannabrava | A ocupação do poder no Brasil se deu por meio de uma guerra cultural

A extinção do ministério da cultura, a tentativa de substituir o IPHAN por uma superintendência, o escárnio na Palmares, o esvaziamento de todas as instituições culturais, o etnocentrismo doentio em relação aos povos indígenas, a suspensão ou esvaziamento das políticas culturais, dos serviços e mecanismos de financiamento, estímulo e apoio à produção cultural, as tentativas de perseguição e censura, o escárnio e a sistemática banalização do mal etc…

A estratégia de cerco e aniquilamento só é posta em prática quando os comandantes das forças de ocupação desejam atingir o cenário de terra arrasada. E, em geral, a destruição é acompanhada de uma alternativa para ocupar o terreno alvo da destruição.

Nossa soberania, nosso futuro como povo, nossa singularidade e grandeza cultural estão ameaçados. E a guerra cultural é a mãe de todas as batalhas!

TT Catalão
Nossa soberania como nação, nosso futuro como povo, nossa singularidade e grandeza cultural está ameaçada

Projeto neoliberal e autoritário

O problema é que o projeto neoliberal e autoritário de direita não tem o que por no lugar da nossa música, do nosso cinema, das artes cênicas, das manifestações culturais tradicionais, da nossa literatura, da nossa dança e de toda a rica e complexa diversidade cultural brasileira.

A ignorância, a mediocridade, a burrice e o vazio distópico está dando as cartas no Brasil, mas não são capazes de produzir um projeto de nação, de propor um futuro, de produzir uma outra cultura.

O resultado é destruição, demolição, desconstrução, tristeza, pessimismo e desalento.

Quem poderá herdar esse cenário, caso ele permaneça por mais tempo, é a indústria cultural globalizada e suas megaempresas supranacionais. Somos um grande mercado cultural, temos talento de sobra, criatividade e uma certa infraestrutura cultural instalada.

E já começa a se desenhar um cenário — no cinema por exemplo — de transformar nossos artistas, técnicos e toda a infraestrutura construída com muito sacrifício pelo setor, por décadas, com o apoio dos nossos governos, em meros prestadores de serviços para a indústria cultural globalizada.

Nossa soberania como nação, nosso futuro como povo, nossa singularidade e grandeza cultural está ameaçada.

A guerra cultural não é um capítulo à parte da tragédia que estamos vivendo. É a mãe de todas as batalhas!

Juca Ferreira é sociólogo e ex-ministro da Cultura nos governos Lula e Dilma Roussef.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na TV Diálogos do Sul

 

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:

  • PIX CNPJ: 58.726.829/0001-56 

  • Cartão de crédito no Catarse: acesse aqui
  • Boletoacesse aqui
  • Assinatura pelo Paypalacesse aqui
  • Transferência bancária
    Nova Sociedade
    Banco Itaú
    Agência – 0713
    Conta Corrente – 24192-5
    CNPJ: 58726829/0001-56

       Por favor, enviar o comprovante para o e-mail: assinaturas@websul.org.br 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Juca Ferreira

LEIA tAMBÉM

Questão-racial-Brasil (1)
Lima Barreto, 13 de maio e a questão racial no Brasil
ASTROJILDOPEREIRA-MGLIMA-2023-OK
O marxismo de Astrojildo Pereira, fundador do Partido Comunista do Brasil (PCB)
Hipátia de Alexandria
O assassinato de Hipátia de Alexandria, a mulher filósofa
Karl Marx (2)
Homem do Milênio, Karl Marx vive na memória de milhões em todo mundo