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Latinos e negros recebem tratamento diferente dos brancos que imigraram aos EUA em 1900

A tentativa de golpe de Estado de 6 de janeiro, as manobras para suprimir o voto, o cultivo do ódio contra imigrantes, são partes de uma ofensiva direitista talvez sem precedentes neste paísde imigrantes brancos
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Para um país fundado sobre o extermínio dos indígenas e a exploração de escravos africanos e depois migrantes para seu desenvolvimento econômico, a cor da pele continua como fator dominante para explicar seu presente.

Hoje em dia, os defensores de um passado definido pela hegemonia branca têm razão em estar alarmados. Segundo cifras recentes do Departamento do Censo dos Estados Unidos, o país se diversificou de maneira significativa nesta última década, com todo o crescimento populacional conformado completamente por latinos, asiáticos, afro-estadunidenses e os que se identificam como de mais de uma raça.

Ainda mais, a população branca pela primeira vez se reduziu durante essa última década. Segundo o censo, o número dos que se identificam como brancos caiu 8,6% a só 58% da população. Demógrafos calculam que aproximadamente em 2045 os brancos serão só uma minoria a mais nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, apesar de conquistas e reformas conseguidas por lutas sociais, o racismo não foi superado – de fato, alguns argumentam que a justiça racial tem retrocedido em anos recentes.

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Proclamações políticas sobre a igualdade racial são contestadas por dados nada ambíguos: os afro-estadunidenses são o maior grupo dos encarcerados (33% quase o triplo dos 12% que representam na demografia nacional); um de cada 3 homens afro-estadunidenses nascidos em 2001 será encarcerado por algum tempo durante suas vidas; um de cada mil homens e jovens negros morrerão em mãos da polícia; uma de cada 3 crianças negras vivem na pobreza; 8 de cada 10 adultos negros com algum nível de estudo universitário declaram haver sido vítima de descriminação racial. Para os latinos, os dados são só um pouco menos terríveis. 

Em quase qualquer rubro socioeconômico, os afro-estadunidenses, latinos e indígenas estão, como sempre, muito abaixo dos demais. E o racismo continua sendo uma das principais ferramentas de políticos para dividir os trabalhadores.  

E mais, não só se pode entender o debate sobre migração – agora e ao longo da história do país – sem a visão de raça. É quase impossível recordar notícias sobre perseguições, detenções em massa, detidos e deportados de imigrantes brancos – e isso que existem, é claro (6% provêm da Europa e do Canadá, segundo o Migration Policy Institute).

A tentativa de golpe de Estado de 6 de janeiro, as manobras para suprimir o voto, o cultivo do ódio contra imigrantes, são partes de uma ofensiva direitista talvez sem precedentes neste paísde imigrantes brancos

REVISTA AFIRMATIVA
Imigrantes indocumentados de hoje, sobretudo latinos e outros “de cor”, padecem de um tratamento dramaticamente diferente

Mais de 44 milhões residentes nos Estados Unidos nasceram em outro país – o número mais alto de imigrantes em qualquer país do mundo, segundo o Pew Research Center. Mas os imigrantes indocumentados de hoje, sobretudo latinos e outros “de cor”, padecem de um tratamento dramaticamente diferente ao que receberam a maioria dos milhões de imigrantes brancos que ingressaram de maneira indocumentada entre 1900 e 1960, os quais não foram submetidos a perseguições e deportações.

As centenas de agrupamentos de ódio – incluindo neonazistas, a Ku Klux Klan e outros supremacistas brancos – são as tropas de choque da direita republicana, e as filas mais ferventes de Trump, que continua cultivando o racismo e o movimento anti-imigrantes. 

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As mais de 250 medidas promovidas por republicanos em 45 estados estão desenhadas para suprimir o voto de cor – de afro-estadunidenses, latinos, indígenas – como de brancos pobres. São os mesmos que acusam que os imigrantes indocumentados estão votando ilegalmente como parte da grande “fraude” inexistente que dizem haver roubado a eleição de Trump. Estão assustados, inclusive prontos para destruir sua própria democracia para “salvar-se” e manter a “sua América”. 

A tentativa de golpe de Estado de 6 de janeiro, as manobras para suprimir o voto, o cultivo do ódio contra imigrantes, são partes de uma ofensiva direitista talvez sem precedentes neste país, e representa a pior ameaça ao que se chama de democracia nos Estados Unidos.  

Mas o futuro deste país é de todas as cores. 

Sly & The Family Stone.  Everyday People

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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