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Marcio Pochmann: Com orçamento do povo corroído por juros, Brasil segue sem futuro

Segundo economista, sistema bancário do país é ímpar quando comparado ao resto do mundo e vive em uma redoma, alheio às agruras humanas
Amaro Augusto Dornelles
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Mesmo o mais cordato correntista já notou – consciente ou inconscientemente – que o sistema bancário do Brasil vive em constante mudança de um ano pra cá. Agências semidesertas, menos trabalhadores – filas, agora, só diante de tótens para autoatendimento. Já o faturamento da rede nacional de bancos – nesta que já foi a sexta economia do mundo – ostenta índices de crescimento estratosféricos – apesar da mortalidade da população em tempos de pandemia e ocupação militar no Palácio do Planalto. Menos impressos, gastos com pessoal, água, luz, cafezinho: tudo cada vez melhor do que antes em agências e quartéis do sempre lembrado Abrantes.

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Pois há quem sustente que a “Farra dos Bancos” é só consequência. Subproduto do modelo rentista adotado no Brasil, onde bancos concentram a riqueza de (ínfima) parte da população. “Sob o ponto de vista eleitoral, existe a possibilidade de alterar a trajetória do Brasil”, insurge-se Marcio Pochmann, professor, geógrafo da Unicamp, diretor da Fundação Perseu Abramo.

Nesta entrevista exclusiva, ele fala de Real virar moeda virtual, sugere à sociedade questionar presidenciáveis sobre o atual modelo econômico do Brasil, entre outras “curiosidades”.

A presença da digitalização na sociedade e na economia, de certa forma, transfere atividades próprias dos bancos para os correntistas (Foto: Política Econômica da Maioria – Facebook)

Rentismo

Desde o início do século XX, há no capitalismo três classes sociais básicas: capitalista ou burguesa, trabalhadora e tecnoburocrata. Na primeira parte desse período, altos tecnoburocratas substituíram empresários na gestão de grandes empresas.

A partir de 1980, capitalistas rentistas – muitos herdeiros – substituíram os empresários na propriedade dessas empresas. Para administrar a riqueza, surgiu uma classe especial de profissionais: os financistas. Jovens brilhantes formados nas melhores universidades, assumiram papel de ideólogos: os intelectuais orgânicos dos rentistas. Eles adotaram o neoliberalismo como ideologia – ou a teoria econômica neoclássica, austríaca, como justificação supostamente científica para impor sua ideologia.

A terceira década do século XXI traz redefinições para aquilo que o ser humano conhece por banco. A instituição deixa seu papel de financiar, ofertar crédito, ligar produção a consumo ou ao próprio investimento. A verdade, incrédulos e crentes, é que o dinheiro como conhecemos tende a desaparecer, tal qual floco de neve sob o sol dos trópicos. A previsão é de Pochmann.

A história não viria de hoje. Estatísticas estimam que apenas cerca de 3% de todo o dinheiro corrente no mundo corresponda a papel moeda. Os demais recursos descritos como moeda estrutural – registra ele, referindo-se a registros contábeis de fluxos financeiros – some no mundo digital.

Natureza do trabalho

O sistema bancário vem passando por mudanças muito significativas. A presença da digitalização na sociedade e na economia, de certa forma, transfere atividades próprias dos bancos para os correntistas, aponta o professor da Unicamp. Basta olhar nas visitas a agências bancárias, cada vez mais raras. E com menos gente.

Conforme lembra o pesquisador, a maioria fica em filas de autoatendimento pedindo explicação para dois ou três bancários multiatarefados, o que atrasa ainda mais as filas e as vidas de quem padece. “Todos usando aplicativos, achando ótimo fazer o trabalho – pelo qual pagam a preço extorsivo”, avalia.

Segundo economista, sistema bancário do país é ímpar quando comparado ao resto do mundo e vive em uma redoma, alheio às agruras humanas

PT.org
Para Pochmann, o problema não são os bancos ou o comércio, mas o modelo econômico em curso, de valorização financeira

Ainda segundo Marcio, o indistinto usuário faz pagamentos, aplicações, recebe recursos sem reclamar. Tudo o que ocorria até então era com papel moeda. Hoje, o especialista assinala, a operação bancária se tornou meramente escritural. De transferência de recursos a pagamentos, recebimentos e assim por diante. O Brasil já estaria vivendo uma mudança no perfil dos trabalhadores financeiros e no próprio número decrescente de agências.

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Pochmann observa que, porém, o trabalho no setor financeiro aumentou: “Os novos trabalhadores não estão vinculados à atividade do banco propriamente dita, mas exercem funções similares”. Como exemplo, ele cita os correspondentes bancários. Em 2014, haveria cerca de 200 mil no País, o equivalente a cerca de 800 mil trabalhadores. Isso sem falar nos consultores, que operam para bancos e agentes financeiros. Tudo isso – garante ele – para chamar a atenção de que há uma alteração significativa na função, no papel do banco – sobretudo quanto à moeda da forma como até aqui conhecemos.

“O BC (Banco Central) já anunciou que estamos nos preparando para o Real ser transformado em uma criptomoeda”, crava o economista. Algo que vem ganhando dimensão com o passar do tempo, sobretudo no setor privado: a moeda virtual foi criada pela iniciativa privada, lembre-se. Já há países que a adotaram como moeda nacional, é o caso da China. No Brasil, não temos criptomoeda. De acordo com Marcio Pochmann, a única inovação que o Banco Central trouxe foi facilitar transações nos aplicativos por Pix – o que reduziu custos e trouxe mudanças significativas do ponto de vista do intercâmbio de pagamentos/recebimentos. 

Por outro lado – adverte o mestre – é preciso ficar atento ao que vem junto. Ele ressalta que o cadastro obrigatório do BC sobre o Pix pode servir para outras finalidades – sobre as quais pouco se sabe. Segundo suas observações, o mercado valoriza como nunca cadastros de indivíduos. “A disputa por eles, como vem acontecendo no Brasil, é preocupante”, adverte. Principalmente quando se observa a maneira pela qual o atual regime trata a corrupção dentro e fora da administração pública, diga-se de passagem.


Câncer, agiotagem e juros

Os bancos no Brasil vivem em berço esplêndido desde a era FHC e o emblemático Programa de Auxílio aos Bancos, o Proer. É como se donos de banco vivessem dentro de uma redoma, alheios às agruras humanas. Sombra e água fresca, nada de turbulência. O sistema bancário sempre colhe resultados satisfatórios, constata Marcio. Ele acha constrangedor ter de reconhecer que o Brasil – em vias de completar 8 anos sem crescimento econômico, depois de enfrentar recessão profunda em 2020 – tem bancos com taxas de crescimento tão extraordinárias.

De acordo com ele, o sistema bancário do Brasil é ímpar quando comparado ao resto do planeta. “Até mesmo quando se compara as taxas de juros cobradas, no Brasil, elas são incomparáveis”, indigna-se. Para o docente da Unicamp, ao se comparar bancos estrangeiros em operação no Brasil – com suas filiais em outros países – se percebe facilmente o diferencial dos juros. Ele não deixa por menos: “Trata-se de um câncer que vem contaminando as finanças do Brasil, extraindo riqueza, renda, salário de trabalhadores, aposentados”, dispara.

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O doutor em Ciências Econômicas observa ainda que o Brasil é um país onde o endividamento tornou-se característica no período recente. A estimativa é de que 4/5 das famílias brasileiras estejam endividadas atualmente. Quanto maior a taxa de juros, maior o custo para quem tomou o empréstimo, ou que já esteja endividado, ensina Marcio. Em sua avaliação, essas são algumas das formas de enriquecimento de uma parcela muito pequena da população, que extrai resultados extremamente exitosos através da agiotagem e juros exorbitantes.


Ganho financeiro e expropriação

Grande parte do comércio no Brasil tem sido operado por empresas não financeiras, sustenta o teórico. Mas a verdade é que elas operam como bancos, na medida em que vendem os produtos através do comércio em prestação, cuja taxa de juros embutida – para vender no parcelamento – é muito significativa. Competiria, inclusive, com o sistema bancário.

Em seu modo de entender, o problema não são os bancos ou o comércio. O entrave seria o modelo econômico em curso, de valorização financeira, de estoque de riquezas velhas: “Não há novo investimento para ampliar a riqueza. A riqueza velha dos ‘donos do Brasil’ tem sido ampliada por uma espécie de plataforma financeira, que decorre dos bancos e da forma pela qual se realiza o comércio”, aponta o diretor da Fundação Perseu Abramo, que acrescenta que, através das prestações, famílias seriam levadas ao endividamento extremo.

País com parte significativa do orçamento da nação comprometida com juros da dívida segue modelo sem futuro, pelo menos para o conjunto da população, indica Pochmann. Quem ganha mesmo são os ultra ricos. Eles prosperam quase sempre expropriando ainda mais através dos ganhos financeiros.

A possibilidade de alterar a trajetória econômica do Brasil no momento atual seria reduzida, ainda mais quando se analisa a questão sob o ponto de vista eleitoral. Segundo Marcio, o modelo econômico rentista faz com que bancos concentrem a riqueza de parte da população. Esse seria o momento para perguntar aos candidatos à eleição presidencial se alguém se habilita a mudar a política econômica. Se justificaria uma campanha eleitoral explicando à população o papel que hoje tem o sistema financeiro. E como deveria mudar. Esse é o debate estratégico, fundamental, que deveria ser feito em 2022.

(Reprodução Facebook)

Gaúcho de Venâncio Aires (RS) e nascido em 19 de abril de 1962, Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político. Presidente da Fundação Perseu Abramo, de 2012 a 2020, e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, de 2007 a 2012, foi secretário municipal de São Paulo de 2001 a 2004. Filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), doutor em Ciências Econômicas e professor da Unicamp desde 1989. Trabalha em diversas instituições de ensino, faz pesquisa em universidades europeias e consultoria. Autor de dezenas de livros sobre economia, desenvolvimento e políticas públicas. Em 2002, foi vencedor do Prêmio Jabuti. Para entender mais sobre o tema, leia “Os Ricos e Poderosos”, de Marcio Pochmann e Reginaldo Moraes, Fundação Perseu Abramo.

Amaro Augusto Dornelles é jornalista e colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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