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Menos marxismo, mais ideologia burguesa: como CIA manipula esquerda ocidental há 70 anos

Com ecletismo cultural e pirotecnia discursiva, filósofos se propuseram a criar revoluções imaginadas que em nada mudam a realidade
Zhao Dingqi
Nova York

Tradução:

Gabriel Rockhill, filósofo, escritor, crítico cultural, ativista franco-americano e professor de filosofia na Villanova University, na Pensilvânia, entrevistou Zhao Dingqi, assistente de pesquisa no Instituto de Marxismo da Academia Chinesa de Ciências Sociais e editor de Estudos Socialistas Mundiais.

Na conversa, eles debatem a guerra cultural capitaneada pelos EUA contra marxismo e o envolvimento entre a CIA e a classe dominante capitalista estadunidense, além de apontarem como a ideologia burguesa se aproveita do identitarismo e o multiculturalismo para enfraquecer a luta de classe e dividir a esquerda sem abordar os fundamentos materiais da colonização, do racismo e da opressão de gênero. Confira.

* * *

Zhao Dingqi: Está a terminar um livro acerca da chamada “Guerra Fria Cultural”. Que atividades os Estados Unidos e a CIA realizaram nesse tipo de conflito, que é tão diferente dos habituais?

Gabriel Rockhill: A CIA empreendeu, juntamente com outras agências estatais e fundações das grandes corporações capitalistas, uma guerra fria cultural multifacetada destinada a conter (e, em última análise, repelir e destruir) o comunismo. Essa guerra de propaganda era de âmbito internacional e tinha muitos aspectos diferentes, dos quais mencionarei apenas alguns abaixo.

No entanto, é importante notar que, apesar de seu amplo alcance e dos extensos recursos a ela dedicados pela CIA, perdeu muitas batalhas ao longo desta guerra. Para dar apenas um exemplo recente, demonstrando como esse conflito continua até hoje, Raúl Antonio Capote revelou em seu livro de 2015 que trabalhou para a CIA durante anos nas suas campanhas de desestabilização de Cuba voltadas especificamente para intelectuais, escritores, artistas e estudantes. Este professor universitário cubano que a CIA considerava que estava a enganar estava na verdade a enganar os arrogantes espiões americanos: ele trabalhava disfarçado para a inteligência cubana. [1]

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Este é apenas um sinal entre muitos de que a CIA, apesar de suas várias vitórias, continua a travar uma guerra difícil de vencer, enquanto tenta impor uma ordem mundial hostil à esmagadora maioria da população do planeta.


Congresso para a Liberdade Cultural  

Uma das peças centrais da guerra fria cultural foi o Congresso para a Liberdade Cultural (CCF), que em 1966 foi revelado como uma frente da CIA.[2] Hugh Wilford, que pesquisou extensivamente o assunto, descreveu o CCF como nada menos que um dos maiores mecenas da arte e da cultura na história do mundo. [3]

Fundada em 1950, promoveu no cenário internacional o trabalho de estudiosos colaboracionistas como Raymond Aron e Hannah Arendt acima e contra seus rivais marxistas, incluindo nomes como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

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O CCF tinha escritórios em 35 países, mobilizou um exército de cerca de 280 funcionários, publicou ou apoiou cerca de 50 revistas de prestígio e organizou inúmeras exposições de arte e cultura, bem como concertos e festivais internacionais.

Durante a sua vida, ele também planejou ou patrocinou cerca de 135 conferências e seminários internacionais, trabalhando com um mínimo de 38 instituições, e publicou pelo menos 170 livros. Seu serviço de imprensa, o Forum Service, difundiu gratuitamente e em todo o mundo relatos de intelectuais venais em 12 idiomas, que alcançaram 600 jornais e cinco milhões de leitores.


Nossa grande família

Esta vasta rede global era o que seu diretor, Michael Josselson, chamava – numa expressão que lembra a máfia – de “nossa grande família”. A partir da sua sede em Paris, o CCF tinha à sua disposição uma riqueza de recursos destinados a amplificar a voz de intelectuais, artistas e escritores anticomunistas. Seu orçamento em 1966 foi de US$ 2.070.500, o que corresponde a US$19,5 milhões em 2023. No entanto, a “grande família” de Josselson era apenas uma pequena parte do que Frank Wisner, da CIA, chamou de “poderoso Wurlitzer“: a máquina de programação cultural e de mídia internacional controlada pela Companhia.

Para citar apenas alguns exemplos desse gigantesco quadro de guerra psicológica, Carl Bernstein reuniu amplas evidências para mostrar que pelo menos 400 jornalistas americanos trabalharam subrepticiamente para a CIA entre 1952 e 1977. [4]

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Após essas revelações, o New York Times lançou uma investigação e concluiu que a CIA “engloba mais de 800 organizações e indivíduos de notícias e informações públicas”. [5] Estas duas denúncias foram publicadas nos media do establishment por jornalistas que trabalham nas mesmas redes que estavam analisando, então essas estimativas provavelmente eram baixas. Arthur Hays Sulzberger, editor do New York Times de 1935 a 1961, trabalhou tão de perto com a Agência que assinou um acordo de confidencialidadeColumbia Broadcasting System (CBS) de William S. Paley foi, sem dúvida, o maior trunfo da CIA no campo da radiodifusão. Ele trabalhou tão intimamente com a Companhia que criou uma linha direta telefônica para a sede da CIA que contornava seu operador central.

Por outro lado, a empresa Time Inc., de Henry Luce, foi uma colaboradora tão poderosa no campo da comunicação que disponibilizou revistas como LifeFortune e Sports Illustrated para a CIA. Luce concordou em contratar agentes da CIA como jornalistas, o que se tornou uma cobertura muito comum.


Public Affairs Office da CIA

Como sabemos de Robert Gates, diretor da CIA em 1991, este tipo de prática continuou inabalável após as revelações mencionadas acima: “O PAO (Public Affairs Office da CIA) agora tem relações com jornalistas de todos os principais serviços de notícias, jornais, semanários de notícias e redes de televisão do país… Em muitos casos, convencemos jornalistas a adiar, mudar, reter ou até mesmo descartar matérias”. [6]

A CIA também ganhou o controle da American Newspaper Guild, e tornou-se proprietária de serviços de imprensa, revistas e jornais que usava como fachada para seus agentes. [7] Colocou agentes em serviços de imprensa, como LATIN, Reuters, Associated Press e United Press International.

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William Schaap, um especialista em desinformação, testemunhou que a CIA “possuía ou controlava cerca de 2.500 meios de comunicação em todo o mundo. Além disso, tinha em sua folha de pagamento correspondentes, jornalistas e editores de destaque, em praticamente todos os grandes meios de comunicação. [8]

“Tínhamos pelo menos um jornal em cada capital estrangeira em um determinado momento”, disse uma fonte de inteligência ao repórter John Crewdson. Além disso, ele explicou que: “naqueles meios de comunicação que não eram de propriedade ou subsidiados pela Companhia, a agência se infiltrava com agentes pagos que podiam publicar histórias úteis à CIA”. [9]


Era digital

Na era digital, esse processo, é claro, continuou. Yasha Levine, Alan MacLeod e outros estudiosos detalharam o amplo envolvimento da “segurança nacional” dos EUA no âmbito das big techs e dos media sociais. Eles mostraram, entre outras coisas, que os principais operadores de inteligência ocupam posições-chave no Facebook, X (Twitter), TikTok, Reddit e Google. [10]

A CIA também se infiltrou na intelecturalidade profissional. Quando o Comité Church publicou seu relatório sobre a comunidade de inteligência dos EUA (1975), a Agência admitiu que estava em contacto com “muitos milhares” de académicos em “centenas” de instituições e que nenhuma reforma a impediu de continuar ou expandir essa prática, como confirmado pelo Memorando de Gates de 1991.  [11]

Os institutos russos de Harvard e Columbia, como o Hoover Institution de Stanford e o Center for International Studies do MIT, foram desenvolvidos com o apoio direto e supervisão da CIA. [12]

Um membro da New School for Social Research divulgou recentemente uma série de documentos confirmando que a CIA participou da Operação Paperclip, que trouxe cerca de 1.600 cientistas, engenheiros e técnicos nazistas para os Estados Unidos. [13]


Operação MKULTRA e o mundo da arte

A Operação MKULTRA foi um dos programas da Agência que se envolveu, entre outras atividades, na realização de experimentos sádicos de tortura e lavagem cerebral em indivíduos que receberam altas doses de drogas psicoativas e outros produtos químicos em combinação com eletrochoques, hipnose, privação sensorial, abuso sexual e outras formas de tortura.

A CIA também esteve profundamente envolvida no mundo da arte. Por exemplo, ela promoveu a arte americana, particularmente o expressionismo abstrato, contra o realismo socialista.  [14] Financiou exposições internacionais de arte, apresentações musicais e teatrais na tentativa de difundir o que é alardeado como “arte livre”.

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Para dar apenas um exemplo revelador, um dos principais responsáveis da CIA envolvidos na guerra fria cultural, Thomas W. Braden, foi secretário-executivo do Museu de Arte Moderna (MoMA) antes de ingressar na Agência. Entre os presidentes do MoMA está Nelson Rockefeller, que se tornou o super-coordenador de operações clandestinas de inteligência e permitiu que o Fundo Rockefeller fosse usado como um canal para o dinheiro da CIA.

Entre os diretores do MoMA estava René d'Harnoncourt, que havia trabalhado para a agência na América Latina. John Whitney e Julius Fleischmann fizeram parte do conselho de administração do MoMA. O primeiro havia trabalhado para a organização antecessora da CIA, o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS), e permitiu que sua instituição de caridade fosse usada como um canal para o dinheiro da CIA. William S. Paley, presidente da Fundação Farfield da CIA, foi presidente da SBC e uma das principais figuras dos programas americanos de guerra psicológica, ele também serviu no conselho de diretores do MoMA.


Estreita colaboração

Tudo isso indica que as redes da classe dominante capitalista trabalham em estreita colaboração com o Estado de segurança nacional dos EUA para controlar rigidamente o aparato cultural. Muitos livros foram escritos sobre o envolvimento do Estado norte-americano na indústria do entretenimento. Matthew Alford e Tom Secker documentaram que o Departamento de Defesa esteve envolvido em apoiar – com direitos de censura total e absolutos – um mínimo de 814 filmes, a CIA censurou um mínimo de 37 e o FBI o restante.

Quanto aos programas de televisão, alguns dos quais duraram muito tempo, o Departamento de Defesa tem 1.133, a CIA 22 e o FBI 10.

Além desses casos quantificáveis, há, é claro, a relação qualitativa entre o estado de segurança nacional e o “entretenimento”. John Rizzo explicou em 2014: “A CIA tem há muito tempo uma relação especial com a indústria do entretenimento, dedicando atenção considerável à promoção de relacionamentos com Hollywood, de executivos de estúdio, produtores, diretores a grandes atores”. [16]

Tendo servido como Conselheiro Geral Interino da CIA nos primeiros nove anos da guerra ao terror, J. Rizzo esteve intimamente envolvido na supervisão de programas globais de entregas, tortura e assassinato com drones, Rizzo trabalhou para a indústria cultural para encobrir a carnificina imperial.


Império do espetáculo

Essas atividades e muitas outras revelam uma das principais características do império americano: é um verdadeiro império do espetáculo. Um dos seus principais focos tem sido a guerra pelos corações e mentes das pessoas. Para isso, estabeleceu uma infraestrutura global a fim de conduzir a guerra psicológica internacional.

O controle quase absoluto que exerce sobre os grandes media foi claramente visível na recente campanha destinada a angariar apoio para a guerra por procuração dos EUA contra a Rússia na Ucrânia.

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O mesmo se aplica à sua virulenta propaganda anti-China 24 horas por dia, 7 dias por semana. No entanto, graças ao trabalho de tantos ativistas e ao fato de que suas ações vão contra a realidade, o império do espetáculo é incapaz de controlar completamente a narrativa. [17]

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Com ecletismo cultural e pirotecnia discursiva, filósofos se propuseram a criar revoluções imaginadas que em nada mudam a realidade

Foto: Gilbert Mercier/Flickr
Política identitária deu contribuição importante para dividir a esquerda em debates isolados sobre questões identitárias específicas

Mencionou num dos seus artigos que agentes da CIA estavam interessados nas teorias críticas francesas de Michel Foucault, Jacques Lacan, Pierre Bourdieu e outros. Qual o motivo desse interesse? Como você classificaria a teoria crítica francesa?

Uma das principais frentes da guerra cultural contra o comunismo tem sido a guerra intelectual, que é tema de um livro que estou a acabar atualmente para a Monthly Review Press. A CIA desempenhou um papel muito importante, assim como outras agências governamentais e os intelectuais da classe dominante capitalista. O objetivo geral tem sido desacreditar o marxismo e minar o apoio às lutas anti-imperialistas, bem como ao socialismo realmente existente.

A Europa Ocidental tem sido um campo de batalha particularmente importante. Os Estados Unidos haviam emergido da Segunda Guerra Mundial como a potência imperial dominante. Na tentativa de exercer hegemonia global, pretendiam adicionar as antigas potências imperialistas da Europa Ocidental como parceiros juniores (assim como o Japão no Oriente).

No entanto, isso se mostrou particularmente difícil em países como França e Itália, que tinham fortes partidos comunistas. Assim, o Estado de segurança nacional dos EUA lançou um ataque multifacetado para se infiltrar em partidos políticos, sindicatos, organizações da sociedade civil e na grande mídia. [18]

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Ela até criou exércitos secretos, formados por neofascistas, e planejou golpes militares caso os comunistas chegassem ao poder através das urnas (esses exércitos foram ativados após 1968 cometendo ataques terroristas contra a população civil que foram atribuídos aos comunistas). [19]

Na frente mais explicitamente intelectual, a elite do poder dos EUA apoiou o estabelecimento de novas instituições educacionais e redes internacionais de produção de conhecimento decididamente anti-comunistas na esperança de desacreditar o marxismo. Promoveu e deu visibilidade a intelectuais abertamente hostis ao materialismo histórico e dialético, ao mesmo tempo em que realizou uma campanha de difamação contra figuras como Sartre e Beauvoir. [20]

É nesse contexto que a teoria francesa deve ser entendida, pelo menos parcialmente, como um produto do imperialismo cultural americano. Pensadores filiados a esse campo (Foucault, Lacan, Gilles Deleuze, Jacques Derrida e muitos outros) foram associados ao movimento estruturalista, que foi amplamente definido em oposição ao filósofo mais proeminente da geração anterior: Sartre.  [21]


Sartre

A orientação marxista de Sartre a partir de meados da década de 1940 e o anti-hegelianismo e o anti-marxismo tornaram-se a ordem do dia. Foucault, para dar apenas um exemplo, chamou Sartre de “o último marxista” e afirmou que ele era um homem do século XIX que estava em descompasso com os tempos (anti-marxistas), representados por Foucault e outros teóricos de seu tempo. [22]

Se bem que alguns desses pensadores tivessem ganho notoriedade na França, foi sua promoção nos Estados Unidos que os catapultou para os holofotes internacionais e os tornou leitura obrigatória para a intelectualidade global.

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Num artigo recente na Monthly Review, pormenorizei algumas das forças políticas e econômicas por trás do evento que se sabe ter “inaugurado” a era da teoria francesa: a conferência de 1966 na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, que reuniu muitos desses pensadores pela primeira vez. [23]

A Fundação Ford, que vinha cofinanciando o “Congresso para a Liberdade Cultural” em conjunto com a CIA, financiou a conferência em US$36 mil (US$ 339 mil de hoje). Essa é uma quantia realmente extraordinária de dinheiro para uma conferência universitária, sem mencionar o fato de que a Time e a Newsweek garantiram cobertura da imprensa, algo praticamente inédito em ambientes acadêmicos. [24]


Substituto para o marxismo

Fundações capitalistas, a CIA e outras agências governamentais estavam interessadas em promover obras que pudessem servir como um substituto para o marxismo. Como não podiam simplesmente destruí-la, procuravam fomentar novas teorias que pudessem ser vendidas como vanguardistas e críticas (embora desprovidas de qualquer substância revolucionária), a fim de enterrar o marxismo como antiquado.

Como sabemos agora de um artigo de pesquisa de 1985 sobre o assunto, a Agência ficou encantada com as contribuições do estruturalismo francês, bem como da Escola dos Annales e do grupo conhecido como Novos Filósofos. Citam, em particular, o estruturalismo de Foucault e Claude Lévi-Strauss, bem como a metodologia da Escola dos Annales.

A pesquisa chega à seguinte conclusão: “acreditamos que a demolição crítica da influência marxista nas ciências sociais provavelmente perdurará ao longo do tempo como resultado da profunda contribuição aos estudiosos modernos”. [25]

Quanto à minha própria avaliação da teoria francesa, eu diria que é importante reconhecê-la pelo que ela é: um produto (pelo menos em parte) do imperialismo cultural americano, que busca deslocar o marxismo por meio de uma prática teórica anti-comunista da ideologia burguesa.

Com ecletismo cultural e pirotecnia discursiva, esses filósofos se propuseram a criar revoluções imaginadas que nada mudam na realidade. A teoria francesa reabilita e promove a obra de filósofos como Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger, tentando assim discretamente redefinir o termo radical como radicalmente reacionário.


Abordagem francesa do marxismo

Quando os teóricos franceses abordam o marxismo, eles o transformam num discurso, que pode (e até deve) ser misturado com discursos não marxistas e anti-dialéticos, como a genealogia nietzschiana, a desconstrução heideggeriana, a psicanálise freudiana, etc.

É por essa razão que muitos desses pensadores reivindicam a propriedade sobre “seu próprio Marx”, o que às vezes produz a ilusão de que eles são de alguma forma marxistas.

No entanto, sua tendência comprovada é extrair arbitrariamente da obra de Marx elementos muito específicos que eles supõem ressoar com sua própria marca filosófica. É o caso, por exemplo, do fantasmático Marx literário de Derrida, do Marx nômade desterritorializante de Deleuze, do Marx anti-dialético de Jean-François Lyotard e outros exemplos semelhantes.

O discurso de Marx funciona, para eles, como material dentro do cânone burguês ao qual eles podem se basear ecleticamente para desenvolver sua própria marca e dar-lhe uma aura de capacidade e radicalidade.

Walter Rodney resumiu a verdadeira natureza dessa prática teórica ao explicar que “o pensamento burguês, por sua natureza caprichosa e pela maneira como estimula os excêntricos, pode tomar qualquer caminho, porque, afinal de contas: já que não vais a lugar nenhum, podes escolher qualquer caminho! [26]

A Escola de Frankfurt também tem uma ampla influência na China contemporânea. Como classificaria as teorias da Escola de Frankfurt? Que tipo de conexão tem com a CIA?

O Instituto de Pesquisa Social, coloquialmente conhecido como a “Escola de Frankfurt”, surgiu originalmente como um centro de pesquisa marxista na Universidade de Frankfurt financiado por um capitalista milionário. Quando Max Horkheimer assumiu como diretor do Instituto em 1930, ele supervisionou uma virada decisiva para preocupações especulativas e culturais cada vez mais distantes do materialismo histórico e da luta de classes.

Nesse sentido, a Escola de Frankfurt, sob Horkheimer, desempenhou um papel fundamental no estabelecimento do que é conhecido como marxismo ocidental e, mais especificamente, marxismo cultural. Figuras como Horkheimer e Theodor Adorno, não apenas rejeitaram o socialismo realmente existente, mas identificaram-no diretamente com o fascismo por acreditarem cegamente – assim como a teoria francesa – na categoria ideológica do totalitarismo. [27]

Adotando uma versão altamente intelectualizada do que mais tarde ficaria conhecido como TINA (“There Is No Alternative”), eles se concentraram no reino da arte e da cultura burguesas como talvez o único local potencial de salvação. Isso porque pensadores como Adorno e Horkheimer, com algumas exceções, eram em grande parte idealistas em sua prática teórica: se a mudança social era excluída no mundo prático, a libertação deveria ser buscada no âmbito geistig (isto é, intelectual e espiritual) do romance, do pensamento burguês inovador e da cultura burguesa.

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Esses sumos sacerdotes do marxismo ocidental não apenas abraçaram o mantra ideológico capitalista de que “fascismo e comunismo são a mesma coisa”, mas também apoiaram publicamente o imperialismo.

Horkheimer, por exemplo, apoiou a guerra dos EUA no Vietnã, proclamando em maio de 1967 que “Os Estados Unidos, quando necessário, devem conduzir uma guerra… não tanto como uma questão de defesa da pátria, mas essencialmente como uma questão de defesa dos direitos do homem”. [28]

Embora Adorno muitas vezes preferisse uma política de cumplicidade silenciosa a tais declarações belicosas, ele se alinhou com Horkheimer no apoio à invasão imperialista do Egito em 1956 por Israel, Grã-Bretanha e França, que buscava derrubar Gamal Abdel Nasser e tomar o Canal de Suez. [29] Adorno chamou Nasser de “chefe fascista… que conspira na companhia de Moscovo com “Estados árabes ladrões”. [30]


Escola de Frankfurt

Os líderes da Escola de Frankfurt beneficiaram-se com o apoio da classe capitalista norte-americana e do Estado de segurança nacional. Horkheimer participou de pelo menos uma das principais conferências do CCF, e Adorno publicou artigos em revistas apoiadas pela CIA.

Adorno também se correspondeu e colaborou com a principal figura do anti-comunista alemão KulturKampf. Os testas-de-ferro de Frankfurt também receberam financiamento significativo da Fundação Rockefeller e do governo dos EUA (Rockefeller contribuiu com US$103.695 em 1950, o equivalente a US$1,3 milhão em 2023).

Tal como os teóricos franceses, eles estavam fazendo o tipo de trabalho intelectual que os líderes do império americano queriam apoiar e apoiaram.

Também vale a pena notar de passagem que cinco dos oito membros do círculo íntimo de Horkheimer na Escola de Frankfurt trabalharam como analistas e propagandistas para o governo dos EUA e para o estado de segurança nacional. Herbert Marcuse, Franz Neumann e Otto Kirchheimer trabalharam no Gabinete de Informação de Guerra (OWI) antes de se mudarem para o Ramo de Pesquisa e Análise da OSS. *

Leo Löwenthal também trabalhou para a OWI e Friedrich Pollock foi contratado pela Divisão Antitruste do Departamento de Justiça. Era uma situação bastante complexa devido ao fato de que certos setores do Estado norte-americano estavam interessados em recrutar analistas marxistas na luta contra o fascismo e o comunismo.

Ao mesmo tempo, alguns deles assumiram posições políticas compatíveis com os interesses imperiais dos EUA. Portanto, este capítulo da história da Escola de Frankfurt merece uma análise muito mais pormenorizada. [31]

Finalmente, a evolução da Escola de Frankfurt na sua segunda (Jürgen Habermas) e terceira geração (Axel Honneth, Nancy Fraser, Seyla Benhabib, etc.) não alterou em nada sua orientação anti-comunista. Ao contrário, Habermas afirmava explicitamente que o socialismo de Estado estava falido e defendia a criação de espaço dentro do sistema capitalista e de suas instituições supostamente democráticas para um “procedimento discursivo de formação da vontade” inclusivo. [32]

Os neo-habermasianos da terceira geração continuaram essa orientação. Honneth, como argumentei num artigo minucioso que também aborda os outros pensadores em discussão, erigiu a mesma ideologia burguesa no arcabouço normativo da teoria crítica. [33]

Fraser apresenta-se como o mais à esquerda dos teóricos críticos ao posicionar-se como um social-democrata. No entanto, ela costuma ser bastante vaga quando se trata de esclarecer o que isso significa em termos concretos, admitindo abertamente que acha “difícil definir um programa positivo”. [34] No entanto, o programa negativo é claro: “Sabemos que [o socialismo democrático] não significa nada como a economia de comando autoritária e o modelo de partido único do comunismo”. [35]

Como entende o papel e a função das políticas identitárias e do multiculturalismo, que atualmente prevalecem na esquerda ocidental?

As políticas identitárias, assim como o multiculturalismo a ela associado, são uma manifestação contemporânea do culturalismo e do essencialismo que há muito caracterizam a ideologia burguesa. Este último busca naturalizar as relações sociais e econômicas que são consequência da história material do capitalismo.

Ao invés de reconhecer, por exemplo, que formas de identidade racial, nacional, étnica, de gênero, sexual e outras são construções históricas que variaram ao longo do tempo e são resultados de forças materiais específicas, elas são naturalizadas e tratadas como base inquestionável para a política eleitoral.

Tal essencialismo serve para obscurecer as forças materiais em ação por trás dessas identidades, bem como as lutas de classes que têm sido travadas em torno delas. Isso tem sido particularmente útil para a classe dominante e seus líderes, que reagiram ideologicamente armados às demandas da descolonização e das lutas anti-racistas e anti-patriarcais.

Que melhor maneira de responder do que com uma política identitária essencialista que propõe falsas soluções para problemas muito reais porque nunca aborda os fundamentos materiais da colonização, do racismo e da opressão de gênero?

As autoproclamadas versões anti-essencialistas das políticas identitárias na obra de teóricos como Judith Butler não rompem fundamentalmente com essa ideologia. [36] Ao tentar desconstruir algumas dessas categorias, revelando-as como construções discursivas de grupos de indivíduos que podem questionar, brincar e reinterpretar, os teóricos que trabalham dentro dos parâmetros idealistas da desconstrução nunca fornecem uma análise materialista e dialética da história capitalista e das relações sociais que produziram essas categorias na luta coletiva de classes.

Tampouco se engajam na história profunda da luta coletiva do socialismo realmente existente para transformar essas relações. Em vez disso, tendem a recorrer à desconstrução e a uma versão virtualmente des-historicizada da genealogia foucaultiana para pensar discursivamente sobre gênero e relações sexuais e, na melhor das hipóteses, orientar-se para um pluralismo liberal em que a luta de classes seja substituída pela defesa de grupos de interesse.

Pelo contrário, a tradição marxista – como mostrou Domenico Losurdo em sua obra magistral A luta de classes – tem uma história profunda e rica na compreensão da luta de classes no plural. Isso significa que inclui batalhas sobre a relação entre gêneros, nações, raças e classes econômicas (e, poderíamos acrescentar, sexualidades).

Uma vez que essas categorias assumiram formas hierárquicas muito específicas sob o capitalismo, os melhores elementos da herança marxista procuraram entender sua proveniência histórica e transformá-las radicalmente. Isso pode ser visto na luta de longa data contra a escravidão doméstica imposta às mulheres, bem como na batalha para superar a subordinação imperialista das nações racializadas e seus povos.

Essa história se desenrolou aos trancos e barrancos, é claro, e ainda há muito trabalho a ser feito, em parte porque certas correntes do marxismo – como a da Segunda Internacional – foram contaminadas por elementos da ideologia burguesa.

No entanto, tal como mostraram com notável erudição estudiosos como Losurdo e outros, os comunistas estiveram na vanguarda dessas lutas de classes para superar a dominação patriarcal, a subordinação imperialista e o racismo, indo às próprias raízes desses problemas: as relações sociais capitalistas.

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A política identitária, tal como se desenvolveu nos principais países imperialistas e particularmente nos EUA, tentou enterrar essa história para se apresentar como uma forma radicalmente nova de consciência, como se os comunistas sequer tivessem pensado na questão das mulheres ou na questão nacional/racial.

Os teóricos político-identitários tendem assim a afirmar arrogante e ignorantemente que são os primeiros a abordar essas questões, superando assim um determinismo econômico imaginado por parte dos chamados “marxistas reducionistas”. [37]

Além disso, em vez de reconhecer essas questões como locais de luta de classes, eles tendem a usar a política identitária como uma cunha contra a política de classe. Se fazem algum gesto para a integração da classe trabalhadora em suas análises, geralmente reduzem-no a uma questão de identidade pessoal, e não a uma relação estrutural de propriedade.

Assim, as soluções que propõem tendem a ser epifenomênicas, ou seja, focam em questões de representação e simbolismo, em vez de, por exemplo, superar as relações de trabalho de escravidão doméstica e super-exploração racializada por meio de uma transformação socialista da ordem socio-econômica.

Portanto, são incapazes de levar a mudanças significativas e sustentáveis porque não vão à raiz do problema. Como Adolph Reed Jr. argumentou com sua sagacidade mordaz característica, os identitários são perfeitamente felizes em manter as relações de classe existentes – incluindo as relações imperialistas entre as nações, eu acrescentaria – com a condição de que haja a proporção necessária de representação de grupos oprimidos dentro do sistema na classe dominante e no estrato dirigente profissional.

Além de ajudar a deslocar a política de classe e a análise dentro da esquerda ocidental, a política identitária deu uma contribuição importante para dividir a própria esquerda em debates isolados sobre questões identitárias específicas.

Em vez de unidade de classe contra um inimigo comum, ela divide (e conquista) trabalhadores e oprimidos, encorajando-os a se identificarem em primeiro lugar como membros específicos de gêneros, sexualidades, raças, nações, etnias, grupos religiosos, etc.

Nesse sentido, a ideologia da política identitária é, na verdade, num nível muito mais profundo, uma política de classe. É a política de uma burguesia que visa dividir os trabalhadores e oprimidos do mundo a fim de governá-los mais facilmente.

Não surpreende, portanto, que a política identitária seja a política da classe dirigente profissional no núcleo imperial. Ela domina suas instituições e os media, e é um dos principais mecanismos para o avanço na carreira dentro do que Reed chama de “indústria da diversidade”.

Incentiva todos os envolvidos a se identificarem com seu grupo específico e promoverem seus próprios interesses individuais. Além disso, devemos ressaltar que o despertar também tem o efeito de trazer algumas pessoas aos braços da direita.

Se a cultura política dominante fomenta uma mentalidade de clã combinada com individualismo competitivo, então não é surpreendente que homens e pessoas brancas também – como uma resposta parcial à sua percepção de privação de direitos pela indústria da diversidade – tenham impulsionado suas agendas particulares como “vítimas” do sistema.

Políticas identitárias desprovidas de análise de classe são, portanto, absolutamente suscetíveis a permutações de direita e até fascistas.

Por fim, seria negligente não mencionar que a política identitária, que tem suas raízes ideológicas recentes na Nova Esquerda e no social-chauvinismo que Lenine havia diagnosticado anteriormente na esquerda europeia, é uma das principais ferramentas ideológicas do imperialismo.

A estratégia de dividir para reinar tem sido usada para dividir países específicos, fomentando conflitos religiosos, étnicos, nacionais, raciais ou de género. [38] As políticas identitárias também têm servido como justificativa direta para a intervenção e intromissão imperialista, bem como para campanhas de desestabilização, seja no que diz respeito às supostas causas da libertação das mulheres no Afeganistão, ao apoio a rappers negros “discriminados” em Cuba, ao apoio a candidatos indígenas supostamente “eco-socialistas” na América Latina.

A campanha para “proteger” minorias étnicas na China ou outras operações de propaganda do império norte-americano neste campo da guerra cultural retrata os EUA como um benevolente benfeitor de identidades oprimidas.

Assim, podemos ver claramente a completa desconexão entre a política puramente simbólica da identidade e a realidade material das lutas de classes, em que a primeira pode – e fornece – uma fina capa para o imperialismo. Também a este nível, a política identitária é, em última análise, uma política de classe: uma política da classe dominante imperialista.

Slavoj Žižek é um acadêmico que teve uma grande influência nos círculos acadêmicos de esquerda de hoje e, é claro, provocou muitas controvérsias. Por que o encara como um “bobo da corte capitalista”? [39]

Žižek é um produto da indústria da teoria imperial. Como Michael Parenti apontou, a realidade é radical, o que significa que os trabalhadores no mundo capitalista enfrentam lutas materiais muito reais por emprego, moradia, saúde, educação, um ambiente sustentável e assim por diante.

Tudo isso tende a radicalizar as pessoas, e muitos gravitam em torno do marxismo porque ele realmente explica o mundo em que vivem, as lutas que enfrentam e propõe soluções claras e viáveis. É por essa razão que o aparato cultural capitalista tem que lidar com um interesse muito real pelo marxismo por parte das massas trabalhadoras e oprimidas.

Uma tática que ele desenvolveu, particularmente para o público jovem e membros do estrato dirigente profissional, é promover uma versão altamente mercantilizada do marxismo que perverte sua substância fundamental.

Dessa forma, ele tenta transformar o marxismo numa marca de moda a ser vendida como qualquer outra mercadoria, em vez de um quadro teórico e prático coletivo para a emancipação de uma sociedade movida a mercadorias.

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Žižek é perfeito para este projeto de muitas maneiras. Ele era um informante anti-comunista dos EUA que cresceu na República Socialista Federal da Jugoslávia. Ele afirma regularmente que sua experiência subjetiva como um intelectual pequeno-burguês que procurou desenvolver sua carreira no Ocidente de alguma forma lhe dá um direito especial de testemunhar a verdadeira natureza do socialismo. Anedotas pessoais sobre sua experiência substituem, assim, a análise objetiva. Sem surpresa, para um oportunista em busca de riqueza e glória, Žižek sentiu que sua pátria socialista era inferior aos países capitalistas ocidentais que lhe proporcionaram tal reconhecimento e que ele é classificado como “um dos principais pensadores globais” pela revista Foreign Policy (um braço do Departamento de Estado dos EUA).

Žižek gaba-se abertamente do papel que desempenhou no desmantelamento do socialismo na Jugoslávia. Ele era o principal colunista de uma proeminente publicação dissidente, Mladina, que o Partido Comunista Jugoslavo acusou de ser apoiado pela CIA. Ele também cofundou o Partido Liberal Democrata e concorreu como seu candidato presidencial na primeira república separatista da Eslovênia, prometendo que iria “ajudar na decomposição do aparato ideológico socialista”. [40]

Embora tenha perdido por uma margem estreita, ele apoiou abertamente o Estado esloveno e seu partido no poder após a restauração do capitalismo e, portanto, durante todo o brutal processo de terapia de choque capitalista que levou a uma queda catastrófica no padrão de vida da maioria da população (mas não para ele).

O partido pró-privatização que ele co-fundou também estava claramente orientado para a integração no campo imperialista, pois era o principal proponente da adesão à União Europeia e à NATO. Vejo esse liberal do Leste Europeu como o bobo da corte do capitalismo porque ele faz do marxismo motivo de chacota, e é justamente por isso que ele tem sido tão amplamente promovido pelas forças dominantes dentro da sociedade capitalista.

Mais do que uma ciência coletiva de emancipação enraizada em lutas materiais reais, o marxismo, como Zizek o entende, é, acima de tudo, um discurso provocador de malandragem intelectual que se reduz à postura política pequeno-burguesa de um enfant terrible oportunista.

Suas travessuras e seu “cosplay” comunista encantam a burguesia e chamam a atenção dos incultos. Ele tem, como um bufão, o dom de fazer as pessoas se irritarem ou rirem, o que facilmente se traduz nos “likes” da era digital.

Ele também é particularmente bom em divulgar os produtos de Hollywood e do aparato cultural burguês. Obviamente, o Big Capital adora esse trapaceiro, que forrou os bolsos no processo. Como todo bom bufão, ele conhece os limites do decoro cortesão e, em última análise, os respeita, denegrindo o socialismo, promovendo a acomodação capitalista e, muitas vezes, até apoiando diretamente o imperialismo. Se ele é de fato o “intelectual mais perigoso do mundo”, como às vezes é descrito na imprensa burguesa, é porque põe em risco o projeto marxista de combate ao imperialismo e construção de um mundo socialista.

Confirmando a relação que o sistema constrói entre elevação objetiva e deriva subjetiva para a direita, Žižek tornou-se cada vez mais reacionário em seu apoio ao imperialismo. Considere seu julgamento peremptório sobre os esforços atuais para desafiar o neocolonialismo na África: “é claro que as revoltas 'anticoloniais' na África Central são ainda piores do que o neocolonialismo francês”.  [41]

Em outra intervenção pública recente, ele forneceu uma ilustração notavelmente clara do tipo de revolução que ele apoia. Ao analisar as revoltas do verão de 2023 na França após o assassinato de Nahel Merzouk pela polícia, ele se baseou na ideia marxista (como costuma fazer) de que os levantes fracassarão se não houver uma estratégia organizacional que possa levá-los à vitória.

Em seguida, ele deu um exemplo de uma revolução bem-sucedida: “Protestos e levantes públicos podem desempenhar um papel positivo se forem sustentados por uma visão emancipatória, como a revolta de Maidan na Ucrânia em 2013-2014”. [42]

Como foi amplamente documentado, a revolta do Maidan foi um golpe de Estado fomentado e apoiado pelo Estado de segurança nacional dos EUA. [43] Isso significa que ele considera um golpe apoiado pelo imperialismo, que Samir Amin chamou de “golpe euro-nazista”, como um exemplo “positivo” de uma “visão emancipatória” que levou a uma revolução bem-sucedida.  [44]

Essa posição, assim como seu apoio incondicional à guerra por procuração entre os Estados Unidos e a NATO na Ucrânia, esclarece o que significa ser o “intelectual mais perigoso” do mundo: ele é um filo-imperialista disfarçado de comunista.

O Ocidente há muito tempo considera os Estados Unidos um modelo de democracia liberal. Mas, você acha que os Estados Unidos nunca foram uma democracia.  [45] Pode explicar o seu ponto de vista?

GR: Objetivamente falando, os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Foi fundada como uma república e os chamados pais fundadores eram abertamente hostis à democracia. Isso é óbvio a partir dos The Federalist Papers, das anotações feitas na Convenção Constitucional de 1787 na Filadélfia, e dos documentos fundadores dos Estados Unidos, bem como da prática material do governo que foi originalmente estabelecida na colônia.

Como todos sabem, a população indígena dos Estados Unidos, referida como os “índios selvagens impiedosos” na Declaração de Independência, não recebeu poder democrático na recém-criada república, nem tão pouco os escravos africanos ou as mulheres. [46]

O mesmo se aplicava à média dos trabalhadores brancos. Estudiosos como Terry Bouton documentaram em pormenores: “a maioria dos homens brancos comuns… não acreditavam que a Revolução [Americana] terminaria com governos que fizessem dos seus ideais e interesses o objetivo principal. Pelo contrário, estavam convencidos de que a elite revolucionária havia refeito o governo para seu próprio benefício e para minar a independência das pessoas comuns”. [47]

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Afinal, a Convenção Constitucional não estabeleceu eleições populares diretas para o presidente, a Suprema Corte ou senadores. A única exceção foi a Câmara dos Deputados. Contudo, legislações estaduais estabeleciam qualificações, que quase sempre exigiam a propriedade como base para o direito de voto.

Não surpreende, portanto, que os críticos progressistas da época tenham apontado isso. Patrick Henry afirmou categoricamente: a América não é uma democracia. [48] George Mason descreveu a nova constituição como “a tentativa mais ousada de estabelecer uma aristocracia despótica entre homens livres que o mundo já testemunhou”. [49]

Embora o termo república fosse amplamente usado para descrever os Estados Unidos na época, isso começou a mudar no final da década de 1820, quando Andrew Jackson, também conhecido como o “assassino de índios” por suas políticas genocidas, fez uma campanha presidencial populista.

Ele se apresentava como um democrata que acabaria com o governo dos patrícios de Massachusetts e Virgínia. Embora nenhuma mudança estrutural tenha sido feita no modo de governo, políticos como Jackson e outros membros da elite começaram a usar o termo democracia para descrever a república, implicando que o governo servia aos interesses do povo. Essa tradição, é claro, continuou: democracia é um eufemismo para o governo oligárquico burguês.

Ao mesmo tempo, houve dois séculos e meio de luta de classes nos EUA, e as forças democráticas muitas vezes ganharam concessões muito significativas da classe dominante.

O escopo das eleições populares foi ampliado para incluir senadores e o presidente, embora o colégio eleitoral ainda não tenha sido abolido e os juízes da Suprema Corte ainda sejam nomeados vitaliciamente. A conquista se estendeu a mulheres, afro-americanos e nativos americanos.

Trata-se de conquistas importantes que devem, naturalmente, ser defendidas, ampliadas e tornadas mais substanciais por meio de reformas democráticas de todo o processo eleitoral e das campanhas eleitorais. No entanto, por mais importantes que sejam esses avanços democráticos, eles não alteraram o sistema geral de governo plutocrático.

Num estudo muito importante baseado numa análise estatística multivariada, Martin Gilens e Benjamin I. Page mostraram que “elites econômicas e grupos organizados que representam interesses empresariais têm influência substancial na política do governo dos EUA, enquanto os cidadãos médios têm pouca ou nenhuma influência”. [51]

Esta forma plutocrática de governo não é apenas operativa a nível nacional, é claro, mas também a nível internacional. Os EUA têm tentado impor sua forma antidemocrática de governação corporativa sempre que podem. Entre o fim da Segunda Guerra Mundial e 2014, de acordo com a pesquisa de William Blum, Washington tentou derrubar mais de cinquenta governos estrangeiros, a maioria dos quais fora eleita democraticamente. Os Estados Unidos são um império plutocrático, não uma democracia em qualquer sentido substantivo do termo.

É claro que reconheço que expressões como democracia burguesa, democracia formal e democracia liberal são frequentemente usadas, por várias razões, para indexar essa forma de plutocracia. Também é verdade, e vale a pena ressaltar, que a existência de certos direitos democráticos formais sob o regime plutocrático é uma grande vitória para os trabalhadores, cuja importância não deve de forma alguma ser minimizada.

Em última análise, o que precisamos é de uma avaliação dialética que dê conta da complexidade dos modos de governo, que incluem o controle oligárquico do Estado nos EUA e direitos importantes conquistados por meio da luta de classes.

Como o senhor avalia a “liberdade de expressão” defendida pela burguesia? A “liberdade de expressão” realmente existe no mundo burguês de hoje?

A ideologia burguesa procura isolar a questão da liberdade de expressão da questão do poder e da propriedade, transformando-a num princípio abstrato que rege as ações de indivíduos isolados. Essa abordagem tenta excluir qualquer análise materialista dos meios de comunicação e a importantíssima questão de quem os possui e controla. Essa ideologia desloca, assim, todo o campo de análise da totalidade social para a relação abstrata entre princípios teóricos e atos isolados do discurso individual.

Uma das vantagens dessa abordagem é que alguém pode receber o direito abstrato à liberdade de expressão justamente porque não tem o poder de ser ouvido. Essa é a condição da maioria das pessoas que vivem no mundo capitalista. Em princípio, eles podem expressar suas opiniões individuais da maneira que desejarem. Na realidade, porém, estas opiniões serão irrelevantes se não corresponderem às opiniões que os proprietários dos meios de comunicação social gostariam de difundir.

Eles simplesmente não receberão uma plataforma. Como a classe dominante tem um poder tão impressionante sobre os media, convenceu muitas pessoas de que a censura não existe, de modo que essas opiniões podem até ser abertamente reprimidas ou proibidas nas sombras sem que o público perceba.

Se visões fora do mainstream capitalista puderem ganhar uma ampla audiência e começarem a construir poder real, então saberemos do que a classe proprietária e o Estado burguês são capazes.

Eles têm uma longa história de descartar todo e qualquer apelo à liberdade de expressão em nome da destruição de seus inimigos de classe e de qualquer infraestrutura que apoie o livre fluxo de suas ideias. Poderíamos citar como exemplos as Leis de Estrangeiros e Sedição, os Ataques de Palmer, o Ato Smith, o Ato McCarran, a era McCarthy ou a “nova” Guerra Fria. Desde o início da operação militar especial russa na Ucrânia, o mundo recebeu uma lição objetiva sobre o controle quase total que a burguesia exerce sobre os media dentro dos Estados Unidos.

Além da censura no YouTube e nas redes sociais, Russia Today e Sputnik, todos os principais meios de comunicação marcharam ao mesmo ritmo como propaganda anti-Rússia e anti-China, bem como apoio incondicional ao poder dos EUA.

O direito à liberdade de expressão defendido pela burguesia equivale à liberdade da classe dominante de possuir os meios de comunicação para poder decidir livremente quais opiniões são dignas de amplificação e divulgação, e quais podem ser marginalizadas ou censuradas em silêncio.

Mencionou num de seus artigos que “os modos fascistas de governo são uma parte muito real e presente da chamada ordem mundial liberal”.  [53] Por que acredita nisso?

Em minha pesquisa para um livro, provisoriamente intitulado Fascismo e a solução socialista, venho desenvolvendo um quadro explicativo que põe em questão o paradigma dominante de um Estado, de um governo. De acordo com a opinião geral, cada Estado (se não estiver em guerra civil aberta) tem apenas um modo de governo em um determinado momento. O problema desse modelo não dialético pode ser facilmente visto nas democracias ditas liberais burguesas do Ocidente, como os Estados Unidos.

Como documentei num artigo sobre o assunto, o governo dos EUA reabilitou dezenas de milhares de nazistas após a Segunda Guerra Mundial. [54] Muitos receberam passagem segura para os Estados Unidos por meio de operações como o Paperclip e foram integrados em suas instituições científicas, de inteligência e militares (incluindo a NATO e a NASA).

Muitos outros foram incorporados em exércitos secretos em toda a Europa, bem como em redes de inteligência europeias e até mesmo o governo (como o marechal Badoglio na Itália).  [55] Outros ainda foram canalizados para a América Latina ou outras partes do mundo. No caso dos fascistas japoneses, a CIA os devolveu ao poder. Eles assumiram o Partido Liberal e transformaram-no num clube de direita para os ex-líderes do Japão imperial.

Essa rede global de anti-comunistas empoderados pelo império americano envolveu-se em guerras sujas, golpes, desestabilização, sabotagem e campanhas terroristas. Se é verdade que o fascismo foi derrotado na Segunda Guerra Mundial, principalmente graças ao sacrifício de cerca de 27 milhões de soviéticos e 20 milhões de chineses, não é de todo verdade que tenha sido eliminado, mesmo dentro das chamadas democracias liberais.

Pode-se ser tentado a dizer, como especialistas liberais progressistas às vezes afirmam, que os EUA implantam formas “fascistas” de governo no exterior, mas mantêm uma democracia na frente interna. No entanto, isso não é exatamente verdade.

A análise histórico-materialista, como argumentei em alguns de meus trabalhos, precisa sempre levar em conta três dimensões heuristicamente distintas:   história, geografia e estratificação social.

Nesse sentido, é importante examinar toda a população, não simplesmente aqueles que ocupam o mesmo segmento de classe que os especialistas liberais. Considere-se, por exemplo, a população indígena. Submetidos a uma política genocida de eliminação e depois sequestrados em reservas controladas e supervisionadas pelo Estado norte-americano, muitos – particularmente os mais pobres – continuam a ser alvo do terror policial racista e a lutar pelos direitos humanos e democráticos básicos. [56]

O mesmo se aplica aos segmentos pobres e operários da população afro-americana, bem como aos imigrantes. É assim que devemos entender a crítica contundente de George Jackson aos Estados Unidos como “o Quarto Reich”. [57]

Certos setores da população, ou seja, a classe pobre e trabalhadora de outras etnias que lutam para sobreviver, são frequentemente governados principalmente através da repressão estatal e para-estatal, não através de um sistema de representação democrática e direitos. Por que então assumiríamos que eles vivem numa democracia? Além disso, não esqueçamos que os próprios nazistas viram nos Estados Unidos a forma mais avançada da arte de governar o apartheid racial e usaram-na explicitamente como modelo. [58]

O paradigma multimodo de governo é dialético na medida em que atenta para a dinâmica de classes que opera na sociedade capitalista e para o fato de que os vários elementos da população não são governados da mesma maneira.

Membros da classe dirigente profissional nos Estados Unidos, por exemplo, gozam de certos direitos democráticos no sentido formal, e a eles podem recorrer com êxito em várias formas de luta de classes legais. Aqueles que estão sob a bota do capitalismo como uma população super-explorada são muitas vezes governados de uma maneira muito diferente, especialmente se começarem a se organizar para tirar a bota do pescoço, como foi o caso do Dragão (como Jackson era conhecido).

Eles estão sujeitos ao terror policial e à violência policial, e seus supostos direitos são muitas vezes indiscriminadamente prejudicados, como os 29 Panteras Negras e 69 ativistas indígenas americanos assassinados pelo FBI e pela polícia entre 1968 e 1976 (de acordo com os cálculos de Ward Churchill).

Para entender como a governação realmente funciona no capitalismo, é importante adotar uma abordagem dialética minuciosa que preste atenção aos seus diferentes modos.

A chamada democracia liberal funciona como a boa polícia do capitalismo, prometendo direitos e representação aos sujeitos obedientes. É amplamente empregada para governar as camadas de classe média e média-alta, bem como aqueles que aspiram a elas. O polícia mau é desencadeado sobre os segmentos pobres e descontentes da população, tanto no país quanto no exterior.

Obviamente, é preferível ser governado pelo polícia bom, e a defesa e a expansão de formas ainda limitadas de democracia são objetivos táticos dignos.

No entanto, é estrategicamente importante reconhecer que – como no caso de um interrogatório policial – o polícia bom e o polícia mau trabalham juntos pelo mesmo Estado e com o mesmo objetivo: manter, e até intensificar, as relações sociais capitalistas usando a cenoura da democracia burguesa ou o garrote do autoritarismo.

Como a esquerda deve resistir à hegemonia ideológica da burguesia? Que tipo de teoria revolucionária devemos construir?

No mundo capitalista, a hegemonia ideológica da burguesia é mantida pelo impressionante controle que exerce sobre o aparato cultural, ou seja, todo o sistema de produção, distribuição e consumo cultural.

«Cinco corporações gigantes”, escreve Alan MacLeod, “controlam mais de 90% do que a América lê, assiste ou ouve”. [63] Essas megacorporações trabalham em estreita colaboração com o governo dos EUA. Seu objetivo foi claramente expresso pelo diretor da CIA, William Casey, em 1981: “Saberemos que nosso programa de desinformação está completo quando tudo o que o público americano acredita for falso”. [64]

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Essas são as condições objetivas da luta ideológica num país como os Estados Unidos. Portanto, é ingênuo pensar que simplesmente temos que desenvolver uma análise correta e compartilhar nossos pontos de vista, convencendo as pessoas por meio de argumentação racional.

Para ter uma tração real, temos que trabalhar coletivamente. Num livro em que estou trabalhando atualmente com Jennifer Ponce de León, que examina a cultura como um local de luta de classes, distinguimos heuristicamente três táticas diferentes. Primeiro, a tática do cavalo de Tróia é usar o aparato cultural burguês contra si mesmo, aproveitando sua extraordinária infraestrutura para espalhar mensagens contra-hegemônicas (Boots Riley é um ótimo exemplo de alguém que conseguiu fazer isso).

Uma segunda tática é desenvolver um aparato alternativo para a produção, circulação e recepção de ideias. Há muitos esforços importantes em andamento nessa frente, desde mídia alternativas e publicações até plataformas educacionais, espaços culturais, redes ativistas e centros comunitários. Ponce de Léon e eu estamos envolvidos no Taller de Teoría Crítica/Atelier de Théorie Critique, que se dedica a esse tipo de trabalho. [65]

Por fim, há os aparatos socialistas que se desenvolveram em países que alavancaram o poder da burguesia. As notícias, a informação e a cultura que produzem fornecem uma alternativa real ao aparato cultural capitalista. Para citar apenas dois exemplos importantes no Hemisfério Ocidental, a Prensa Latina, em Cuba, e a Telesur, na Venezuela fazem um trabalho importante.

Quanto ao tipo de teoria revolucionária de que precisamos, eu não poderia concordar mais com Cheng Enfu. Ele argumentou de forma convincente, seguindo o trabalho de muitos outros, que o marxismo é criativo e precisa se adaptar regularmente a situações em mudança. [66]

Longe de ser uma doutrina imutável, é o que Losurdo chamou de um processo de aprendizado que muda com os tempos. Neste momento, há muito trabalho a fazer nesta frente.

Como vivo no núcleo imperial, acrescento que também é essencial desenvolver a teoria e a prática revolucionárias nesta região específica, que até agora tem sido imune às tomadas do poder do Estado pela classe trabalhadora.

Em geral, a teoria revolucionária mais importante é a que ajuda na complicada e difícil tarefa de construir o socialismo. Houve muitas surpresas e muito se aprendeu desde 1917. A situação global hoje é muito diferente do que era no auge da III Internacional ou durante a chamada Guerra Fria.

Os países socialistas estão trabalhando em conjunto com os países capitalistas determinados ao desenvolvimento nacional para construir novos marcos internacionais para enfrentar a ordem mundial imperial (BRICS+, a Iniciativa Cinturão e Rota, a Organização de Cooperação de Xangai, ASEAN, etc).

Revoltas recentes na África Ocidental e Central desafiaram o regime neocolonial da França na região e o imperialismo ocidental.

Compreender e promover essas e outras lutas pela libertação anticolonial e pelo mundo multipolar emergente é uma tarefa teórica e prática vital. Ao mesmo tempo, é de suma importância poder elucidar como a contestação da ordem mundial imperialista e o desenvolvimento da multipolaridade podem ser trampolins para a expansão do projeto socialista. Este é um dos problemas mais prementes dos nossos dias.


Notas

1. Ver Raúl Antonio Capote, Enemigo (Madrid: Ediciones Akal, 2015).
2. As informações contidas neste parágrafo e nos parágrafos seguintes foram compiladas a partir de múltiplas fontes, incluindo pesquisas de arquivo, inúmeros pedidos da Lei de Liberdade de Informação e obras como Philip Agee e Louis Wolf, eds., Dirty Work: The CIA in Western Europe, 1ª ed. (Dorset: Editora Dorset, 1978); Frédéric Charpier, A CIA na França: 60 ans d'ingérence dans les affaires françaises (Paris: Editions du Seuil, 2008); Ray S. Cline, Segredos, Espiões e Estudiosos (Washington, DC: Acrópole, 1976); Peter Coleman, The Liberal Conspiracy: The Congress for Cultural Freedom and the Struggle for the Mind of Postwar Europe (Nova Iorque: The Free Press, 1989); Allan Francovich, On Business (documentário), 1980; Pierre Grémion, Intelligence de l'anticommunisme: Le Congrès pour la liberté de la culture à Paris, 1950-1975 (Paris: Librairie Arthème Fayard, 1995); Victor Marchetti e John D. Marks, A CIA e o Culto da Inteligência (Nova York: Dell Publishing Co., 1974); Frances Stonor Saunders, A Guerra Fria Cultural (Nova York: The New Press, 2000); Giles Scott-Smith, The Politics of Apolitical Culture: The Congress for Cultural Freedom, the CIA, and Postwar American Hegemony (Nova York: Routledge, 2002); John Stockwell, The Praetorian Guard: America's Role in the New World Order (Boston: South End Press, 1991); Hugh Wilford, The Mighty Wurlitzer: How the CIA Played Against America (Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2008).
3. Veja Wilford, O Poderoso Wurlitzer.
4. Ver Carl Bernstein, “A CIA e a Mídia”, Rolling Stone, 20 de outubro de 1977.
5. John M. Crewdson, “CIA-Built World Propaganda Network”, New York Times, 26 de dezembro de 1977.
6. Grupo de Trabalho sobre Maior Abertura da CIA, Memorando ao Diretor de Inteligência Central, Relatório da Força-Tarefa sobre Maior Abertura da CIA, 20 de dezembro de 1991, cia.gov.
7. Ver Crewdson, “World Propaganda Network”.
8. Citado em William F. Pepper, The Plot to Kill King (Nova York: Skyhorse, 2018), p. 186.
9. Crewdson, “Rede Mundial de Propaganda”.
10. Veja os artigos de Yasha Levine, Surveillance Valley (New York: PublicAffairs, 2018) e Alan Macleod no MintPress News: “National Security Search Engine: Google's Ranks Are Full of CIA Operatives”, 25 de julho de 2022; “Conheça os ex-agentes da CIA que decidem a política de conteúdo do Facebook”, 12 de julho de 2022; “Federal Tweet Office: Twitter está contratando um número alarmante de agentes do FBI”, 21 de junho de 2022; “The NATO Pipeline to TikTok: Why TikTok Employs So Many National Security Agents”, 29 de abril de 2022.
11. O Relatório do Comité Church foi rigorosamente controlado e supervisionado pela própria CIA, assim é provável que os números sejam muito maiores.
12. Ver Noam Chomsky et al., The Cold War and the University (Nova York: The New Press, 1997); Sigmund Diamond, Campus Engajado: A Colaboração das Universidades com a Comunidade de Inteligência, 1945-1955 (Oxford: Oxford University Press, 1992); Walter Rodney, A Revolução Russa: Uma Visão do Terceiro Mundo, ed. Robin D.G. Kelley e Jesse Benjamin (Londres: Verso, 2018); Christopher Simpson, Ciência da Coerção: Pesquisa em Comunicação e Guerra Psicológica, 1945-1960 (Oxford: Oxford University Press, 1996).
13. Ver The New School Archives, John R. Everett Records (NS-01-01-02), Série 3. Arquivos Temáticos, 1918–1979, Volume: 1945–1979, Agência Central de Inteligência (CIA), 1977–1978, Ajudas na Busca .archives.newschool.edu/repositories/3/archival_objects/34220. Uma grande coleção de documentos pormenorizam algumas das minúcias está disponível na Black Vault MKULTRA Collection, theblackvault.com. 14. Ver Gabriel Rockhill, Radical and Political History of Art (Nova York: Columbia University Press, 2014).
15. Ver Matthew Alford e Tom Secker, National Security Cinema: The Shocking New Evidence of Government Control in Hollywood (CreateSpace Independent Publishing Platform, 2017).
16. Citado em Alford e Secker, National Security Cinema, 49.
17. Ver, por exemplo, Michel Collon e Test Media International, Ukraine: La Guerre des images (Bruxelas: Investig'Action, 2023).
18. Veja Wilford, The Mighty Wurlitzer; Agee e Wolf, Trabalho Sujo; Charpier, a CIA na França.
19. Ver Daniele Ganser, NATO's Secret Armies (Nova Iorque: Routledge, 2004) e Allan Francovich, Gladio (documentário), British Broadcasting Corporation, 1992.
20. Ver Saunders, The Cultural Cold Ware Hans-Rüdiger Minow, Quand la CIA infiltrait la culture (documentário), ARTE, 2006.
21. O termo pós-estruturalismo é, em muitos aspectos, uma invenção anglófona, uma vez que, no contexto francês (pelo menos originalmente), os chamados pós-estruturalistas eram vistos como continuando e intensificando (embora de maneiras ligeiramente diferentes) o projeto estruturalista.
22. Michel Foucault, Dits et écrits 1954-1988, vol. 1 (Paris: Éditions Gallimard, 1994), p. 542. Para mais sobre Foucault, ver Gabriel Rockhill, “Foucault: The Faux Radical”, Los Angeles Review of Books, 12 de outubro de 2020, p. thephilosophicalsalon.com.
23. Ver Gabriel Rockhill, “The Myth of 1968 Thought and the French Intelligentsia”, Monthly Review 75, no. 2 (junho de 2023): 19–49.
24. Veja meu prefácio a Aymeric Monville, Neocapitalism According to Michel Clouscard (Madison: Iskra Books, 2023).
25. Diretoria de Inteligência, França: Deserção de Intelectuais de Esquerda, Agência Central de Inteligência, 1º de dezembro de 1985, p. 6, cia.gov.
26. Walter Rodney, Marxismo decolonial: ensaios sobre a revolução pan-africana (Londres: Verso, 2022), p. 46.
27. Grande parte das evidências para meus comentários pode ser encontrada nos seguintes artigos: Gabriel Rockhill, “The CIA and the Frankfurt School's Anti-Communism”, Los Angeles Review of Books, 27 de junho de 2022, thephilosophicalsalon.com, e Gabriel Rockhill, “Critical and Revolutionary Theory: For the Reinvention of Critique in the Age of Ideological Realignment”, in Domination and Emancipation: Remaking Criticism, ed. Daniel Benson (Lanham: Rowman and Littlefield Publishers, 2021), pp. 117–61.
28. Citado em Wolfgang Kraushaar, ed., Frankfurter Schule und Studentenbewegung: Von der Flaschenpost zum Molotowcocktail 1946-1995, vol. 1, Chronik (Hamburgo: Rogner and Bernhard GmbH and Co. Verlags KG, 1998), 252–53.
29. Sobre a Guerra de Suez, ver Richard Becker, Palestine, Israel, and the American Empire (São Francisco: PSL Publications, 2009), pp. 71–78.
30. Citado em Stuart Jeffries, Grand Hotel Abyss: The Lives of the Frankfurt School (Londres: Verso, 2016), p. 297. As declarações de Adorno e Horkheimer sobre Nasser são da mesma família da propaganda produzida pelos media ocidentais e agências de inteligência. Como Paul Lashmar e James Oliver argumentaram de forma convincente, o Departamento de Pesquisa de Informação (um escritório secreto de propaganda anti-comunista intimamente ligado ao MI6 e à CIA) pressionou a BBC e seus outros meios de comunicação a retratar Nasser como “um soviético”, que era “aquele que favorecia uma linha de propaganda polivalente para líderes anticoloniais” (Paul Lashmar e James Oliver, A Guerra Secreta de Propaganda da Grã-Bretanha: 1948–1977 [Phoenix Mill, Reino Unido: Sutton Publishing Limited, 1998], p. 64).
31. Ver Franz Neumann et al., Secret Reports on Nazi Germany: The Frankfurt School's Contribution to the War Effort, ed. Barry M. Katz, Inteligência Estrangeira: Pesquisa e Análise no Escritório de Serviços Estratégicos, 1942-1945 (Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1989); Tim B. Müller, Krieger und Gelehrte: Herbert Marcuse und die Denksysteme im Kalten Krieg (Hamburgo: Hamburger Edition, 2010).
32. Jürgen Habermas, The New Conservatism: Cultural Criticism and the Historians' Debate, ed. Shierry Weber Nicholsen (Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 1990), p. 69.
33. Ver Rockhill, “Teoria Crítica e Revolucionária”.
34. Nancy Fraser, “A Crise de Atenção do Capitalismo”, Dissidência63, nº 4 (outono de 2016): 35.
35. Fraser, “A crise de atenção do capitalismo”, p. 35.
36. Ver Tita Barahona, “Judith Butler, a papisa do 'feminismo' pós-moderno e seu apoio ao capitalismo ianque”, Canarias-Semanal, 7 de abril de 2022, canarias-semanal.org, e Ben Norton, “Postmodern Philosopher Judith Butler Repeated Donated to 'Top Cop' Kamala Harris”, 18 de dezembro de 2019, bennorton.com.
37. Ver, por exemplo, minhas críticas a Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser em Rockhill, “Teoria Crítica e Revolucionária”.
38. Stephen Gowans oferece muitos excelentes exemplos disso em seu livro Washington's Long War on Syria (Montreal: Baraka Books, 2017).
39. Gabriel Rockhill, “The Court Jester of Capitalism: Slavoj Žižek”, CounterPunch, 2 de janeiro de 2023.
40. Assista ao debate eleitoral televisionado de 1990 arquivado no YouTube: “Slavoj Žižek – 1990 Election Debate in Slovenia”, vídeo do YouTube, 9h40, postado em 18 de maio de 2021, youtube.com/watch?v=942h8enHCZs.
41. Slavoj Žižek, “Why the West Will Keep Losing in Africa: Neocolonialism Is Giving Birth to Miserable Authoritarianism”, New Statesman, 4 de setembro de 2023.
42. Slavoj Žižek, “A esquerda deve abraçar a lei e a ordem”, New Statesman, 4 de julho de 2023.
43. Ver, por exemplo, Collon, Ucrânia: La Guerre des imagese Pepe Escobar, “Why the CIA Tried a 'Maidan Uprising' in Brazil”, The Cradle, 10 de janeiro de 2023, new.thecradle.co.
44. Amin escreveu: “A tríade organizou em Kiev o que deveria ser chamado de 'golpe euro-nazista'. A retórica dos media ocidentais, que afirma que as políticas da Tríade visam promover a democracia, é simplesmente uma mentira” (Samir Amin, “Contemporary Imperialism”, Monthly Review 67, no. 3 [julho-agosto de 2015]: 23-36).
45. Ver Gabriel Rockhill, “America Is Not a Democracy, It Never Was”, CounterPunch, 13 de dezembro de 2017.
46. John Grafton, ed., The Declaration of Independence and Other Great Documents of American History 1775–1865 (Mineola, Nova York: Dover, 2000), 8. Ver também Roxanne Dunbar-Ortiz, An Indigenous Peoples' History of the United States (Boston: Beacon Press, 2015) e David Michael Smith, Endless Holocausts (Nova York: Monthly Review Press, 2023).
47. Terry Bouton, Taming Democracy: “The People”, the Founders, and the Turbulent End of the American Revolution (Oxford: Oxford University Press, 2007), p. 4.
48. Ralph Louis Ketcham, ed., The Anti-Federalist Papers and the Constitutional Convention Debates (Nova York: Signet, 2003), 199.
49. Herbert J. Storing, ed., The Complete Anti-Federalist, vol. 2 (Chicago: University of Chicago Press, 2008), p. 13.
50. Embora eu tenha alguns problemas com o quadro geral, forneço grande parte da evidência empírica para minhas afirmações no terceiro capítulo deste livro: Gabriel Rockhill, Contre-histoire du temps présent: Interrogations intempestives sur la mondialisation, la technologie, la démocratie.(Paris: CNRS Éditions, 2017). Também disponível em inglês: Counter-History of the Present: Untimely Interrogations into Globalization, Technology, Democracy (Durham: Duke University Press, 2017).
51. Martin Gilens e Benjamin I. Page, “Testing Theories of American Politics: Elites, Interest Groups, and Average Citizens”, Perspectives on Politics12, no. 3 (setembro de 2014): 564.
52. Ver William Blum, Killing Hope: US Military and CIA Interventions Since World War II (Londres: Zed Books, 2014), bem como seu ” Overthrowing Other People's Government: The Master List ” em williamblum.org.
53. Gabriel Rockhill, “Liberalism and Fascism: The Good Cop and the Bad Cop of Capitalism”, Black Agenda Report, 21 de outubro de 2020, blackagendareport.com.
54. Gabriel Rockhill, “The U.S. Did Not Defeat Fascism in WWII, It Discretely Internationalized It”, CounterPunch, 16 de outubro de 2020.
55. “O marechal Badoglio, ex-colaborador de Benito Mussolini, responsável por terríveis crimes de guerra na Etiópia, foi autorizado a se tornar o primeiro chefe de governo da Itália pós-fascista. Na parte libertada da Itália, o novo sistema parecia suspeito como o antigo, e por isso foi descartado por muitos como fascismo senza Mussolini, ou 'fascismo sem Mussolini'” (Jacques R. Pauwels, The Myth of the Good War [Toronto: Lorimer, 2015], p. 119).
56. Veja Dunbar-Ortiz, Uma História dos Povos Indígenas dos Estados Unidos e Smith, Holocaustos Sem Fim.
57. George L. Jackson, Sangue nos Meus Olhos (Baltimore: Black Classic Press, 1990), 9.
58. Ver, por exemplo, James Q. Whitman, Hitler's American Model (Princeton: Princeton University Press, 2018).
59. Ver John Bellamy Foster, Trump na Casa Branca: Tragédia e Farsa (Nova York: Monthly Review Press, 2017).
60. Ver Gabriel Rockhill, “Nazis in Ukraine: Seeing Through the Fog of the Information War”, Liberation News, 31 de março de 2022, liberationnews.org.
61. Veja Gabriel Rockhill, “Lessons from January 6th: an Inside Job”, CounterPunch, 18 de fevereiro de 2022.
62. Anna Massoglia, “Pormenores do dinheiro por trás dos protestos de 6 de janeiro continuam a surgir”, OpenSecrets News, 25 de outubro de 2021, opensecrets.org.
63. Alan MacLeod, ed., Propaganda na Era da Informação: Ainda Fabricando Consentimento (Nova York: Routledge, 2019).
64. Quanto à sua origem, confira esta discussão sobre esta afirmação tão citada: Tony Brasunas, “A CIA está tentando enganar todos os americanos?”, 9 de fevereiro de 2023, tonybrasunas.com.
65. Veja criticytheoryworkshop.com.
66. Ver Cheng Enfu, The Economic Dialectic of China (Nova York: International Publishers, 2021).
67. Um dos mais destacados marxistas dos Estados Unidos, John Bellamy Foster, tem feito um trabalho extremamente importante nessas três frentes.

8 de janeiro de 2024

Gabriel Rockhill | diretor executivo do Critical Theory Workshop/Atelier de Théorie Critique e professor de filosofia na Villanova University, na Pensilvânia. Atualmente está a terminar o seu quinto livro, The Intellectual World War: Marxism versus the Imperial Theory Industry (Monthly Review Press).

Zhao Dingqi | assistente de pesquisa no Instituto de Marxismo da Academia Chinesa de Ciências Sociais e editor de Estudos Socialistas Mundiais.

O original, em chinês, encontra-se no 11º volume de Estudos Socialistas Mundiais (2023). A versão em castelhano encontra-se em geoestrategia.es/noticia/42092/opinion/la-propaganda-imperialista-y-la-ideologia-de-la-intelectualidad-de-la-izquierda-occidental.html


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