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Militares chilenos matam dois mapuches e deixam um gravemente ferido na Araucanía

"Queremos repudiar energicamente essa política racista, violenta”, afirmou a presidenta da Convenção Constitucional, Elisa Loncon
Aldo Anfossi
La Jornada
Santiago

Tradução:

A militarização da Araucanía, no sul do Chile, ordenada pelo presidente Sebastián Piñera em meados de outubro, teve nesta quarta-feira (3) um saldo trágico com a morte de dois mapuches nas mãos de efetivos da Armada e dos Carabineiros, durante uma refrega ocorrida no município de Cañete, província de Arauco, 635 quilômetros a sudoeste de Santiago. 

“A esta hora se informa em Cañete de um weychafe (guerreiro) morto em combate e outro gravemente ferido, no contexto de enfrentamentos contra o exército que mantém ocupada a zona. 

“Informação preliminar diz que o weychafe caído seria do território de Huentelolen. Enquanto o outro weychafe se encontra com risco de morte e está sendo dirigido ao hospital de Tirúa”, foi a primeira informação conhecida pelas redes sociais do mundo autonomista mapuche.

Uma das vítimas fatais foi identificada como Jordan Liempi Machacan, de 23 anos. 

“Chile despertou”: Milhares comemoram dois anos do levante social e exigem “Fora, Piñera!”

Os detalhes dos acontecimentos que conduziram a essas mortes, em uma zona rural, em circunstâncias que povoadores mapuche realizavam uma marcha contra a militarização, eram desconhecidos avançada a tarde; mas a gravidade foi confirmada pela presidenta da Convenção Constitucional, Elisa Loncon, junto a outros convencionais mapuche, responsabilizando a Piñera.

“Queremos repudiar energicamente essa política racista, violenta, do Estado e do governo que está afetando nossa comunidade. A Convenção está trabalhando em função de instalar a plurinacionalidade, em que se respeitem os direitos das nações originárias, a legítima defesa do território, a autonomia e a autodeterminação, pela via política, não pela repressão como instalou o governo”, disse Loncon. 

O convencional Adolfo Millabur, também representante da etnia mapuche e que provém da zona onde houve as mortes, explicou que as comunidades indígenas haviam se reunido para repudiar a militarização. 

“Como convencionais mapuche e de cadeiras reservadas, enquanto o governo tomou a decisão de levar um Estado de Exceção militarizando a zona, lhe advertimos que o desenlace más provável ia ser o que hoje conhecemos. Lamentavelmente não nos escutou e fazemos responsáveis o governo, as forças militares da Armada e dos Carabineiros pelas mortes destas pessoas de Cañete”, afirmou. 

"Queremos repudiar energicamente essa política racista, violenta”, afirmou a presidenta da Convenção Constitucional, Elisa Loncon

Aníbal Aguaisol
Policiais cercam zona de recuperação de terras mapuche após violenta repressão há duas semanas, em Cuesta del Ternero.

Em 14 de outubro, Piñera decretou o Estado de Emergência nas províncias de Malleco, Cautín, Biobío e Arauco, justificando que “é para enfrentar melhor o terrorismo, o narcotráfico e o crime organizado”, ao admitir o fracasso de seu governo em garantir a ordem pública nessa zona. 

Cerca das 22 horas, o ministro do Interior, Rodrigo Delgado, entregou uma enredada explicação: falou que ocorreram em uma estrada que “foi tomada por muito tempo por organismos radicais que predominam no setor com violência e terrorismo” na qual “hoje ocorreram dois fatos, um cerca das 14 horas e outro cerca dos 18 horas em um raio próximo”; no primeiro uma patrulha mista de carabineiros e da Armada “é atacada com armas de grosso calibre” que é repelido “com armas de serviço”. 

Delgado não reconheceu que houve mortos até que a imprensa perguntou – admitiu dois mortos e três feridos -, mas pôs em dúvida que houvessem sido causadas pelos militares, mas falou da possibilidade de “fogo cruzado”. 

Como na era Pinochet, militares chilenos ocupam Wallmapu, terra ancestral Mapuche

Candidato presidencial com Covid-19

Em outra ordem de coisas, na tarde dessa quarta-feira o candidato presidencial do esquerdista Pacto Aprovo Dignidade, deputado Gabriel Boric (35 anos), confirmou que deu positivo o teste para Covid-19 e que iniciava uma quarentena sanitária. 

A notícia praticamente acabou com suas possibilidades de retomar as atividades presenciais de campanha, pois as eleições serão em 21 de novembro. 

Boric lidera a intenção de voto nas pesquisas de opinião com 32%; mas é seguido de perto pelo ultradireitista/pinochetista José Antonio Kast, da Frente Social Cristã, com 27%.

Tanto Kast como a candidata democrata-cristã Yasna Provoste, da mesma forma que vários deputados e outros dirigente que resultaram ter “contatos estreitos” com Boric, anunciaram que também iniciavam quarentena. 

Aldo Anffosi, especial para La Jornada desde Santiago do Chile

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


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